Entenda como o selfie de ostentação molda a nova onda de retratos nas artes

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Retratos sempre foram crônicas do poder --seja em rostos de proporções perfeitas da Antiguidade, seja nos monarcas em cenários ostensivos, não raro olhando o público de cima para baixo. Agora, nesta era de selfies e de agitações políticas, como o Black Lives Matter, artistas retomam o gênero para subverter quem são os donos do poder e o que é digno de ser lembrado.

Uma geração de artistas jovens brasileiros, agora em exposição, mobiliza retratos como um grito de afirmação e reforça neles um estilo de vida atravessado pelo uso intenso de redes sociais, selfies e marcas de luxo. São principalmente pessoas negras famosas ou anônimas que aparecem nessas novas crônicas da bonança e são mostradas, enfim, como autoridades.

Nas obras do artista O Bastardo, jovem de 23 anos que é o mais novo queridinho do circuito das artes, tanto Mano Brown quanto "O Cria" encaram o espectador de frente e vestem roupas de grife. Já os retratados por Panmela Castro, em exposição na galeria Luisa Strina, se deleitam com corpos estirados em sofás e camas, trabalhos que são sempre resultado de uma longa convivência com a artista.

Pessoas anônimas também apontam seus iPhones para tirar selfies nos quadros de Rafael Baron, outro artista que dominou a Untitled, uma das feiras paralelas da Art Basel Miami Beach, que retornou na semana passada na primeira edição desde o começo da pandemia.

Autoafirmação e autoestima são conceitos caros para os três artistas. Baron se vale do selfie justamente como esse dispositivo --não é o pintor que dirige o retratado, é o último que se exibe como produtor da imagem.

"A fotografia de moda, as poses de empoderamento me interessam", diz ele. "Minha intenção foi justamente mesclar essa retratística clássica com o elemento contemporâneo da autoafirmação."

Esse autorretrato do nosso tempo inclusive dá nome à mostra do artista da fluminense Nova Iguaçu na Portas Vilaseca, galeria do Rio de Janeiro. Grandes espelhos e outros de camarim também foram instalados entre as obras para o público participar dessa produção de imagens.

As mídias sociais, principalmente o Instagram, não funcionam só como influência estética nos trabalhos. Baron afirma que essas plataformas permitiram que sua obra finalmente chegasse ao público. Aos 35 anos, ele diz que todas essas peças já estavam por aí faz tempo. O que mudou realmente foi o mercado, que as abraçou.

A quantidade de artistas em destaque nas feiras e mostras apontam que essa discussão estava represada --e que, aos poucos, o mercado acorda para a falta de artistas negros, depois de um longo sono.

Além de Rafael Baron, Bastardo e Panmela Castro, já desponta no mercado há algum tempo Alexandre Maxwell, que está em exposição na Gentil Carioca de São Paulo e no Palais de Tokyo, centro de arte contemporânea de peso em Paris. Na temporada da ArtRio, em setembro, Elian Almeida e Jota levantaram discussões sobre a negritute, e Zéh Palito também é outro nome a angariar interesse no circuito, especialmente na Art Basel última.

A estética que foi sendo moldada pelos milhões de cliques no feed nos últimos anos parece impulsionar uma centralidade da moda em algumas dessas pinturas. Ainda que seja um só trabalho, Baron recorreu aos símbolos da Balenciaga e da Gucci para um de seus retratos feitos especificamente para uma mostra em Nova York. Eram esses signos que, para o artista, botavam os negros no poder no país do consumo por excelência.

Mas nas pinturas d'O Bastardo, as grifes são bem mais proeminentes --aliás, todas as obras do artista na "Pretos de Griffe", mostra que abriu no final de novembro na galeria paulistana Casa Triângulo, já foram vendidas.

Marcas e símbolos de grifes como Nike, Gucci, Louis Vuitton e Spalding são cravadas nas roupas, acessórios e até cortes de cabelo. Em alguma medida, essas marcas são a extensão dos retratos das figuras famosas que se misturam aos anônimos na mostra. Segundo ele, as celebridades são símbolos de uma mobilidade, de que é possível transitar por outros universos.

"Fez total diferença para mim olhar para caras como Mano Brown, Emicida, Kanye West, Beyoncé, todas essas pessoas em que há um glamour e que ela vem do mesmo lugar de origem. É muito potente a ideia de que pode haver algo a mais", diz ele.

O artista afirma que suas obras não giram em torno dos logotipos, mas é impossível não os notar como um dos principais signos de ostentação nos retratos. "A ostentação tem essa posição de ir para frente, entendeu? Mas sempre que alguém usa a ostentação para fazer uma crítica tenta a tornar banal", diz ele.

"Pode ter ostentação ali, mas justamente como motor para frente, para ocupar espaços. Até porque meu trabalho fala sobre negritude, não poderia ser só sobre ostentação pela ostentação nem que eu quisesse."

O universo de excessos que Bastardo e outros artistas trazem para o cubo branco bebe muito do hip-hop e do pop. É uma relação, aliás, para qual a própria indústria fonográfica volta os olhos, como no aclamado clipe de "Apeshit", de Beyoncé e Jay-Z, gravado no Louvre.

Maxwell Alexandre disse em entrevista recente a este jornal que o casal terminar o vídeo em frente à "Mona Lisa" era um sinal de que eles entenderam que o movimento gira em torno de um capital simbólico.

A lista de videoclipes e letras de rap --a manifestação musical do hip-hop-- que ressignifica a ostentação como símbolo de poder é extensa. Lançado há dez anos, o disco dourado "Watch the Throne", de dois dos maiores rappers da história, Jay-Z e Kanye West, traz entre suas faixas "Ni**as in Paris", que tem versos como "What's 50 Grand to A Mothafucker Like Me?" e "What's Gucci, My Nigga?".

Fenômeno também presente em outros gêneros e subgêneros musicais, como funk, trap e grime, a ostentação funciona, ainda nessa linha, como um instrumento decolonial de ressignificação.

Panmela Castro recorda lemas artísticos como "a favela venceu" e "pretos no poder". E a ideia de esbanjar também é central para sua exposição, "Ostentar É Estar Viva", com retratos que foram feitos inclusive na reclusão da pandemia.

"Tenho muita influência do hip-hop, do meio LGBTQIA+, de artistas como Beyoncé, Anitta. Mas o ostentar que eu falo na minha exposição não é o ostentar do dinheiro, do outro, da grana", diz a artista. "É o ostentar pós-pandêmico, de estar viva, bem, com as amigas, com acesso à saúde a todos os direitos que a gente deveria sempre ter e que estão faltando." "Não adianta ter a Beyoncé linda, com aquela pedra gigante da Tiffany enquanto tem um monte de gente morrendo na favela", defende ela. Castro, que já despontou em produções de grafite e também com um projeto social com mulheres em situação de vulnerabilidade, faz retratos desde os 16 anos. No largo da Carioca, em frente ao Museu de Belas Artes do Rio, ela pintava a preços módicos. Na época, lembra a artista, ela era pobre e quem passava ali também não tinha muito dinheiro.

"Sempre me lembrava desses retratos e hoje, 20 anos depois, eles aparecem na minha produção. São essas pessoas brasileiras do nosso cotidiano, mas nessas poses que são soberanas, de mostrar o valor daquela pessoa em retratos posados."

As pinturas de Castro também retratam figuras já conhecidas do público, como a MC Carol e o artista Moisés Patrício. Mas são ainda assim sujeitos que representam o que esteve, até agora, à margem. Esses retratos, que sempre surgem de uma espécie de residência que a artista faz na casa do retratado, denotam a série de outros trabalhos que articulam a exposição.

Prints longos de postagens no Instagram emoldurados, QR codes que levam para stories da própria artista e obras mais participativas como o oratório, em que se é convidado a fazer uma promessa para você mesmo, surgiram dessa convivência intensa com os personagens de seus quadros, conta ela.

É um jogo entre o que é profano e o que é elevado ao sagrado, numa intenção ritualística. Seus biscoitos da sorte, por exemplo, entregam sempre a mesma frase --a de que uma mulher salvará sua vida--, e uma santa também tem seu rosto trocado por um pequeno espelho.

É um poder, portanto, que emerge de um corpo coletivo. "Nesse sentido, o poder é para mim ter uma meta de mudança e mudar para todo mundo."

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OSTENTAR É ESTAR VIVA

Quando De seg. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 10h às 17h. Até 22 de janeiro

Onde Galeria Luisa Strina - r. Padre João Manuel, 755, Cerqueira César, região oeste

Preço Grátis

SELFIE - RAFAEL BARON

Quando Até 8 de janeiro. Ter. a sex.: 11h às 19h. Sáb: 11h às 17h

Onde Na Portas Vilaseca Galeria - r. Dona Mariana, 137, Botafogo, Rio de Janeiro

Preço Grátis

O BASTARDO: PRETOS DE GRIFFE

Quando Até 29 de janeiro. Ter. a sex.: 10h às 19h. Sáb.: 10h às 17h

Onde Na Casa Triângulo - r. Estados Unidos, 1324, Jardins, São Paulo

Preço Grátis

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