Envergonhar as pessoas devido a seu estilo de vida não ajuda a melhorar a saúde delas

Teoricamente, os médicos de hoje deveriam conversar com seus pacientes sobre estilos de vida mais saudáveis em todas as consultas – mas será que isso realmente ajuda? Shutterstock

Ir ao médico é o mesmo que expor o corpo, com todos os seus defeitos e falhas. Numa cultura que cada vez valoriza mais o autocontrole e a perfeição do corpo, estar doente ou simplesmente envelhecer pode gerar uma sensação de vergonha e inadequação.

Qualquer defeito ou dificuldade – especialmente com relação ao estilo de vida – pode parecer um fracasso pessoal; como por exemplo os problemas relacionados ao peso, comportamento sexual, tabagismo, dependência, alcoolismos ou uso de outras substâncias. As pessoas que passam por esses problemas são “desnecessariamente” envergonhadas quando utilizam os serviços de saúde e de apoio aos deficientes, ou os benefícios voltados para o bem-estar.

Isso faz parte do dogma político contemporâneo da “responsabilidade pessoal”, que é reforçado por médicos que, em teoria, deveriam usar todas as consultas – independentemente de seu propósito original – para ensinar aos pacientes como assumir a responsabilidade por um estilo de vida mais saudável.

O que há de errado com um pouco de vergonha?

Durante séculos, religiões e leis tiraram proveito do fato de que a vergonha pode ser usada para mudar ou controlar o comportamento das pessoas. E aprendemos com os reality shows da TV que, ser envergonhado, pode motivar algumas pessoas a mudar sua vida ou comportamento para algo mais saudável. Mas, na maioria das vezes, a vergonha faz as pessoas quererem se afastar e se esconder.

Pesquisas mostram que passar vergonha em ambientes médicos pode ser prejudicial. Em um estudo realizado pela Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD), cerca de 50 por cento dos pacientes tiveram experiências em uma ou mais consultas, com um médico que os fez passar vergonha. Ser envergonhado é muito desagradável, ao ponto de as pessoas tentarem evitar a experiência mesmo que seja pior para elas. Por exemplo, algumas pessoas deixarão de ir ao médico. Outras mentirão sobre o estado de sua saúde mental ou física, ou mentirão sobre seu estilo de vida. A vergonha pode até fazer algumas pessoas esconderem um diagnóstico dos parentes ou amigos.

No estudo da UCSD, nem todos os pacientes consideraram a vergonha como algo ruim, mas mesmo aqueles que acharam a experiência valiosa, se tornaram mais passíveis de mentir para o médico numa consulta posterior. Isso não traz nenhum benefício para quem não está bem, podendo levar a tratamentos ineficazes ou prescrições incorretas.

Contraproducente

Embora a vergonha nesse universo da saúde seja importante para a maioria das pessoas, seu impacto é ainda pior para aqueles que fazem parte de um grupo estigmatizado ou marginalizado. Esses grupos sofrem de vergonha crônica em relação à sua identidade, muitas vezes relacionada a questões como pobreza, raça, sexualidade ou classe social.

Embora a vergonha crônica geralmente exista no inconsciente, ela pode ter um impacto direto no bem-estar de uma pessoa, mesmo quando ela tem um estilo de vida saudável. A vergonha crônica está associada a uma variedade de condições, como ganho de peso, dependência, depressão, diminuição da função imune e doença cardíaca.

Em teoria, a vergonha vivida nos consultórios médicos deveria funcionar ao induzir a pessoa a mudar seus hábitos, para melhor. Mas há poucas evidências de que isso funciona ou de que as pessoas que são alvo desse método estão abertas aos tipos de transformação esperados pelos profissionais de saúde. Esse tipo de vergonha estigmatiza as pessoas por terem desejos errados ou o corpo errado. Isso faz com que se sintam culpadas por não mudarem seus hábitos ou estilo de vida.

O uso da vergonha e do estigma por parte das campanhas de saúde pública não só é uma questão moralmente duvidosa como corre o risco de piorar a saúde das pessoas, em vez de motivá-las a adotar um estilo de vida melhor.

Luna Dolezal é professora de humanidades médicas da Universidade de Exeter e Barry Lyons é professor adjunto do Trinity College Dublin. Este artigo foi publicado pela primeira vez em The Conversation (theconversation.co.uk)

Luna Dolezal, Barry Lyons

The Independent