PT precisa se repaginar e Doria não sai fortalecido de 2020, avalia cientista político

Matheus Pichonelli
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Bruno Covas, mayor of Sao Paulo, holds hands with Sao Paulo state governor Joao Doria as they celebrate Covas re-election during the municipal elections in Sao Paulo, Brazil, November 29, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
O prefeito eleito de São Paulo, Bruno Covas, se elegeu ao se afastar do governador João Doria. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

As diferenças entre as forças políticas no Brasil ficaram mais claras em 2020. Embora ainda haja muita confusão, as eleições municipais e, principalmente, a pandemia do coronavírus, levaram a uma espécie de “refundação” da política brasileira. É o que afirma, com o reforço das aspas, o cientista político e professor de teoria política da Unesp Marco Aurélio Nogueira.

Em live transmita na terça-feira 1º pela página do Yahoo Notícias no Instagram, o especialista fez um balanço das eleições em 2020 e visualizou um novo arranjo de peças no cenário, com o fortalecimento da chamada direita pragmática, mais aberta a novas composições, em contraste com o extremismo representado por Jair Bolsonaro, que viu a maioria dos candidatos apoiados pelo presidente naufragar.

“Na extrema direita tem coisas monstruosas, fascistas. Mas essa extrema direita nunca disputou uma eleição para valer. O voto em Jair Bolsonaro em 2018 não foi um voto de extrema direita. Tinha também, mas muita gente votou nele porque não gostava do PT. Ou não gostava de política. Não gostar de política não é uma coisa fascista. É uma coisa meio burra, mas não é fascista. Então, tem muita confusão ali e isso vai decantar. O cidadão começa a perceber com mais clareza a distinção entre as correntes. E isso aí é fundamental que aconteça.”

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No campo progressista, avalia, novas lideranças surgiram, e deixaram mais evidente a necessidade de reinvenção do Partido dos Trabalhadores, que pela primeira vez não elegeu nenhum prefeito nas capitais.

A viabilidade das frentes democráticas, que têm encontro marcado em 2022 com o bolsonarismo --classificado por ele como um pato manco cercado por ilhas do centrão em Brasília-- ficou também mais evidente.

Até lá, afirma Nogueira, os políticos terão de fazer uma discussão profunda entre protagonismo e unidade. “São temas permanentes da política. Por protagonismo quero dizer: ‘eu sou mais representativo que você’, ‘eu sou mais de esquerda’, ‘eu tenho mais votos do que você’. Esse tipo de protagonismo é inerente à política. Todo político é protagonista, neste sentido. Ele quer estar na cabeça das coisas. Só com muita saliva ele cede esse lugar. É negociação o tempo todo.”

Nogueira identifica no cenário atual uma maior disposição ao diálogo entre grupos que, até pouco tempo, não convergiam. Um exemplo é o DEM, que se saiu vitorioso em disputas em Salvador e Curitiba e garantiu protagonismo a figuras como ACM Neto e Rafael Greca. O partido tem ainda tem ainda o comando da Câmara, com o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), que também tem ganhado protagonismo nesta articulação. A disputa pelo comando da Casa, aliás, será determinante, segundo ele, para as pretensões governistas nos próximos dois anos.

“No DEM existem pessoas que sabem conversar e tem habilidade. No PSDB você tem alguns outros. Não é o João Doria. O João Doria nem é um grande negociador, um cara habilidoso, nem é uma figura que circula nacionalmente. O Doria não saiu bem nessas eleições. Eu me contraponho à opinião da maioria dos analistas que eu li, que diziam que o Doria, pelo fato de o Bruno Covas ter ganhado as eleições em São Paulo, saiu muito fortalecido nas suas pretensões presidenciais. Acho que é exatamente o contrário.”

Segundo ele, o prefeito reeleito repôs no PSDB a ideia da social-democracia. “Ele provavelmente não usará esta expressão, mas a biografia dele é essa. Isso pode não gerar uma disputa interna muito aguda no PSDB, mas é uma coisa que complica a vida do Doria dentro do partido.”

Para o cientista político, com o fortalecimento da direita pragmática o governador paulista terá de cavar seu espaço numa frente anti-Bolsonaro a partir do ano que bem. “Ele vai se colocar diante de pesos-pesados. Pessoas eventualmente mais fortes do que ele. Não é porque é governador de São Paulo que ele sai na frente. Ele pode tropeçar, cair e não se levantar.”

Nogueira lembra que, enquanto o provável presidenciável tucano enfrenta esses dilemas, o DEM conversa com Ciro Gomes (PDT) e o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) abre diálogo com o apresentador Luciano Huck. “Conversar não quer dizer casar. Mas quando alguém aceita conversar você já tem uma suspensão de veto. O Ciro conversar com o Rodrigo Maia ou ACM Neto também é uma sinalização interessante.”

Segundo o analista, o nome que vai sair com melhores condições para enfrentar Bolsonaro em 2022 é aquele que “conseguir transformar em programa, um programa nacional e coeso, um conjunto de demandas presentes na sociedade brasileira”. “A chance que a direita democrática ampliada tem nas eleições de 2022 passa pela capacidade delas de formular um programa e traduzir pedagogicamente este programa. O Brasil está num buraco. Como vai reerguer? Brigando? Não, tem que ter alguma aproximação em torno de um conjunto de ideias que sejam factíveis.”

Ele, porém, aponta fissuras no campo progressista, sobretudo após a dura disputa entre os primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) em Recife, que opôs Ciro Gomes a Lula novamente. “Ali mudou a composição de forças. O PT refluiu e o Ciro manteve a posição dele. Tudo caminhava para Ciro e Lula caminharem de mãos dadas. Havia uma expectativa de um caminho de aproximação. Não é o que as eleições mostraram. Eles se pegaram no Recife, no Nordeste no geral. Mas no Recife foi muito agressivo. Vai ser difícil consertar isso.”

Para ele, o ex-presidente, que segue condenado pela Justiça, vive momento descendente como liderança. Já Ciro, avalia Nogueira, é mais jovem, mas é também “bastante encrenqueiro”. “Tem muito gás e uma vontade inconfessa de ser presidente do Brasil. Se conseguir, vai ter que sentar na mesa com muita gente. Agora, ele tem ideias. Sob controle, é alguém que tem consciência dos problemas nacionais, tem preparo. Tanto Ciro como Lula vão ter que se repaginar, como o (Guilherme) Boulos se repaginou em São Paulo”

Sobre Boulos, Nogueira avalia que a imagem do político se sobrepôs à de líder do movimento dos sem-teto. “Ele saiu de São Paulo com 2 milhões de votos. Não é pouca coisa. É um patrimônio que, se souber cultivar, vai dar muita energia pra ele, que tem só 38 anos. O Boulos tem a vida inteira pela frente. Até um ano atrás, ele era um nome do Lula, de quem copiava os trejeitos e o jeito de falar. O Lula achava que ele seria o seu sucessor. Agora ele se deslocou dessa imagem. Ainda que goste do apoio do Lula, ele não quer ser o sucessor do Lula neste nível partidário.”

O cientista político destaca ainda que Boulos soube fazer aliança “maior que ele” no segundo turno e que colocou no mesmo programa quadros até então distanciados, como Lula, Ciro, Marina Silva e até a deputada Tábata Amaral (PDT-SP).

O resultado das eleições, afirma ainda o especialista, escancarou a perda de influência do PT, partido que perdeu massa de votos, perdeu disputas-chave em capitais e em cidades importantes. “O PT foi muito mal. A perda da capacidade de influência talvez seja o mais grave. Outras forças foram surgindo, disputando o espólio do PT. A começar pelo PSOL. O partido está sem personalidade. Não sabemos direito o que esperar do PT. É algo para se esperar para o ano que vem, para ver como isso vai se colocar na cena brasileira.”

Nogueira fez um balanço também dos resultados no Rio e em São Paulo. Na capital fluminense, a disputa foi marcado por uma divisão de forças que poderiam estar mais ligadas para evitar a passagem de Marcelo Crivella (Republicanos) para o segundo turno. “Por muito pouco a candidata do PDT, Martha Rocha, não foi para o segundo turno. A Benedita da Silva, do PT, também teve boa votação. Em São Paulo esse problema não apareceu. Em parte porque o candidato bolsonarista desidratou muito depressa, como tem sido regra na trajetória do Celso Russomanno (Republicanos). Ao mesmo tempo, o PT também perdeu muito. Ele não chegou a desidratar. Ele não decolou. Isso embaralhou de outra maneira as cartas.”

Reeleito na capital paulista, Bruno Covas (PSDB), segundo ele, mostrou o modus operandi da direita pragmática, com uma aliança ampla e uma pequena abertura para a centro-esquerda, com o apoio de partidos como o Cidadania. “Ele se juntou um número grande de partidos, com afinidades programáticas ou doutrinárias em torno de um nome com algum tipo de visibilidade e apelo eleitoral. O Bruno Covas tinha esses dois componentes. Além do apoio da máquina do PSDB, do governo do estado e da prefeitura. Ele criou uma imagem positiva, seja por conta da própria doença, já que o brasileiro, diferentemente do que diz o ditado, é solidário no câncer, seja pelo modo como ele se apresentou durante a pandemia: uma coisa serena, contra o governo federal, com ciência, medicina, cuidado, quarentena, máscara e tudo mais. Isso o ajudou a se tornar conhecido e ter uma imagem não negativa no grosso da população. Ele sobrou em termos de apoio.”