Escritora russa volta ao país para desfilar sua esquisitice com show e livro novo

BRUNO MOLINERO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Estou diante do retrato de uma mulher intensamente ruiva. É a minha casa. Como me disseram depois, a mulher é a minha bisavó Aleksandra, que pertencia a uma família rica da 'intelligentsia'. Depois da revolução, começou a fome, e ela partiu de Moscou para a sua propriedade rural. No caminho, foi presa. E enterrada viva."

A história é uma das últimas coisas que esperamos ouvir quando perguntamos sobre a memória mais antiga de alguém. Mas estamos falando com Liudmila Petruchévskaia --e nada é óbvio ou clichê no entorno da escritora russa.

É só lembrar que, há dois anos, em sua última visita ao Brasil, ela subiu ao palco da Festa Literária Internacional de Paraty vestida toda de preto, com chapéu de abas largas e vários anéis, personificando o apelido que recebeu: a rainha do horror russo.

Mas as estranhezas vêm de antes, são quase de família. Nascida entre bolcheviques que se deram bem com a revolução de 1917, a ponto de irem morar no luxuoso hotel Metropol de Moscou, ela viu tudo mudar com a ascensão de Stálin ao poder. Não só seus parentes passaram a ser "inimigos do povo", mas, já adulta, teve sua obra proibida por décadas e chegou a ser acompanhada de perto pela KGB.

Esses causos de infância e de juventude, que misturam a crueza dos tempos soviéticos com a acidez contida em histórias como a da bisavó enterrada viva, compõem "A Menininha do Hotel Metropol", segundo livro de Petruchévskaia lançado no Brasil.

"Minha infância era tão faminta, sem roupas nem calçados, que só dá para imaginar crianças parecidas comigo hoje em dia em famílias com viciados em drogas", diz.

É essa fragilidade da infância, sempre às voltas com rupturas forçadas, pessoas que desaparecem sem mais nem menos e casos curiosos (como o fato de o poeta Maiakóvski ter paquerado a sua avó), que dá liga ao livro e um certo tom narrativo experimental, entre a memória e a ficção.

Formato que pode ser entranho para quem leu o último livro dela lançado no Brasil, "Era uma Vez uma Mulher que Tentou Matar o Bebê da Vizinha". Feito de "contos de fadas assustadores", o título é um prato cheio para quem deseja carimbar a autora como alguém que produz  somente histórias de horror e terror. 

Mas Petruchévskaia contesta o rótulo. "Não sou escritora de um só tema. Escrevo romances, contos místicos, mágicos, engraçados, histórias assustadoras, musiquinhas, poemas, roteiros para desenhos animados, peças, tragédias, comédias. Sempre acho interessante fazer alguma coisa nova."

Essa inquietação é parte do segredo para que a escritora seja considerada hoje um dos principais nomes da literatura russa, atualmente com sete espetáculos em cartaz ao mesmo tempo no país e amplamente traduzida no exterior --tornando-se uma improvável best-seller nos Estados Unidos, por exemplo.

O que não deixa de ser mais uma estranheza para quem foi proibida na Rússia até os 49 anos de idade por não produzir uma arte com lições de moral e exaltações da revolução. 

Aos 81 anos e no Brasil já há duas semanas, ela lança "A Menininha do Hotel Metropol" em São Paulo com um show no qual vai cantar músicas conhecidas, mas com letras novas escritas por ela, além de composições próprias. 

A escritora também adianta que vai participar de performances ao lado do filho, que fala português e passa temporadas no país --mesmo assim, Petruchévskaia só fala russo, e esta entrevista precisou ser feita por email e traduzida.

"Vai ser um show feito por nós dois. Meu filho Fédia me dá a possibilidade de comprar bonecas antigas no Rio, que eu coleciono e depois as desenho. São minhas modelos."

A MENININHA DO HOTEL METROPOL

Quando: Lançamento nesta segunda (20), às 19h

Onde: Teatro Eva Herz da Livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, São Paulo)

Autor: Liudmila Petruchévskaia. Trad. Cecília Rosas.

Editora: Ed. Companhia das Letras. (312 págs.).

Preço: R$ 69,90