‘Especialista em cabelos crespos’ é racista com modelos negras em evento

Alma Preta
·7 minuto de leitura
Cabeleireiro das famosas é acusado de racismo por modelo (Foto: Reprodução/Instagram)
‘Especialista em cabelos crespos’ é racista com modelos negras em evento (Foto: Reprodução/Instagram)

Texto: Flávia Ribeiro Edição: Nataly Simões

Um salão cheio. Duas mulheres negras. O profissional toca o cabelo crespo de uma delas e diz: “Filhote de patrão. Patrão comeu aqui e virou isso aqui”. Depois, ele segura o cabelo da segunda modelo, cacheada, e fala: “Esse é também um cabelo brasileiro, pela ascendência étnica, mas aqui é um cabelo mais comum”. As imagens viralizaram na internet nesta semana. Mais uma vez, duas mulheres sofreram racismo por conta de seus cabelos no Brasil, país que tem a maior população negra fora do continente africano.

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Nina Vieira, do coletivo Manifesto Crespo, conta que ao ver o vídeo se sentiu desrespeitada pela forma como o cabeleireiro pegou nos cabelos das mulheres. “A desumanidade desse dito profissional estava explícita também nos gestos”, considera. A ativista comenta que a experiência do racismo disfarçado na forma de piadas e de brincadeiras também marca a vida. “Por ter ascendência indígena, sou negra de pele menos pigmentada e olho puxado. Já ouvi muitas vezes piadas insinuando que minha mãe teve relações extraconjugais com algum asiático da instituição em que ela trabalhava na época”, lembra.

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O episódio do vídeo pode parecer contraditório, uma vez que os cabelos crespos ganham cada vez mais opções de produtos no mercado e existem mais profissionais interessados em seus cuidados. “Eu vejo que a inserção do cabelo negro nos produtos criados por essas marcas é uma questão econômica, apenas. Não há um olhar para a complexidade do ser negro e do processo histórico brasileiro”, analisa Nina.

Ela acrescenta que a população negra movimenta muito o mercado de produtos cosméticos. “A partir do momento que passamos a fazer questão em cuidar de nossos cabelos naturalmente crespos, surgiu uma demanda para que essas empresas criassem novos produtos que respeitassem a nossa natureza, isso foi uma demanda que partiu das mulheres negras e que as marcas se apropriaram”, salienta.

Busca por cabelos afro no google sobe 309%

A demanda citada por Nina pode ser verificada em números. Dados divulgados em 2017, pelo Google BrandLab, de São Paulo, mostraram que, pela primeira vez no Brasil, as buscas por cabelos cacheados superaram a procura por cabelos lisos. O levantamento revelou também que houve um crescimento de 232% na busca por cabelos cacheados no último ano. Na mesma tendência, o interesse por cabelos afro subiu 309% nos últimos dois anos.

“Trata-se de libertação. É no corpo, mas atinge a mente. É sobre estar mais leve para vida a partir da aceitação de si mesmo. A cultura hegemônica definiu lugares e formatos pré-estabelecidos ao não-branco. Sempre nos foi limitado ser apenas o que estava disposto pelo colonizador. Quando a pessoa negra experimenta a liberdade de escolha e aceita suas características naturais, amplia espaço para permitir-se sonhar e viver integralmente. Parece superficial, mas a dominação imposta às mulheres negras por meio do cabelo, é capaz se cercear seus passos no mundo do trabalho, afetivo e social como um todo”, explica a ativista, e emenda com uma citação de uma autora brasileira reverenciada pelo movimento negro. “Como disse Lélia Gonzalez: ‘a valorização da estética negra é um ato de descolonização cultural’.”

Nina alerta que em casos, como o do vídeo, é importante romper o silêncio, como fez uma das modelos ao expor a situação nas redes sociais, e também buscar ajuda. “Sei que há casos em que a pessoa não tem condições para fazer isso num primeiro momento. Numa situação dessas, acho válido conversar com alguém que a compreenda para ser acolhida e se fortalecer e, se for o caso, fazer uma denúncia”, aconselha.

Embora as imagens viralizadas mostrem duas mulheres negras, o racismo também é uma realidade na vida dos profissionais negros. O barbeiro Alexandre Monteiro, por exemplo, relata que já passou por situações em que cumprimentou um cliente, que fingia não ouvir, e também de cliente que não falou com ele, mas cumprimentou todos os barbeiros ao seu lado.

Para quem, apesar do racismo, está buscando manter os cabelos naturalmente crespos, ele recomenda: “Temos que valorizar muito o crespo. É um cabelo que permite fazer qualquer tipo de penteado. Podemos usar enrolado, amarrado, black, etc. É possível usar de várias maneiras, diferente do cabelo liso, que só dá para usar liso”, diz Monteiro.

“Não somos filha de patrão nenhum”

O vídeo citado na reportagem traz o cabeleireiro Wilson Eliodório proferindo um treinamento para outros profissionais. Uma das modelos chamadas para o evento usou as redes sociais para falar da situação. Mariana Vassequi foi contratada por uma marca de cosméticos para cabelos para ser modelo do lançamento do novo produto e teve de ouvir frases racistas do profissional apresentado como um especialista.

Ela explica que não retrucou na hora por receio de se prejudicar profissionalmente e porque havia saído de longe para fazer o trabalho e precisava do pagamento. Segundo a modelo, nenhuma pessoa no salão naquele momento se manifestou. “Quando você diz com essa frase horrível que ‘patrão comeu’, você está falando de um estupro, ou você acha que mulheres escravas tinham liberdade sobre seus próprios corpos? Você está banalizando assédio e sendo machista! E vou te dizer uma coisa, querido, nós não somos filha de patrão nenhum. Você conhece minha família? Sabe quem é meu pai e minha mãe?”, escreveu na rede social.

“Parem de diminuir toda uma ancestralidade, diminuir toda uma história reduzindo sempre o negro (a), sempre o cabelo cacheado/afro/crespo à escravidão. A gente existe muito antes desse pequeno detalhe ter acontecido na história da humanidade! Se você olha para mim e acha que eu sou só isso você está muito enganado e atrasado”, acrescenta a publicação da modelo na rede social.

Mariana ainda relata outras frases de Eliodório, como: “Esse cabelo é um cabelo que vem do morro, e agora essas mulheres têm dinheiro e querem ir em salão chique. Por isso nós temos que saber mexer com elas”. A modelo pontua que as frases revelam o que o profissional pensa, mas não diz para as mulheres famosas que atende.

“Tenho muita culpa e muita vergonha”

Wilson Eliodório, que se autodeclara negro, também usou as redes sociais para falar da situação e se desculpar pelo ocorrido. Em seu perfil, ele ressalta a beleza da mulher negra e mostra fotos com pessoas famosas, como Taís Araújo, Gaby Amarantos, Pathy de Jesus, Ludmilla, dentre outras. Ele também demonstrou apoio às campanhas de combate ao racismo.

“Eu erro e o fato de ser negro não me isenta do erro, porque assim como você nasci nesse país racista. Sim, sofri preconceito, racismo”, afirma, no início do vídeo. “Eu trabalho com o cacho, entendo o cacho, o crespo. Sou muito orgulhoso de inspirar mulheres a assumirem seus cabelos naturais. Tenho muita culpa e muita vergonha de ter dito o que disse. Principalmente pela dor que causei, mas repito: ser preto não me faz imune da construção racista deste país. Estou em reeducação, assim como tanto de nós. Desculpa. Desculpa Mari, desculpa Ruth”, finaliza o cabeleireiro.

A legenda da publicação traz: “Sobre aprendizado. Para além das óbvias desculpas, meu compromisso de mudança de atitude e revisão de valores. O momento é de escuta e transformação”.