Entenda a polêmica de Dave Chappelle e as críticas da comunidade LGBTQIA+

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lançado no início deste mês na Netflix americana e na semana passada no Brasil, o stand-up “Encerramento”, de Dave Chappelle, vem causando fúria na comunidade LGBTQIA+. Repleto de piadas sobre transexuais, mas também sobre brancos, negros, mulheres e judeus, o especial causou uma demissão e pelo menos três suspensões de funcionários da Netflix nos Estados Unidos.

Em “Encerramento”, Chappelle se dirige a si mesmo como “transfóbico” em diversas oportunidades, de forma irônica, enquanto justifica ações ou conta piadas que poderiam ser vistas como tal pela comunidade trans. Ele também se diz um feminista e conta a história de uma amiga trans que se matou depois de o defender nas redes sociais e ser cancelada pela própria comunidade.

Há anos, Chappelle é acusado de transfobia por seus shows de stand-up, e o “encerramento” que dá nome ao especial significa, segundo ele, que não vai mais fazer piadas com trans “até ambos termos certeza de que estamos rindo juntos”.

Mas isso é daqui para a frente, já que os quase 90 minutos de “Encerramento” guardam entre um terço e metade do tempo com piadas e comentários sobre o assunto. Uma das que parecem mais ter atingido a comunidade trans é quando ele defende as “fert”.

“Cancelaram a JK Rowling porque ela disse, numa entrevista, que gênero é um fato. E a comunidade trans ficou puta para caralho. Começaram a chamá-la de fert. Não sabia o que isso significava, mas sei que o pessoal trans inventa palavras para ganhar discussões. É uma sigla para feminista radical trans-excludente. São mulheres que odeiam, não, ou melhor, mulheres que se ofendem com trans que parecerem mulheres. Como nós [negros] ao vermos um 'blackface'", disse Chappelle.

“Veja, você tem que ver da perspectiva de uma mulher. Caitlyn Jenner, que eu conheço e é uma pessoa maravilhosa, foi eleita a mulher do ano. Em seu primeiro ano como mulher! Melhor que todas vocês aqui em Detroit. E ela nunca nem menstruou. Eu ficaria puto se fosse mulher. É como se tivéssemos uma premiação ‘e agora, o negro do ano é Eminem’.”

“Gênero é um fato. Todo ser humano na Terra teve que passar pelas pernas de uma mulher para estar na Terra. Isso é um fato. Agora, não digo que mulher trans não é mulher, mas aquela xota… Não é sangue, é suco de beterraba”, concluiu.

A demissão na Netflix ocorreu após a publicação pela Bloomberg de que Chappelle havia recebido US$ 24,1 milhões, ou R$ 135 milhões, pela produção de “Encerramento” –o mesmo valor gasto pela compra dos nove episódios da coreana “Round 6”.

No último sábado, a empresa disse ter confirmado em seu sistema interno quem foi a pessoa que vazou a informação “confidencial e sensível” para a Bloomberg e a demitiu em seguida, sem revelar seu nome. Apesar disso, a mídia americana disse se tratar de uma pessoa trans negra.

A pessoa demitida também foi apontada como uma das organizadoras de um protesto marcado para esta quarta-feira, quando funcionários da empresa largariam seus postos de trabalho por algumas horas para se manifestar contra o especial de Chapelle.

Outra pessoa trans da Netflix havia sido suspensa –mas a punição foi cancelada—, após invadir uma reunião de diretores para falar sobre o assunto.

Além da questão trans, outro tema abordado por Chappelle no especial diz respeito ao raper DaBaby, que falou uma série de bobagens em show em julho. “Se vocês não estiveram hoje com HIV, Aids, ou qualquer uma dessas doenças mortais transmitidas sexualmente, então levantem seus celulares. Garotas, se suas xoxotas cheiram como água, levantem seus celulares. Caras, se vocês não estiverem chupando um pau no estacionamento, levantem seus celulares.”

Essas declarações criaram uma polêmica nos últimos meses que envolveram diversos astros da música americana, parte condenado as falas, parte condenando o cancelamento de DaBaby, que teve uma dúzia de shows cancelados em seguida.

Pois Chappelle começa seu especial contando que DaBaby matou a tiros um rapaz de 19 anos dentro de um Walmart há alguns anos [o músico alegou que se defendeu de uma tentativa de assalto] e que isso não destruiu sua carreira. “Em nosso país, você pode atirar e matar uma pessoa, mas ai de você se magoar uma pessoa gay”, conclui o comediante.

No final do programa, Chappelle volta à carga. “Lembrem que tirar o meio de vida de alguém é matar. Estou implorando, por favor, não abortem DaBaby.”

Num email inteiro que também vazou, o CEO da Netflix, Ted Sarandos, escreveu aos funcionários que a empresa abrigava “Sex Education”, “Orange Is the New Black”, Hannah Gadsby, que é uma comediante lésbica, e Dave Chapelle e que a chave para essa “incrível diversidade” era o departamento de conteúdo.

Gadsby criticou Sarandos pelas redes sociais por incluir seu nome na lista de diversidade da Netflix. Disse ainda que a empresa não havia pagado a ela nem perto do necessário para ela que pudesse lidar com os discursos de ódio que ouviu na vida real depois de seu próprio especial. “Foda-se, Ted, e seu imoral culto algorítmico.”

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