Estado e prefeitura trocam acusações sobre área onde seis pessoas morreram em Embu das Artes

ALFREDO HENRIQUE
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SÃO PAULO, PS (FOLHAPRESS) - O governo estadual e a prefeitura de Embu das Artes (Grande SP) trocam acusações sobre a área de risco onde seis pessoas de uma mesma família morreram, após serem soterradas por um deslizamento de terra na noite terça-feira (29). A localização e o resgate dos corpos pelos bombeiros, em meio à lama e escombros, durou quase 24 horas. Ao menos 200 famílias foram diretamente impactadas pelo incidente, conforme afirmado pela Prefeitura de Embu das Artes, gestão Ney Santos (PRB), à reportagem. Segundo o governo estadual, gestão João Doria (PSDB), a Defesa Civil realizou estudos sobre áreas de risco em Embu das Artes, em 2014 e 2018, em parceria com o Serviço Geológico do Brasil e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas. "Os trabalhos de campo tiveram o acompanhamento direto da equipe da Defesa Civil municipal, sendo que as áreas que foram objeto de análise de risco em escala de detalhe foram apontadas como prioritárias pelo próprio município em oficina preparatória", diz trecho de nota. A região onde houve o deslizamento que matou a família, de acordo com o governo do estado, "não foi objeto de avaliação de risco detalhada". Porém, ela foi indicada como "área de risco muito alto" para deslizamentos de terra. "Desta forma, devido ao conhecimento local intrínseco à atividade cotidiana da administração pública municipal aliado à existência de estudos anteriores que indicavam esta e outras áreas como suscetíveis ou em risco de escorregamentos e/ou inundações, as equipes municipais já dispunham de instrumentos que justificassem sua atuação no local visando a redução dos riscos à comunidade", diz trecho de nota do estado, se referindo à possibilidade de o governo municipal eventualmente realizar ações que poderiam ter impedido a tragédia de terça. Jones Donizette, assessor especial do prefeito de Ney Santos, que nesta sexta (1º) toma posse para segundo mandato, argumenta que o mais recente estudo feito pelo governo estadual, concluído em agosto, chegou às mãos do município com quatro meses de atraso. O levantamento apontou 18 áreas de risco no município, onde vivem cerca de 3.800 famílias. "Tomamos ciência [sobre as áreas de risco] na hora em que foi entregue [o estudo]. Ficamos espantados com a demora para a entrega deste conteúdo", afirmou o porta-voz. Segundo a gestão Doria, o levantamento foi encaminhado à prefeitura da Grande SP no último dia 9. Em nota divulgada em seu site, a Prefeitura de Embu das Artes afirma que, desde o recebimento do estudo, trabalha com base nas informações do levantamento "para que as devidas ações sejam tomadas já no primeiros dias de 2021." "Infelizmente o tardio envio do material para nossa cidade, impossibilitou que qualquer ação pudesse ser tomada pela prefeitura baseado no referido estudo. Sabendo ser impossível viabilizar qualquer ação desta natureza em apenas 20 dias", diz trecho de nota se referindo ao tempo passado entre a chegada do estudo e a tragédia que matou os seis familiares. O governo municipal acrescentou, ainda, ter solicitado recursos financeiros à gestão Doria para auxiliar as famílias que vivem nos 18 pontos de risco apontados pelo estudo, além das que precisaram sair de casa por causa do deslizamento de terça. Sobre os eventuais repasses financeiros, o governo estadual afirmou "estar aberto ao diálogo e à disposição para analisar as necessidades do município." A TRAGÉDIA Seis pessoas de uma mesma família morreram soterradas por causa da chuva da noite de terça (29), em Embu da Artes. Entre elas estavam dois bebês. Até a chegada dos bombeiros, vizinhos cavaram com as mãos o local do desbarrancamento para tentar encontrar eventuais sobreviventes. Uma sétima vítima da chuva na cidade, um homem de 56 anos, morreu ao ser levado pela enxurrada, quando tentava limpar um bueiro na esquina das ruas Perdizes e Previdência. A casa onde a família estava, na rua Pégaso, Jardim do Colégio, desabou por causa da força da água. Segundo a Defesa Civil, que afirmou que a área é considerada de risco, outras três residências também desabaram. Ao todo, 30 imóveis foram interditados. Os primeiros corpos encontrados foram os de Jaqueline Santos Gomes, 25 anos, e três filhos dela, de 8 meses, 5 e 7 anos. De acordo com a Defesa Civil, a chuva e o forte vento provocaram pontos de alagamento nos bairros Jardim Vazame, Jardim Casa Branca, Jardim do Colégio, Jardim Independência e Jardim Santo Eduardo. Dois filhos de Zenaide, que estavam em frente à residência no momento do deslizamento, não se feriram. "Houve um soterramento, deixando poucas possibilidades de fendas [onde possam entrar correntes de ar], para que as vítimas possam respirar", explicou o coronel Jefferson de Mello, porta-voz dos bombeiros, nesta quarta-feira (30), em coletiva de imprensa. O volume de terra que desbarrancou, ainda de acordo com o bombeiro, cobriu a casa onde as vítimas estavam com aproximadamente dois metros de terra, que foi retirada manualmente para o encontro dos corpos. Os bombeiros também monitoraram durante toda a tarde a possibilidade de chuva, que poderia dificultar os trabalhos. O coronel disse na ocasião que o Corpo de Bombeiros foi acionado às 21h36 e chegou ao local do deslizamento às 22h. Poucos minutos após o início das buscas, o corpo de Rian Vasconcelos Gomes, de 8 meses, foi o primeiro a ser localizado. O trabalho de resgate, feito por 41 bombeiros, prosseguiu até por volta das 3h desta quarta, quando Jaqueline foi encontrada já sem vida. Abaixo dela, estava o corpo de seu filho, Roberto Gomes, 5 . A retirada dos corpos da terra, misturada com escombros, durou mais de duas horas, acrescentou o oficial dos bombeiros. Durante este tempo, o corpo de Darlei Gomes, 7 anos, foi encontrado perto da mãe e do irmão anteriormente localizados. "No caso desta vítima [7 anos], usamos uma bolsa pneumática [que infla] para erguer uma laje que prendia o pé do menino", explicou o coronel Mello. A retirada do corpo de Darlei do soterramento, segundo o bombeiro, demorou cerca de cinco horas.