Entenda como 'Red' foge dos estereótipos de meninas adolescentes em animações

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As quatro meninas que protagonizam "Red: Crescer É Uma Fera", novo longa da Pixar, vivem em Toronto, gostam de sair depois da aula e são apaixonadas por uma boy band no estilo dos Backstreet Boys ou do 'N Sync, que faziam sucesso nos anos 2000.

Mas as quatro estão longe de se parecerem fisicamente umas com as outras. Ser adolescente em "Red" pode significar ter um corpo magro ou gordo, ser baixa ou alta, ser branca, asiática ou negra. No auge da raiva cheia de hormônios dessa fase da vida, pode significar até se metamorfosear num gigantesco panda vermelho peludo.

É uma variedade de corpos de garotas que estão começando a passagem para a vida adulta que não é comum nas animações da Pixar --e parecem indicar a adoção de uma nova perspectiva pelo estúdio, seja em relação a corpos femininos, seja em relação à infância.

Esse novo passo pode ter a ver com o fato de que "Red" é dirigido por uma mulher, Domee Shi, a primeira a assinar um longa do estúdio. Em conversa por vídeo a este jornal, ela afirmou que a vermelhidão do panda evoca justamente o momento da vida "em que as meninas menstruam e todos estão sempre com o rosto corado por vergonha, raiva ou qualquer outro sentimento na montanha-russa emocional que vivemos".

Com a intenção de retratar esse período, os corpos não poderiam mesmo obedecer ao padrão irreal de adolescentes esguias, de rostos delicados e olhos grandes que reinam nos desenhos animados. É o que avalia a ilustradora Joana Fraga, que fez uma thread que viralizou no Twitter mostrando o desenvolvimento da representação de meninas jovens nas animações da Pixar e da Disney, dona do estúdio.

Fraga fez essa análise motivada pelas críticas que viu ao filme, tanto em relação ao design dos personagens quanto na maneira como a adolescência é retratada. Para ela, o que "Red" mostra é um amadurecimento na maneira como as animações retratam esse período da vida.

"A adolescência feminina sempre foi um tema que causou desconforto", afirma ela. "As meninas com frequência aparecem como uma figura fútil, ou como uma 'rebelde sem causa'." Já em "Red", ela continua, as garotas estão inseridas em um contexto mais próximo daquele da vida real.

Em relação ao design, ela lembra que personagens como Violeta, de "Os Incríveis" e Jessie, de "Toy Story", filme de estreia da Pixar, são meninas de rosto delicado, redondo, com queixo pequeno e olhos grandes. Mas, principalmente, são excessivamente magras. Não é difícil associar esse estereótipo às princesas da Disney, como no caso da Ariel, que tem 16 anos na trama.

É algo que ela vê mudar na Riley, de "Divertidamente", uma pré-adolescente que vive oscilações de humor ao mudar de cidade. Ela já tem um nariz mais largo e dentes tortos. Ainda assim, o filme foi criticado por mostrar uma personagem que representava a alegria como uma mulher magra e a tristeza, como uma baixinha gorda.

Mas é em "Luca", animação de 2021 do estúdio que conta a história de dois monstros marinhos de 13 anos, a mesma idade da turma da protagonista de "Red", que esses padrões começam a cair por terra.

Giulia, ainda que seja uma personagem menos importante, é uma menina que tem marcas de suor na camiseta, dentes tortos e brinca e fala como Alberto e Luca. Fraga lembra ainda que a animação apresenta poucas diferenças físicas entre ela e os dois meninos, sem grandes marcações do que seria um trejeito considerado feminino ou masculino.

Julia Fioretti, coordenadora da Quanta Academia de Artes, escola de desenho em São Paulo, afirma que essa guinada, mais visível em "Red", trava uma conversa com uma geração mais nova. "O público-alvo do filme hoje tem muito mais contato com a diversidade. Para eles já é algo natural ver isso na tela", diz ela.

"Red", aliás, balanceia bem esse apelo às crianças dos anos 2020 e dos adultos que cresceram com as animações do estúdio. Não faltam na trama referências a discmans e outros elementos pop dos anos 2000.

Fioretti diz acreditar ainda que a Pixar tenha sido pioneira nessa movimentação junto a títulos como "Steven Universo". O design de personagens da animação do Cartoon Network, com traços mais simples e arredondados, tem inclusive um nome --ele é denominado "CalArts", remetendo ao tradicional curso de animação da Universidade da Califórnia onde se formaram, por exemplo, o criador de "Bob Esponja", o antigo chefão da Pixar, John Lasseter.

Há quem relacione o nariz e o rosto mais arredondados de animações da Pixar a esse universo, mas Daniel Pinna, professor do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense, diz que são estilos diferentes.

Enquanto os traços de desenhos "CalArts" são feitos dessa maneira para agilizar o processo de produção, muito mais acelerado do que o cinematográfico, "Red", para ele, tem uma estética mais próxima do que historicamente é feito na Pixar, apesar de apresentar corpos bem mais diversos que o usual.

Na televisão, aliás, os estúdios da Nickelodeon já apresentaram adolescentes que fogem em alguma medida dos padrões harmônicos e magros na virada dos anos 1990 para os 2000, como na Eliza de "Os Thornberrys", com seu aparelho fixo nos dentes, e na turma de meninas de "Ginger".

Mas de volta para 2020, o que "Red" tem em comum com o resto da indústria de animação --historicamente machista, como lembra Pinna-- hoje é justamente essa busca por narrativas diversas. Isso já tem sido regra na Pixar com produções como "Soul", que foca uma história afroamericana regada por jazz, e "Viva - A Vida É uma Festa", sobre os Dia dos Mortos no México.

"Red" também bebe dessa pluralidade de repertórios culturais --a diretora Domee Shi, já premiada com o Oscar pelo curta "Bao", de 2018, nasceu na chinesa Chongqing e foi criada em Toronto, para onde se mudou com só dois anos. Rebecca Sugar, que criou "Steven Universo", também já afirmou que a narrativa do desenho é inspirada da sua infância e da de seu irmão.

"Os personagens acabam sendo a porta de entrada para que o espectador crie empatia pelo filme. Algum deles vai dialogar com você", diz Pinna.

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