Entenda como Regina Duarte se radicalizou por Bolsonaro e chocou amigos

LAURA MATTOS E FÁBIO ZANINI
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 04.03.2020 - Regina Duarte em sua posse na Secretária Nacional de Cultura. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O que deu em Regina Duarte? A pergunta que circula nos meios da política e da cultura há alguns anos, período em que aflorou o viés direitista da atriz, se tornou um coro de perplexidade depois de sua polêmica entrevista à CNN Brasil, na semana passada.

Nela, a secretária da Cultura minimizou as mortes da ditadura, cantou musiquinha do regime militar e deu chilique ao ser confrontada com depoimento da atriz Maitê Proença.

"Não consigo entender", afirma Daniel Filho, que conhece Regina há mais de cinco décadas anos, dirigiu a atriz diversas vezes e foi casado com ela.

"É um momento de pleno espanto", ecoa o autor Lauro César Muniz, que a conhece desde a época em que ela estava despontando na televisão e foi mocinha de uma das novelas escritas por ele na Globo, "Carinhoso", de 1973.

Pessoas próximas a Regina concordam que ela sempre teve um pé no conservadorismo, a começar por sua origem familiar, de filha de militar.

Mas o alinhamento a Jair Bolsonaro espantou pelo fato de ela no passado ter vivido mulheres progressistas, atacado a ditadura e apoiado políticos como Fernando Henrique Cardoso, chamado de comunista por aliados do presidente.

Sua conversão em namoradinha da direita coroa uma trajetória em que foi abraçando pautas conservadoras, até chegar à adesão ao atual governo.

No início da carreira, ela era vista como conservadora, tradicional e careta. Fez mocinhas em "Véu de Noiva", de 1969, "Irmãos Coragem", de 1970, e "Minha Doce Namorada", de 1971, que rendeu a ela o apelido de "namoradinha do Brasil".

Em 1975 se separou do primeiro marido, Marcos Flávio Cunha Franco, com quem tem os filhos André e Gabriela.

No teatro, tentou romper com papéis de mulheres frágeis. Naquele ano, fez a peça "Réveillon", vivendo uma moça de classe média que se prostitui para ajudar os pais. Também integrou uma comitiva da Globo que foi ao Planalto protestar contra a censura à novela "Roque Santeiro", barrada de ir ao ar pelos militares.

"Ela estava sempre sofrendo com a censura, lamentando quando colegas eram presos, morriam. Não era uma pessoa que tomava a frente, mas nos apoiava com segurança. Sem dúvida, foi mudando conforme foi fazendo trabalhos mais socializados", diz Daniel Filho.

A nova fase engajada culminou com "Malu Mulher", de 1979, seriado que tratou de temas como orgasmo, masturbação, aborto e homossexualidade e deu a Regina prestígio junto à esquerda.

Outro papel de mulher que brigava contra o conservadorismo a marcar a carreira seria em "Chiquinha Gonzaga", minissérie de Lauro César Muniz, que estreou em 1999.

Muniz afirma ter tido uma "surpresa desagradável" e ficado "muito triste" com o posicionamento atual da atriz.

Quando viveu a compositora na série, ela se mostrava "entrosada com a personagem, que era progressista, avançada", diz. "Eu a via como minha Chiquinha Gonzaga, e ela me surpreendeu aceitando estar com esse péssimo presidente."

O sociólogo Marcelo Ridenti, pesquisador da cultura na ditadura, tem uma lembrança da atriz, de quando ele cursava direito, na década de 1970.

"Me lembro de manifestações contra a ditadura na São Francisco em 1977 e da Ruth Escobar tentando convencer a Regina a apoiar. Ela não aceitou, preferiu continuar sendo a namoradinha do Brasil."

Mesmo com a força da esquerda no meio cultural na ditadura, Ridenti diz que havia muitos artistas como Regina que, ainda que contrários à censura e favoráveis a certas reivindicações da oposição, eram empolgados com o "milagre brasileiro", como é chamado o boom dos anos 1970.

Na redemocratização, Regina se aproximou do PSDB. Naquele momento, os tucanos faziam as vezes da direita, algo que parece risível hoje.

Apoiou FHC, então no PMDB, para prefeito de São Paulo em 1985 com apelo à união das forças que lutaram contra a ditadura. "Não vamos nos esquecer do que aconteceu na Alemanha na década de 1930. Os democratas se dividiram e Hitler subiu ao poder", alertou, no programa de TV.

O ápice da fase tucana foi a famosa gravação para a campanha presidencial de José Serra em 2002. Os 59 segundos de vídeo, em que Regina fala quatro vezes ter medo da vitória de Lula, acabaram com toda boa vontade da esquerda com ela.

Logo depois, ela reclamaria que se sentia patrulhada só por ter expressado uma posição política. A identificação da atriz com o antipetismo estava sacramentada.

"Era uma artista renomada, dando um testemunho forte. A campanha estava chegando a um nível de acirramento grande. É aquela coisa que você faz para tentar virar o jogo", diz José Aníbal, que era presidente nacional do PSDB. "Regina tinha DNA tucano", afirma.

Em 2006, a atriz apoiou Geraldo Alckmin ao Alvorada e no ano seguinte se aproximou de João Doria, então só um empresário, no movimento Cansei, que reunia personalidades contra o governo do PT e a corrupção.

Mas quem se cansou foi ela, e os anos seguintes foram mais dedicados à carreira. Regina só ressurgiu com força como militante nos últimos cinco anos.

Apoiou o impeachment de Dilma Rousseff e se tornou habitué de eventos da direita.

"Ela aparecia de verde-amarelo, com faixa na cabeça. Ficava meia hora, bebia uma água, perguntava se podia falar. E aí falava da corrupção, petrolão, pedaladas fiscais. Era uma comoção", diz Farid Assed, presidente do Revoltados Online, no Rio de Janeiro, que fazia manifestações em Copacabana.

Regina parecia se divertir. Num protesto, chegou a subir numa árvore para tirar fotos. "Era importante ter ela lá, porque 90% dos artistas são de esquerda", diz Assed.

Apoiou as Dez Medidas Contra a Corrupção, bandeira da Lava Jato. Como ocorreu com boa parte dos fãs da operação, a adesão ao capitão reformado foi um passo natural.

No ano passado, abraçou pautas bolsonaristas, como as críticas ao STF. Mas sempre manteve independência e nunca foi tida como seguidora do ideólogo Olavo de Carvalho.

Tampouco nutre ódio pela Lei Rouanet ou pelo "marxismo cultural" que, segundo bolsonaristas, existe na arte.

Mirando aliados, ela decidiu radicalizar na entrevista à CNN a fim de estancar ataques de olavistas que não a consideravam até então uma conservadora confiável.

Num primeiro momento, parece ter funcionado, e a campanha por sua cabeça amainou. Disso, ao menos por ora, a ex-namoradinha não parece sentir medo.