Eslovênia e Viny são cópias de Gil e Juliette? Comparações refletem xenofobia no "BBB 22"

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Participantes do
Participantes do "BBB" sofrem comparações (Foto: Reprodução/Instagram)

Foi só Vinícius, do Ceará, e Eslovênia, da Paraíba, entrarem no "BBB 22" para as comparações com Gil do Vigor e Juliette Freire, nordestinos que fizeram história na edição anterior, começarem nas redes sociais. O sotaque, a postura, as brincadeiras. Tudo foi automaticamente associado aos participantes da temporada passada. Há quem diga que, mesmo sem tempo de conhecer Viny e Eslô, o ranço pelos novos moradores da casa mais vigiada do Brasil foi instalado.

No começo, as postagens até pareciam memes. Depois, a discussão foi tomando outro tom e evidenciou forte xenofobia. Perfis parecidos sempre existiram no reality show da Globo, mas as reações costumam ser diferentes quando não se tratam de minorias. É o que observa Lucilda Cavalcante Lourenço, antropóloga e pesquisadora de raça, gênero, violência e movimentos políticos culturais em Fortaleza, no Ceará.

Segundo ela, Eslovênia e Vinícius têm suas individualidades e não podem ser rotulados apenas por serem nordestinos. Mesmo que os dois queiram copiar os cases de sucesso do "BBB 21", só o tempo irá dizer. "Não deu para a gente conhecer ninguém ainda. Eles chegaram ontem", reforça a acadêmica, que ainda enxerga LGBTfobia nas comparações entre Viny e Gil do Vigor.

"Comparar Vinícius ao Gil, antes de ser xenofobia, é uma espécie de LGBTfobia. Não é porque os dois são gays afeminados que têm o mesmo tipo de personalidade. O Vinícius tem uma estratégia de marketing que pode ser até mais próxima do que a Juliette fez nas redes sociais. Essas comparações são muito perigosas", avisa ela.

Para acabar com essa visão de que "todo nordestino é igual", Lucilda reforça a importância da representatividade. Conhecendo Vinícius e Eslovênia, inclusive, o público terá acesso a outras narrativas sobre o nordeste, que é plural e conta com nove estados.

"A Juliette foi uma figura que se beneficiou de uma narrativa sobre o nordeste muito hegemônica, a questão da seca, do interior. Foi uma narrativa que o sudeste compra sobre o nordeste e isso talvez se replique em outras figuras que vêm de lá, mas é importante ressaltar que o nordeste também não é só isso. Agora, com outras personalidades (no 'BBB'), podemos conhecer outras narrativas. Toda vez que vier alguém do nordeste, esse alguém vai vir com as suas particularidades", observa.

Por fim, a antrópologa acredita que o reality show poderá ajudar muitas pessoas a saírem da bolha a partir de debates como o que foi gerado após as comparações entre Eslô, Viny, Gil e Juliette. Praticar a empatia, buscar referências e ouvir o outro, segundo ela, são formas de lutar contra a xenofobia enraizada.

"O próprio fato de terem figuras negras, nordestinas, LGBTQIA+ no 'BBB', já são interessantes para a gente abrir o debate. Conversando, discutindo, a gente vai conhecendo o outro. É importante se abrir para enxergar. O Brasil tenta construir uma identidade branca e sudestina que não se abre para enxergar o diferente. Tudo que não é branco, hétero, padrão e do sudeste tem uma dificuldade de ser visto. Em primeiro lugar, precisamos dessa diversidade", defende a antropóloga.