Escritor americano cria possibilidade de retorno ao passado em livro

THALES DE MENEZES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há quem arrisque tratar o escritor americano Blake Crouch como um "novo Stephen King". Provavelmente porque todos os livros recentes do autor de 42 anos ganharam adaptações para as telas. Mas talvez a melhor referência para o trabalho de Crouch seja uma outra.

Ele mesmo admite a influência de Michael Crichton, criador de "Westworld" e "Jurassic Park". "Crichton foi o primeiro grande escritor a trazer a ciência para o centro das histórias, não apenas usá-la como base para os livros", diz Crouch, que tem seu romance mais recente lançado agora no Brasil, "Recursão".

A ideia é complexa. Uma nova tecnologia permite que uma pessoa volte a um determinado momento do seu passado e reviva o que aconteceu desde então. Assim, tem a chance de reescrever sua própria história. Quando essa pessoa alcança a data da sua partida para o passado, a cabeça dela entra em parafuso.

Ela passa a ter as duas memórias acumuladas, da vida original e da vida, digamos, repaginada. Na trama, personagens fazem isso várias vezes. Então vão acumulando memórias diferentes, o que pode causar grande abalo psicológico. É a doença Síndrome da Falsa Memória, que provoca uma onda de suicídios.

Crouch trabalha com duas narrativas. Nos dias atuais, traz o policial Barry Sutton se deparando com os suicídios. Em 2007, a cientista Helena Smith começa a desenvolver a tecnologia para mapear a memória das pessoas. Sua motivação para a pesquisa é sua mãe, que tem Alzheimer.

Crouch concorda que um dos atrativos do livro é a brincadeira de voltar ao passado e corrigir seus erros. "Escrevi o livro pensando nisso. Quanto mais velhos ficamos vem o arrependimento de algumas escolhas que fizemos. E ficamos martelando o sonho de poder voltar e consertar as coisas."

Barry e Helena protagonizam uma história de amor inusitada. Retornam inúmeras vezes em suas memórias, acumulando uma convivência de 200 anos. Seria um casamento em "looping"?

Crouch acha graça. "Não diria isso. São personagens que vivem a mesma relação cinco ou seis vezes, mas ela sempre se origina de uma maneira diferente e tem desdobramentos diferentes. E apenas Helena tem a memória das vidas anteriores a cada retorno ao passado. Todas as vezes ela tem que procurar Barry e reconquistá-lo."

"Recursão" começou a ser escrito sem que o autor soubesse como terminaria a história. "Muitos escritores começam a escrever sabendo o final de suas histórias, mas durante o processo gosto de ter um pouco da surpresa que quero dar ao leitor. Acho que assim consigo os pontos de reviravolta. É um pouco como surpreender a mim mesmo."

Durante a leitura, é inevitável questionar se o passado só existe na memória de cada um. "Uma das coisas mais trabalhosas foi justamente ter esse balanço entre a ação e as questões existenciais", diz Crouch.

"Minha primeira meta quando escrevo é fazer com que a ação flua e que as pessoas virem as páginas freneticamente, mas aqui também queria que elas parassem às vezes para pensar em questões mais profundas", prossegue.

Um ano antes da publicação de "Recursão", a Netflix comprou os direitos do livro para lançar um longa-metragem e, posteriormente, uma série. Esse caminho para o audiovisual é comum para o autor.

Sua trilogia "Wayward Pines" se transformou em série em 2015. O romance "Good Behavior" foi para a televisão no ano seguinte. "Matéria Escura", livro anterior a "Recursão", está em fase de roteiro.

Entre outras pessoas, Crouch dedica "Recursão" a dois cientistas que implantaram falsa memória em camundongos. A boa ficção científica precisa ter sempre uma base teórica real?

"Acho que não. Gosto de muitos livros do gênero que não têm inspiração em soluções tecnológicas emergentes ou que já estejam sendo pensadas. Mas, para o tipo de ficção que escrevo, isso é muito importante." Uma declaração do "novo Michael Crichton"?

LIVRO

"RECURSÃO"

Autor: Blake Crouch

Editora: Intrínseca

Tradução: Sheila Louzada

Preço: R$ 59,90 (320 págs.)