Flow Podcast, iFood e liberdade de opinião: entenda a polêmica e repercussão

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Tuites de Monark fizeram o Flow Podcast perder o patrocínio do iFood (foto: reprodução / instagram @monarkoficial / Divulgação)
Tuites de Monark fizeram o Flow Podcast perder o patrocínio do iFood (foto: reprodução / instagram @monarkoficial / Divulgação)

Resumo da Notícia:

  • A história começou quando o apresentador relativizou opiniões com opressões

  • Monark foi respondido pelo advogado Augusto de Arruda Botelho e a conversa cresceu

  • O podcaster ainda defendeu que ideias preconceituosas sejam propagadas para gerar discussão e aprendizado

Opinião é liberdade de expressão? A polêmica levantada por Bruno Aiub, mais conhecido como Monark, do Flow Podcast, ganhou as redes sociais após o iFood cancelar seu apoio ao programa nesta semana.

Em um papo com os fãs do Twitter, onde tem mais de 1,1 milhão de seguidores, o podcaster e influencer falava sobre o peso de falas de pessoas com projeção na vida de pessoas sem. “Opiniões não matam. Vai ver no necrotério se alguém teve uma crise aguda de opinião e morreu. É a ação que faz o crime e não a opinião”.

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O que segundo a Constituição Federal e o Código Penal Brasileiro não é verdade, já que existem crimes por dolo, ou seja, intenção de fazer. “Não, Monark, uma opinião racista pode ser um crime de injúria racial, por exemplo. Posso te dar outros exemplos”, apontou o advogado Augusto Arruda Botelho em resposta.

“Ter uma opinião racista é crime?”, questionou o podcaster que foi novamente respondido pelo advogado: “Se a opinião se tornar pública sim, pode ser um crime. Se ela ficar só na cabeça de quem pensa assim deveria ser motivo de profunda vergonha e um convite à reflexão.”

Repercussão

A troca de mensagens ganhou uma repercussão expressiva nas redes sociais e Monark foi acusado de relativizar preconceitos e opressões e travesti-los como opinião. “Querem criminalizar o pensamento. Muito perigoso isso. Autoritarismo começa assim”, escreveu.

Foi reportado pelos internautas que o argumento usado pelo podcaster é o mesmo que vários extremistas de direita usam para criar falsas verdades. A tática foi usada por Donald Trump durante seu governo nos Estados Unidos e é usada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para propagar preconceitos e discriminação.

“Não é crime pensar, botar em prática é outro assunto. Hitler foi assim, ele pensava que judeus eram praga e que eram tão inferiores a ponto de usar de seu poder para ordenar os soldados nazistas a exterminaram completamente o povo apenas pelo fato de serem judeus”, exemplificou Danizito.

Monark argumentou: “Entendo que eu posso não me expressar da melhor forma, mas agora então, apenas aqueles que melhor sabem se expressar então liberados de conversar no twitter? Isso não é um pouco autoritário? Posso errar em como me expressar, mais nunca errei em sempre tratar todos iguais, imputar isso a mim me dá um ódio tremendo e um sentimento de injustiça gigantesco.”

Perda de apoio

Após a pressão social e o alcance que as falas de Monark ganharam, seu podcast, o Flow, perdeu o patrocínio do iFood. “Flow só perdeu patrocínio por que hoje as empresas de marketing morrem de medo dessa galera canceladora, minha opinião ainda é que liberdade de expressão é também permitir que ideias preconceituosas sejam expressadas até para que possam ser corrigidas”, escreveu o apresentador.

Aqui vale ressaltar que (respondendo à pergunta do início do texto) quando a opinião ferir a dignidade do outro, ou de um grupo de pessoas, ela deixa de ser apenas um comentário e torna um crime e pode ter consequências. Isso porque nada é absoluto no Código Penal e na Constituição.

“Se a gente começas a prender todo mundo que tem uma opinião (pensamento) que pode ser interpretado como preconceituoso, nós vamos mandar prender todo mundo. E é isso que os fascistas querem, o poder de mandar prender todo mundo”, continuou.

Monark mistura várias situações para tentar defender seu ponto de vista e confunde o leitor. Isso porque, segundo a lei brasileira, não há crime no ‘que pode ser interpretado como preconceituoso’. Já existem jurisprudências, ou seja, condenações que delimitam o que é e o que não é crime ligado a preconceitos como racismo, sexismo, homofobia e transfobia.

Ou seja, não há uma interpretação livre de quem pode investigar, indiciar e condenar judicialmente. Diferente da formação da opinião pública, que pode não ter todo o conhecimento necessário para formular uma opinião embasada em dados e pode ser levada a entendimentos errôneos sobre a diferença entre opinião e preconceito.

Interpretação dúbia

“Pra quem não essa entendendo a polêmica: Basicamente o iFood interpretou meus tweets aqui que defendiam liberdade de expressão como se eu tivesse defendendo racismo, me julgou e puniu ao Flow com a perda do patrocínio. Basicamente me chamando de racista para todo o Brasil”, comentou Monark nas redes sociais para reverberar o assunto que repercutia há cinco dias.

É um fato que atualmente empresas não associam suas marcas a nada que possa ir contra suas diretrizes do que defendem na sociedade. Isso porque entende que não é aceitável compactuar com práticas já tão amplamente debatidas.

“Minha opinião ainda é que liberdade de expressão é também permitir que ideias que possam ser consideradas preconceituosas sejam expressas até para que possam ser corrigidas. Apenas o diálogo e educação podem acabar com preconceitos”, concluiu o apresentador.

Monark completa a discussão repetindo um movimento usado por pessoas com viés de direita para explicar seus preconceitos: dizer que a sociedade tem que corrigi-los. Em 2021, com amplo acesso à comunicação e pensadores em diversos meios de difusão, a informação está posta para quem quer aprender de fato e nãos só polemizar assuntos sensíveis.

O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBT no mundo apenas por eles serem quem são. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher morre a cada 6h e meia no Brasil por ser mulher e subjugada.

O mesmo levantamento mostrou que há uma subnotificação de crimes relativos à raça no Brasil. Em um país que 84% da população enxerga o racismo, apenas 3 mil processos foram abertos no Brasil. O fato se dá pela notificação criminal errônea até o fato de vítimas não buscarem a justiça.

Na última semana o STF equiparou o crime de injúria racial ao de racismo na justiça brasileira. O primeiro é ligado a discriminação pessoal e tinha pena mais branda, já o segundo a um grupo de pessoas com penas mais pesadas. Agora os dois são inafiançáveis e imprescritíveis.

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