Entenda sobre a síndrome de burnout e como controlá-la

·7 min de leitura
Young female doctor and nurse in medical masks sit in corridor of hospital. Emotional burnout of healthcare workers during covid19 pandemic concept.
Quais são os sintomas de esgotamento que você deve estar atento? (Foto: Getty)

Estudos mostram que, mesmo antes da pandemia, 30% das pessoas já tinham chances de sofrer burnout em algum momento, e para alguns grupos, como as mulheres, a probabilidade é ainda maior.

Burnout é um estado de exaustão emocional, física e mental causado por um estresse excessivo e prolongado. Para identificar essa condição, Gabriela Tavella, coautora de Burnout: Um guia para identificar o burnout e caminhos para recuperação, explica que estudos recentes mostram que há outros sintomas que devem ser considerados.

Na série do Yahoo Real Talk, a doutoranda e pesquisadora da UNSW disse que há outros sintomas que são "realmente importantes" ao avaliar se uma pessoa está ou não sofrendo da síndrome de burnout.

Sintomas do burnout

"Um desses sintomas é a disfunção cognitiva", ela explica. "Confusão mental, falta de memória e de concentração, ler e não entender o que está lendo por dificuldade de manter a concentração."

"Outro sintoma é a perda de desempenho no trabalho. Há também uma redução da empatia, o que afeta principalmente as pessoas que trabalham com o público. Em uma situação normal, elas seriam bastante compreensivas com seus pacientes ou alunos, mas assim que começam a sofrer da síndrome de burnout, passam a não se importar tanto com o que acontece com as pessoas para quem trabalham.

"O ápice dos sintomas é o que chamamos de insularidade, é um estado de isolamento extremo. Nesse estágio, a pessoa se afasta de seu círculo social, do mundo ao redor e começa a perder o interesse pelas coisas."

Causas do burnout

Não é nenhuma surpresa o fato de que o estresse no trabalho é um grande fator para o esgotamento. A sobrecarga de trabalho, os prazos muito curtos, a falta de reconhecimento, os conflitos ou uma agenda que não permite períodos de descanso são fatores que podem desencadear a síndrome de burnout.

No entanto, Gabriela explica que o burnout é uma equação. Devemos considerar os estilos de personalidade que podem ter alguma predisposição e estímulos externos que causam estresse tanto no trabalho quanto em casa.

"Identificamos vários fatores dentro de casa que podem contribuir para o burnout", diz ela, citando a resposta de uma participante da pesquisa que disse que a principal causa do seu esgotamento estava relacionada ao excesso de tarefas domésticas e ao fato de ser a "única pessoa" a fazer tudo em casa.

"Se você acha que o trabalho é uma espécie de válvula de escape, pode ser um indício de que os fatores domésticos estão causando o esgotamento."

Quem pode ter a síndrome de burnout

Estudos mostraram que o índice de burnout é maior entre as pessoas que trabalham com atendimento ao público, como pacientes, alunos ou clientes, e entre aquelas que desempenham funções informais ou sem remuneração ligadas a cuidados de saúde.

Pode não ser uma surpresa saber que algumas evidências sugerem que o burnout é mais frequente nas mulheres do que nos homens. Por outro lado, há quem diga que isso acontece porque as mulheres têm mais facilidade em revelar problemas e dificuldades psicológicas, principalmente em pesquisas.

"Mas também é muito provável que as mulheres estejam assumindo o que chamamos de 'segundo turno'," aponta Gabriela.

"Antes da pandemia, as mulheres saíam para trabalhar, independentemente de ser em período integral ou meio período, e quando voltam do trabalho começavam o segundo turno, cuidando das crianças e resolvendo problemas domésticos. Elas assumem todas as responsabilidades da casa e o cuidado dos filhos, por isso são mais afetadas pelo burnout.

Por conta da pandemia de COVID, o 'segundo turno' ficou ainda mais intenso para as mulheres. Ainda que os homens estejam assumindo mais responsabilidades com a criação dos filhos, já que estão em casa, pesquisas demonstraram consistentemente que as mulheres ainda estão arcando com a maior parte do trabalho doméstico não remunerado."

Citando um texto de Sydney Morning Herald, Gabriela também lembra que na maioria das vezes "as mulheres trouxeram o trabalho para casa e ficaram com a mesa da cozinha, tendo que cuidar das crianças, enquanto seu parceiro faz a jornada integral no home office sem interrupções."

No que diz respeito a quem tem mais chances de sofrer com o burnout, Gabriela aponta que a personalidade também têm um papel importante.

"Você pode estar enfrentando os fatores de estresse que mencionamos no trabalho ou em casa, mas pode não desenvolver a síndrome de burnout, a menos que tenha alguns traços de personalidade que podem torná-lo mais vulnerável ao esgotamento", ela diz.

Pesquisas sugerem que há alguns traços de personalidade que aumentam esse risco, como o neuroticismo, personalidade tipo A e introversão. Mas, de acordo com os estudos de Gabriela, o maior fator de risco é o perfeccionismo.

"Uma característica fundamental do perfeccionismo é estabelecer padrões muito altos e irrealistas para si mesmo, o que significa que eles nunca poderão ser alcançados. Você está sempre se preparando para o fracasso, o que pode desencadear a síndrome de burnout", ela explica.

Como tratar e lidar com o burnout

Concept of enthusiastic manager on the start of project and exhausted on the finish. Professional Burnout at work metaphor. Flat Art Vector Illustration
Agendar um 'horário de preocupação' pode ser uma técnica para controlar o estresse e a ansiedade. (Foto: Getty)

No que diz respeito a tratar e controlar a síndrome de burnout, Gabriela ressalta que tudo se resume a identificar corretamente as verdadeiras causas.

"Marcar uma consulta com um profissional de saúde mental, como um psicólogo, pode ajudar a mudar a forma como você vê o mundo", sugere Gabriela. Além disso, ela compartilha uma técnica cognitiva que pode ser útil e que você pode experimentar.

"Por exemplo, uma técnica que pode ser útil para quem sofre com ansiedade ou excesso de preocupação é agendar um horário para se preocupar. Você deve reservar um período do dia, pode ser meia hora, para suas preocupações", ela explica.

"Você vai pensar, certo, agora são 17h30, é hora de me preocupar. Se você estiver preocupado com algo durante o dia, guarde essa informação. Depois, no horário marcado, você pode se preocupar com tudo ao mesmo tempo.

"Essa técnica exige prática, mas com o tempo você vai aprender a reconhecer quando está realmente preocupado. Você vai melhorar a capacidade de reconhecer as preocupações que são positivas e aquelas que não são."

Gabriela aponta que o segredo é adotar várias estratégias de controle.

"Não há um método que sirva para todas as pessoas. Por isso, não se decepcione se você tentar de uma forma e ela não funcionar, porque pode simplesmente significar que você precisa testar algumas coisas diferentes antes de encontrar a receita perfeita para resolver o burnout pelo qual você está passando."

Para perfeccionistas, ela aconselha que se esforcem para pensar no cenário mais amplo.

"Uma das principais consequências do perfeccionismo é a procrastinação, porque os perfeccionistas tendem a se preocupar tanto sobre o desempenho em uma tarefa e fazê-la de forma tão perfeita que acabam protelando, pensando algo como: 'Prefiro não começar a fazer de qualquer jeito'."

"Nesses casos, é necessário manter o foco em conseguir fazer as tarefas, mais do que fazê-las com perfeição. Em outras palavras, pensar no cenário mais amplo e não nos detalhes, porque eles podem ser resolvidos depois."

Burnout versus depressão

Burnout concept vector background. Tired male office worker sitting on the chair and trying work at the computer. Business flat cartoon illustration isolated on white backdrop.
É provável que 30 por cento de nós sofra de esgotamento durante a vida. (Foto: Getty)

Em relação às discussões sobre burnout, Gabriela comenta que muitas vezes há uma ligação entre esse quadro e a depressão, principalmente no que diz respeito aos sintomas de insularidade e introversão. A equipe de pesquisadores está analisando mais dados sobre esse tópico em um recente estudo.

"Fala-se muito sobre estigmas. Hoje já sabemos que o burnout é menos estigmatizado do que a depressão", aponta a pesquisadora.

"Muitas pessoas têm mais chances de dizer 'sim, eu tive um quadro de burnout', porque não serão tão estigmatizadas quanto se dissessem que tiveram depressão. Devemos discutir se as pessoas não estão apenas criando um rótulo de burnout para a depressão."

Por outro lado, ela diz que há uma relação entre os dois quadros, mas que ela é "muito complexa".

"Nós sabemos que sintomas de depressão são comuns na síndrome de burnout, por isso é importante pesquisá-los. Mas sabemos que o burnout também é um gatilho para a depressão e que a depressão pode predispor o desenvolvimento do burnout", ela diz.

"Se você acha que está com síndrome de burnout ou depressão, e não tem certeza sobre o que está acontecendo, é muito importante procurar um profissional de saúde mental ou um clínico geral para tentar descobrir qual é o problema principal."

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos