Entre mais vulneráveis, refugiados e imigrantes sofrem impactos do coronavírus

Por Jéssica Cruz (@jhe_cruz)

“Na verdade, eu fiquei muito preocupado, o Brasil não é tão fácil para nós. Ficar em casa sem trabalho, como vamos pagar o aluguel?”, se questiona Tafalwa Ahorou, 35, refugiado togolês. No país natal, no oeste do continente africano, Tafalwa era contador em banco, aqui, leciona francês. Diante da chegada do vírus covid-19 no Brasil, as aulas foram suspensas para segurança de todos, conforme orientação da OMS e Ministério da Saúde. O professor tem quatro turmas pelo projeto Mente Aberta do Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado e também dois alunos particulares. 

Até 2018, 11.231 pessoas eram reconhecidas como refugiadas pelo Estado brasileiro, e mais de 160 mil pedidos estavam em análise segundo o último Relatório “Refúgio em Números” do Acnur Brasil. Marcelo Haydu, diretor executivo do Adus, explica que os imigrantes e refugiados são muito vulneráveis nesse momento de crise, já que muitos trabalham sem carteira assinada ou de forma autônoma. 

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De acordo com o Ministério da Justiça, em 2018, 68.986 carteiras de trabalho foram emitidas para imigrantes no Brasil. Dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), mostram que no mesmo ano, 72.081 imigrantes foram admitidos no mercado formal, no entanto, 63.101 foram dispensados em 2018, ou seja, um saldo de apenas 8.980 admissões formais naquele ano.

Para solucionar o problema das aulas do Mente Aberta, sem afetar a renda dos professores, o Adus alugou computadores, e conseguiu também empréstimos de equipamento de voluntários, além de reembolsar a internet dos professores que precisarem, tudo para manter os alunos com aulas à distância. “Muitos não têm estrutura, não tem notebook, internet sem qualidade nas suas casas”, explica o diretor.

Togolês Tafalwa é professor de francês no Brasil desde 2017 (Imagem: Mente Aberta Idiomas/Antônia Souza)

Tafalwa foi um dos professores que receberam o equipamento. “A gente recebeu o laptop, e fizemos um treinamento na semana passada. Hoje vou começar com uma turma mais tarde para ver como que é. Os alunos particulares já comecei a dar aula online”. Um alívio, já que sua namorada, também togolesa, não teve a mesma sorte. Ela trabalhava informalmente em uma loja de pão de queijo, e já foi dispensada, agora toda a renda do casal virá das aulas de francês.

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Isolados sem renda

Mais difícil ainda é para refugiados e imigrantes que dependem de eventos e espaços públicos para vender seus produtos e serviços, como cozinheiros, músicos e artesãos. “As pessoas que têm ponto fixo ainda conseguem se manter, o movimento cai, mas tem algum público. Já as que não têm, que dependem da venda de produtos ou serviços, não vejo outra saída para eles nesse momento”, explica Marcelo.

Esse é o caso da venezuelana Rosalva Cardona, proprietária do Arepas Picatta SP, uma empresa de catering. Ela, o marido e o cunhado prestam serviços para empresas públicas e privadas, como eventos, cafés da manhã e happy hours. “Há duas semanas está praticamente tudo parado”, conta ela. Para sobreviverem, estão fazendo entregas por delivery que podem ser encomendadas pelo Facebook ou WhatsApp. “É muito pouco, reduziu quase 90% da nossa renda, e não temos nada de reserva, porque os primeiros meses do ano são sempre mais fracos. Quando a gente pensava que agora ia começar, acontece tudo isso aqui”, explica.

Com crise sanitária, renda familiar de Rosalva cai 90% (Imagem: MigraFlix/Arquivo pessoal)

Além da questão financeira, a família ainda tem uma preocupação extra, os pais do casal estão dentro do grupo de risco da doença e vivem na Venezuela. “Lá é pior, não tem medicamento nem para tratar uma simples gripe. Não tem água, não tem gás, é difícil achar essas coisas. Eles estão correndo um risco muito grande”, conta. Até essa terça-feira, 24, a Venezuela havia confirmado 84 casos do novo coronavírus. 

Tanto Marcelo dos Adus, quanto a venezuelana Rosalva defenderam o fechamento da fronteira entre Brasil e Venezuela, até como uma forma de proteção do próprio povo venezuelano. “Se isso chega lá de uma maneira ostensiva, com um número maior de pessoas sendo atingidas, como o país vai ter condição de resolver isso? Sem ajuda internacional, é impossível”, reflete Marcelo. Entre 2015 e 2019, mais de 200 mil venezuelanos solicitaram refúgio no Brasil.

O Acnur Brasil está distribuindo kits de higiene com água sanitária, sabão em pó, papel higiênico e outros itens de higiene pessoal e coletiva às populações mais vulneráveis nos abrigos de refugiados Boa Vista (RR) e Manaus (AM). 

Questão de gênero

A boliviana Soledad Requena, assessora de gênero e migração do CEMIR (Centro da Mulher Imigrante e Refugiada) atenta que as autoridades estão generalizando a população. “Não se vê os imigrantes, o que a gente espera é que todas as iniciativas através do poder público e das empresas privadas não esqueçam que existem os imigrantes e refugiados”. 

O CEMIR atende 120 mulheres imigrantes, em sua maioria bolivianas, que trabalham em oficinas de costura em São Paulo. De acordo com Soledad, no setor das oficinas de costura, 85% das mulheres estão em situação de vulnerabilidade. 

Nas últimas semanas, o ingresso de trabalho nas oficinas já havia caído 50%, agora não há mais nada. “Não sabia que ia fechar as lojas, as firmas... eu trabalhava para sustentar a casa, pagar as contas, comprar alimento, essas coisas, agora ficamos sem nada, não sei o que vou fazer”, desabafa a boliviana Isabel Sompero, que está com 54 anos, enquanto o marido tem 64. O casal e o filho montaram uma pequena oficina em casa há dois anos, e toda a renda da família vinha das encomendas da indústria têxtil.

A boliviana Isabel à esquerda de verde na Roda Warmis, de mulheres imigrantes, no Bom Retiro (Imagem: CEMIR/Divulgação)

Muitas outras preocupações passam pela cabeça de Soledad, a comunidade boliviana vive muitas vezes em casas precárias e com muitas pessoas. Na vila onde Isabel mora com a família no Bom Retiro, vivem outras 20 famílias. “É impossível elas ficarem em casa, o que a gente combinou com elas foi tentar aumentar a ventilação, deixar as portas abertas, tirar os vidros das janelas que muitas vezes não abrem. Todas estão extremamente preocupadas”, conta Soledad.

O que diz o governo

De acordo com o Conare (Comitê Nacional dos Refugiados), do Ministério da Justiça, os direitos dos refugiados e imigrantes que vivem no Brasil são os mesmos que os dos brasileiros, inclusive os de acesso à saúde e à benefícios. Por isso, segundo nota enviada ao Yahoo: “não há distinção entre público-alvo [do coronavírus] para recebimento de serviços públicos pelo fato do requerente ser refugiado”.

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