Entenda por que livrarias de rua florescem em São Paulo após o sufoco da pandemia

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 10.05.2022 - Livrarias abrem num momento pujante para o mercado editorial, que viu crescimento das vendas na pandemia. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 10.05.2022 - Livrarias abrem num momento pujante para o mercado editorial, que viu crescimento das vendas na pandemia. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A pandemia foi um sufoco para as livrarias de rua. Da correria para se adaptar às vendas virtuais até as vaquinhas organizadas para manter as finanças no azul, era como se elas estivessem sob ameaça de extinção.

Hoje, o clima não poderia ser mais distinto. Portas de novos estabelecimentos abriram uma após a outra em São Paulo nos últimos meses, um efeito dominó provocado por uma onda favorável ao contato com leitores ansiosos para se reencontrar com a cidade.

Aqui não estamos falando de redes já capilarizadas --apesar de empresas como a Leitura, a Curitiba e a Vila também estarem investindo em novos endereços--, mas de casas tocadas de forma quase artesanal por proprietários que usam muito mais a palavra "paixão" do que "negócio" para falar de suas empreitadas. Surgiram ao menos oito delas na cidade no último ano.

"Tem sido bacana perceber que as pessoas estão perdendo o medo de abrir livraria", diz Monica Carvalho, dona da Livraria da Tarde, que abriu três meses antes da quarentena. "Sabemos que este é um país em que poucos leem, mas temos olhado isso pelo copo meio cheio, como uma oportunidade boa para trazer e formar novos leitores."

As vendas de livros corroboram a ideia de um momento promissor, já que o faturamento das editoras cresceu robustos 29% no ano passado, segundo pesquisa da Nielsen. E a pujança das livrarias funciona como lenha para movimentar o mercado numa direção estratégica: apresentar ao público os lançamentos que saem do forno.

"Durante a pandemia houve um crescimento grande no volume de vendas, mas sempre dos mesmos livros", afirma Diego Drummond, que abre em julho uma livraria que leva seu sobrenome ao lado dos sócios Vitor Tavares e Pedro Almeida. "O mercado editorial estava travado num eterno dia da marmota."

A nova loja, que vai ficar no Conjunto Nacional, será estruturada como uma "grande vitrine de novidades", segundo Drummond. Há a intenção, por exemplo, de que um dia da semana seja reservado a eventos de editoras independentes, que poderão aproveitar a localização privilegiada na Paulista para exibir seus autores em noites de autógrafos.

A literatura brasileira também é a menina dos olhos de Adauto Leva, que inaugurou na semana passada a Livraria Cabeceira no bairro da Vila Romana. A casa tem algumas propostas que fogem à norma: a organização das estantes por grandes temas; um espaço dedicado a exposições e cursos no segundo andar; e, principalmente, a ideia de recomprar exemplares de seus clientes.

"O negócio da livraria se sustenta se pensarmos de um modo ampliado. Não dá para só vender livro", aponta Leva, que julga vital para a operação da loja atrair um fluxo consistente de clientes fiéis, em convivência quase caseira. "Por isso eu quero recomprar o livro do cara."

Vai funcionar assim: se você comprou um título na Cabeceira, pode voltar após a leitura, devolver e ganhar desconto em outro livro. E o cliente que comprar um exemplar da "estante dos devolvidos" vai fazer isso por uma fração do preço.

O espaço que Leva abriu em parceria com a irmã, a advogada Fabíola Nabuco Leva, também supre uma lacuna geográfica --e não por acaso, mas por expertise de um gestor que fez carreira em institutos de pesquisa e percebeu, após contratar um levantamento, que a quantidade de leitores naquela região era alta demais para o número de livrarias disponíveis.

É um caso similar ao da Livraria do Brooklin, aberta pela jornalista Victoria Mantoan, 30, ao lado do marido após constatar que a região simplesmente não tinha um espaço como aquele. Trabalhar com livros era uma vontade antiga, e a pandemia permitiu que o casal fizesse um planejamento conservador, consciente de que o investimento não se pagaria tão cedo.

"Ninguém vai ficar rico com uma livraria, mas ela precisa também se sustentar", diz ela. "Pouquíssimas pessoas teriam condições de fazer uma segunda Cosac Naify, colocar dinheiro sem olhar para a sustentabilidade do negócio. E isso é saudável para equilibrar o mercado."

Nesse plano de ação, era claro para Mantoan que ela "não queria ter mais uma livraria em Pinheiros ou na Paulista", numa estratégia de atrair moradores do bairro onde mora com "um lugar de certa tranquilidade, que as pessoas viessem e ficassem trabalhando, folheando, lendo". Algo, enfim, que a internet não consegue oferecer.

É a mesma sensação de acolhimento que engole quem entra na Livraria Ponta de Lança, aberta no espaço onde antes ficava um bar na Santa Cecília. O dono Bruno Eliezer, de 32 anos, transformou a coleção que abarrotava sua casa com pilhas de livros numa loja com cerca de 5.000 títulos, além de mais dezenas de milhares de usados em estoque.

Durante a conversa com a reportagem, o livreiro se definiu meia dúzia de vezes como um "apaixonado por livros" --e usou mais vezes ainda a palavra "sonhador". Segundo ele, a proprietária do espaço estava prestes a fechar contrato para abrigar ali uma lavanderia quando atendeu aos apelos de Eliezer, tocada ao ver seu compadrio com moradores da mesma rua.

Abrir uma livraria, afinal, às vezes se parece com construir um refúgio. Dentro de outro bar que fica no mesmo bairro, o Das, começou a funcionar há dois meses a Livraria Pulsa, tocada por Caroline Fernandes e Fer Krajuska e centrada apenas em literatura LGBTQIA+, com atenção especial às letras L, B e T.

"A maior motivação não foi pensar em mercado ou nicho. Foi algo muito mais passional que racional, era uma vontade de facilitar que as pessoas tivessem acesso à literatura LGBT", diz Krajuska, que ressalta o desafio de montar um catálogo que "fugisse do óbvio", ou seja, dos autores brancos do eixo Rio-São Paulo.

É uma coleção ainda modesta, com algumas dezenas de exemplares, e tanto Krajuska quanto Fernandes têm labutas diurnas antes de pegar no batente da Pulsa a partir das 19h de quinta a sábado. Nada melhor que isso para evidenciar um trabalho movido a afeto --ou, nas palavras de Monica Carvalho, mostrar que uma livraria é "muito mais que um depósito de livros".

A lista desta reportagem não é exaustiva. Neste sábado, começa a funcionar na Galeria Metrópole a HG Publicações, iniciativa da escritora Juliana Borges, e as infantis Miúda e Pé de Livro já pintam o sete há algum tempo no bairro da Pompeia.

Cidades como Florianópolis, Fortaleza e Niterói também ganharam livrarias independentes, assim como endereços no interior de São Paulo como Araraquara, Limeira e Avaré. E por aí vai.

Adauto Leva, que inaugura a Cabeceira aos 52 anos, diz que abrir uma livraria nunca foi precisamente seu sonho. "Meu sonho sempre foi escrever e ler. Ter uma livraria é um plano, um negócio onde eu possa trabalhar feliz", afirma. "E eu quero que ele funcione não para me enriquecer, mas porque este vai ser meu trabalho até eu não ter mais forças para continuar."

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