Entenda como o manguebeat chacoalhou toda a música brasileira há três décadas

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 22.09.2017: ROCK-RIO - O cantor Ney Matogrosso se apresenta com Jorge dü Peixe e os músicos da Nação Zumbi no palco Sunset, no quinto dia do Rock in Rio 2017, na Cidade do Rock no Parque Olímpico na zona oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1709222100134998
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 22.09.2017: ROCK-RIO - O cantor Ney Matogrosso se apresenta com Jorge dü Peixe e os músicos da Nação Zumbi no palco Sunset, no quinto dia do Rock in Rio 2017, na Cidade do Rock no Parque Olímpico na zona oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1709222100134998

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há 30 anos, quando Fred Zero Quatro escreveu o manifesto "Caranguejos com Cérebro", o Recife vivia uma situação parecida com a atual. "O momento voltou a ser de uma deterioração do tecido social", diz o vocalista do Mundo Livre S/A. "Na época a gente se assustava com a história de ser a quarta pior cidade do mundo, mas hoje é muito pior --a quantidade de gente na rua, famílias pedindo o que sobrou do osso."

Pensado inicialmente como um release para a imprensa, o manifesto condensava as intenções de uma juventude periférica e inquieta que anos depois ficaria conhecida através do movimento manguebeat.

Puxada pelo sucesso da Nação Zumbi, aquela expressão musical ganhou força nacional e internacional quebrando barreiras estéticas a partir de um símbolo --uma antena parabólica enfiada na lama.

Neste ano, o manguebeat chega a três décadas de existência, tomando como marco o manifesto gestado por Zero Quatro com Chico Science e o jornalista Renato L --espécie de núcleo pensante do movimento-- e depois publicado no encarte do primeiro álbum da Nação Zumbi, o clássico "Da Lama ao Caos", de 1994.

A data é celebrada com o documentário "Manguebit", de Jura Capela, e a apresentação "Manguefonia", que reúne expoentes da cena mangue e Louise França, filha de Science, que já rodou o Brasil e passa por Recife, em dezembro, e Florianópolis, em janeiro. Outras datas devem ser anunciadas.

Segundo Zero Quatro, o manguebeat transformou a precariedade de recursos e o provincianismo com criatividade. "Nos primeiros shows que vi da Nação, eu sabia que a guitarra de Lúcio [Maia] era de quinta mão", diz. "A guitarra que a gente usava fui eu mesmo quem botei os trastes --e era cheia de buraco. Era explorar a própria precariedade e compensar isso com inventividade e espírito de cooperação."

Jorge du Peixe, ex-percussionista e vocalista da Nação Zumbi desde a morte de Chico Science, em 1997, recorda que, no primeiro show da banda, quem tocou os tambores não tinha nem sequer participado dos ensaios. "Isso era porque quem tinha ensaiado não tinha passagem para ir ao show."

Os tambores inspirados no maracatu misturados com as guitarras distorcidas e um jeito de cantar inserindo "hip-hop na minha embolada", como dizia Science, marcaram a sonoridade da banda mais famosa do movimento.

Mas os artistas do manguebeat não seguiam uma cartilha, e o objetivo era misturar as influências que vinham do exterior, captadas pelas antenas, e as locais, que já estavam no DNA --a lama.

Zero Quatro trazia o cavaquinho, o samba e a influência de Jorge Ben Jor com a percussão de Otto no Mundo Livre S/A, enquanto Cannibal falava da periferia do Recife no Devotos, uma banda de punk e hardcore.

Siba, com o Mestre Ambrósio, dava uma roupagem pop a ritmos populares como a embolada, a ciranda e o folguedo cavalo-marinho, enquanto Fábio Trummer, à frente do Eddie, inseria frevo e influências da música jamaicana numa banda de rock.

"Era uma ideia de quebrar monólitos. Não existia um formato só. Não era um gênero mangue. Pelo contrário, era um grito, dentro de tudo que a cidade oferecia musicalmente. A gente abraçava os folguedos também, mas ninguém tinha obrigação de tocar o maracatu. As bandas pegavam naturalmente", diz Du Peixe. "Claro que o maracatu ascendeu depois disso. Era uma cultura que estava quase indo pelo ralo, sem apoio do poder público."

O experimentalismo era a tônica nesse caldeirão de criatividade. Tanto que Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, os primeiros representantes da cena mangue que conseguiram contratos para lançar álbuns por gravadoras no Sudeste, encontraram produtores que não estavam prontos para gravar aquela música.

"O [Carlos Eduardo] Miranda, por exemplo, nunca tinha gravado um cavaquinho. Aí chamou uns amigos, um pessoal do samba, para conferir se a afinação estava certa ou não", diz Zero Quatro, sobre o produtor de "Samba Esquema Noise", álbum de estreia do Mundo Livre S/A, de 1994. O disco foi lançado pelo selo Banguela, um braço da Warner comandado pelos integrantes dos Titãs.

Naquele mesmo ano, a Nação Zumbi lançou "Da Lama ao Caos" pela Sony. "O [produtor] Liminha nunca tinha se deparado com um tambor", diz Du Peixe. "Não tinha prato a bateria, era mais tambor e caixa. Isso causou um estranhamento. Até para microfonar os tambores era complicado."

Quando esses álbuns foram lançados, Zero Quatro se lembra que os comentários nos bastidores eram de que os DJs e as rádios de rock não tocariam essas músicas porque eram do Nordeste.

"Para eles, era música regional. Achei surreal aquilo", diz. "Em contrapartida, mesmo não sendo digeridos num primeiro momento, depois tocamos no templo punk, o CBGB's [em Nova York]", diz Du Peixe.

O vocalista do Mundo Livre S/A também aponta como os tambores acabaram depois influenciando o heavy metal. "Engraçado que, poucos anos depois, você vê uma banda como o Sepultura que declaradamente incorpora essa linguagem de tambores no disco e nos shows, assumidamente uma referência do manguebeat", ele diz. "O nu metal é meramente uma cópia do [álbum] 'Roots', do Sepultura", diz o baixista da Nação Zumbi, Alexandre Dengue.

Mas a inserção dos tambores no rock são apenas uma amostra de como o manguebeat teve, há 30 anos, uma capacidade de imaginar o futuro. Aquele "núcleo de pesquisa e produção de ideias pop", como anunciava o manifesto "Caranguejos com Cérebro", tinha interesses múltiplos, de hip-hop a Jackson do Pandeiro, de Josué de Castro ao "colapso da modernidade", de conflitos étnicos a Malcolm McLaren, e "todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência".

Era um conhecimento trocado por meio de fitas cassete com seleções de músicas --Chico Science costumava presentear os amigos com elas-- e encontros em espaços underground e festas produzidas por eles mesmos.

"O wi-fi da gente era o ônibus", diz Dengue. "A gente descobria locais underground no Recife Antigo que estavam abandonados pelo meio acadêmico e intelectual. Eram espaços subutilizados e, ao mesmo tempo, ambientes muito charmosos, atraentes, como cabarés antigos", diz Zero Quatro.

Nessa época, a MTV havia acabado de chegar ao Recife, o CD se firmava como principal meio de consumo de música, os próprios artistas organizavam seus shows --dos cartazes à bilheteria--, e o bar Soparia se transformava no principal point da geração.

Foi nesse ambiente que os "mangueboys e manguegirls" imaginaram um futuro já antenados nas possibilidades da tecnologia e em conceitos como a midiotia --uma patologia social provocada por excesso de desinformação.

Hoje, 30 anos depois, Zero Quatro vê um paradoxo em relação ao que eles imaginavam sobre o avanço da tecnologia. Se antes demorava anos para que um álbum de uma banda americana ou britânica chegasse ao Recife, hoje a internet facilitou o acesso a esse tipo de informação. Também é muito mais acessível produzir uma música hoje, com um celular, do que depender de equipamentos caros como na virada dos anos 1980 para os 1990.

"Hoje, um moleque da periferia do Recife, com acesso a um laptop da escola ou até um smartphone pode criar batidas inéditas e originais --o bregafunk e as variações do bregafunk são um exemplo claro disso", ele diz. "E, ao mesmo tempo, sem intermediários, pode disseminar aquilo pela plataforma digital."

Por outro lado, o sonho do acesso democrático também enveredou para caminhos que não estavam na imaginação daquela geração. "Essa mesma tecnologia trouxe um retrocesso absurdo em termos de desconstrução de alguns valores civilizatórios, como por exemplo a ascensão do fascismo e a disseminação de perfis falsos que trazem informações sem nenhuma credibilidade --daí a negação da ciência", diz o líder do Mundo Livre S/A.

"Você pega movimentos como o antivacina e muitos outros de noções fascistas que utilizam mecanismos que os algoritmos permitem para praticamente negar os avanços civilizatórios, o sentido de humanidade, os direitos humanos e tudo."

Na visão de Dengue, isso tem a ver com o dinheiro. "Eles têm dinheiro para mudar a verdade. A verdade é a que eles querem empurrar e vira. É uma volta de 180 graus, uma impressão chocante. A gente vislumbrou um outro mundo que caiu por terra por esses interesses."