Entenda como o botão de pular abertura nas séries pode matar arte das vinhetas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - “Mare of Easttown”, da HBO, “Sweet Tooth”, da Netflix, “O Conto da Aia”, do Hulu, “The Underground Railroad”, do Amazon Prime Video, “Falcão e o Soldado Invernal”, do Disney+. Essas séries todas têm pouca relação uma com a outra para além do fato de terem feito sucesso no streaming neste ano.

Mas, ao analisar com mais atenção, em especial se você for um espectador das antigas, logo vai perceber outro ponto em comum —nenhuma delas tem créditos de abertura. Esqueça as músicas estrondosas, as ilustrações sofisticadas e os títulos excessivamente estilizados. Nelas, o nome da série aparece de passagem, sem chamar muita atenção.

Com a ascensão do streaming, a forma de consumir e de produzir séries mudou totalmente. Hoje, muito desse conteúdo não é interrompido por intervalos comerciais, é lançado de uma vez e maratonado pelo público e ainda tem, de brinde, um botão de “pular abertura” —função lançada pela Netflix em 2017 e já presente em qualquer plataforma.

Graças a isso, estamos vendo vinhetas cada vez mais curtas introduzindo episódios. Muitas delas nem vinhetas são —está em alta o uso de “title cards”, algo como cartões de título, que é a simples exibição do nome de um programa, despida de grandes floreios. Seriam as aberturas uma forma de arte em extinção?

Segundo Patrick Clair, designer de vinhetas que vive em Sydney, na Austrália, não exatamente. Mas uma diminuição do catálogo de séries com aberturas, bem como mudanças no formato, são inevitáveis. Lidamos, afinal, com uma audiência cada vez mais impaciente e imediatista, com pouco tempo para se dedicar a longas introduções.

“Nós estamos numa nova era, em que menos séries têm aberturas, e as que existem precisam ter algum tipo de relação direta com as tramas. Só um bom trabalho estético já não basta, porque nada consegue ser legal o suficiente para que alguém queira ver pela sexta vez”, diz ele, por telefone.

Clair acredita que os “title cards”, mais sucintos, “estão aqui para ficar”. Ele trabalha no estúdio Antibody e, apesar da opinião, assina vinhetas longas e suntuosas como as de “The Crown” e “Westworld”. Com “True Detective” e “O Homem do Castelo Alto”, venceu dois prêmios Emmy de melhor design de abertura.

Sim, as vinhetas são uma parte tão importante das séries que têm cadeira cativa na maior premiação da televisão americana. Não há só uma categoria dedicada a elas, mas duas —a segunda é para a melhor música-tema de abertura.

Quase todas as vinhetas de Clair têm mais de um minuto de duração, algo cada vez mais raro. Seu terceiro Emmy, no entanto, pode vir neste ano por uma muito mais efêmera —a de “Lovecraft Country”, que lançou mão dos “title cards”, mas não sem os aperfeiçoar, alterando a cada episódio as belas ilustrações estáticas que acompanhavam o título.

Essa personalização das aberturas de acordo com a trama de cada episódio pode indicar o futuro dessa arte. É isso que defende Rogério Abreu, autor do livro “Design na TV: Pensando Vinheta”. Ele foi responsável por criar a abertura do “Big Brother Brasil” e também as de programas como “A Grande Família”, “O Beijo do Vampiro” e “Desalma”.

Para a segunda temporada desta última, aliás, o Globoplay estuda fazer várias vinhetas diferentes, cada uma para um capítulo da série. “O perfil do público mudou muito com o streaming. Não podemos continuar com o legado das aberturas da TV e do cinema, mas pensar num novo formato, mais criativo. A solução, eu imagino, é criar uma longa abertura e segmentar, para que cada episódio exiba um trecho diferente e com conexões com a trama dele”, diz Abreu.

Ele compara as aberturas à embalagem de um produto. Elas levam o espectador a definir se vai comprar ou não aquela história, portanto, ele precisa ser cativado e provocado por aqueles poucos segundos de introdução. Mais do que isso, as vinhetas precisam estabelecer o clima e preparar terreno para a trama que está prestes a se desenrolar.

Abreu dá como exemplo a vinheta de “Game of Thrones”, com seus muros e castelos em 3D que se erguiam por um mapa, apresentando o universo fictício de Westeros para o espectador. Isso tudo acompanhado pela icônica trilha da série, que inspirou até mesmo turnês de orquestra pelo mundo.

Não é fácil fazer isso, é verdade. Ele conta que algumas aberturas podem custar o equivalente a um episódio inteiro, já que demandam uma equipe grande, diferentes tipos de arte e tecnologia e o pagamento de direitos autorais para uma trilha que vai se repetir infinitamente enquanto a série durar.

No Brasil, a Globo capturou desde o início a importância que as vinhetas têm e incutiu no imaginário popular introduções icônicas como as de “Tieta”, em que a modelo Isadora Ribeiro aparecia nua, agarrada a um coqueiro; de “Deus nos Acuda”, com seu mar de lama afogando a elite corrupta do Brasil; e da mais recente “Caminho das Índias”, com seus deuses hindus espelhados.

Todas elas foram concebidas por Hans Donner, designer austríaco trazido ao Brasil pela emissora para criar seu logotipo e dezenas de vinhetas, da original do Fantástico, com seu balé diante de paisagens naturais, à da Globeleza, que tinha a própria mulher de Donner sambando.

Há cinco anos, ele foi demitido da emissora e seu departamento, o Videographics, dedicado exclusivamente a aberturas, foi extinto. Hoje, ele trabalha com design de móveis, fachadas de prédios e interiores.

Mas esse não é um sinal de que as vinhetas estão com os dias contados —pelo contrário. Discípulo do austríaco, Rogério Abreu conta que a Globo percebeu, nos anos 2000, que as aberturas de suas novelas e programas estavam um tanto engessadas, muito ligadas ao estilo difundido por Donner nos anos 1980, que não poupava o uso de computação gráfica e 3D. Nos tempos de minimalismo de hoje, isso já não agrada tanto ao público.

Aos poucos, a emissora foi permitindo que novos designers apresentassem diferentes estilos de aberturas, usando animação, colagem e fotografia, por exemplo, e delegou a tarefa de criar as vinhetas a equipes distintas, não mais a uma fixa. A mudança se reflete no próprio logo da Globo, que no ano passado abandonou o 3D para adotar um visual “flat”, ou chapado.

“O estilo precisa ser pensado a partir do tipo de história que vai ser contada, de quem são os personagens, do período, do gênero. Essa percepção veio depois de muitas críticas. Para mim, o auge foi ‘A Indomada’, que tinha muito efeito tosco. Era o 3D pelo 3D”, diz Abreu sobre a novela de 1997, que trazia Maria Fernanda Cândido correndo de elementos feitos em computação gráfica em sua introdução.

As vinhetas, ao que parece, ainda resistem. Abreu e Patrick Clair concordam que a tendência é que elas continuem ilustrando séries, em especial aquelas com um investimento financeiro maior, que visam prêmios e aclamação da crítica —até porque há uma questão contratual envolvida aí, já que alguns atores se recusam a participar de projetos que não exibam seus nomes com alarde no início dos episódios.

Mas, para não entediar o público mais novo, dado a maratonas, é preciso se reinventar. Ainda é cedo para saber se as emissoras e plataformas vão bancar essa mudança ou escolher o caminho menos custoso dos "title cards", dizem, mas a reinvenção será necessária caso as vinhetas não queiram encarar seus créditos finais.

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