Entenda como Julia Child revolucionou os programas culinários nas telas de TV

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ela tinha 1,90 metro de altura, o que dava ainda mais visibilidade aos seus gestos atrapalhados. Com a voz esganiçada e uma franqueza incomum, exibia os dotes culinários em aparelhos de TV em preto e branco, em telas embaçadas que deixavam o mais bonito dos pratos com aspecto tristonho e acinzentado. Ainda assim, quase seis décadas depois, Julia Child continua na pauta do dia.

Considerada a inventora dos programas de receitas como os conhecemos hoje, ela está no ar em duas produções recentes, ambas com o título de "Julia" --um documentário produzido pela CNN e uma série da HBO Max. As duas são um prato cheio para quem gosta de cozinhar ou simplesmente de comer bem --e se complementam.

O documentário reconstitui trechos fundamentais para entender a trajetória profissional da protagonista, da infância abastada no estado americano da Califórnia ao sucesso como estrela da TV, passando pela temporada na França que a levou para a cozinha e a lançou no universo da alta gastronomia --importante considerar que, nos anos 1950, mulheres americanas de classe média esconjuravam o fogão.

As diretoras Julie Cohen e Betsy West são as mesmas de "A Juíza", sobre Ruth Bader Ginsburg, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2019. Com fotografias antigas, trechos originais dos programas de TV e depoimentos de pessoas próximas a Child, de parentes a chefs de cozinha, a dupla mostra como seu jeito desengonçado acabou por se tornar uma marca registrada.

Se o pudim não saía da forma, ela dava de ombros e ria. Se um pedaço de frango escapulia do garfo e voava pela cozinha, ela transformava a telespectadora em cúmplice. "Se acontecer o mesmo quando você estiver sozinha, quem vai saber?"

De improviso em improviso, tudo ao vivo diante das câmeras, Julia Child foi mostrando ao público que cozinhar e comer comida fresca era bem mais gostoso do que jantar refeições congeladas compradas no supermercado.

Quem assiste ao documentário primeiro identifica com mais facilidade as cenas fictícias enxertadas na série. Com a britânica Sarah Lancashire no papel principal, em excelente caracterização, a primeira temporada se passa entre 1962 e 1963. Foi quando Julia Child, já uma consagrada autora de sucesso pelo livro "Mastering the Art of French Cooking", ou dominando a arte da cozinha francesa, iniciou a carreira televisiva.

Cenas deliciosas mostram como ela e o marido, o diplomata Paul Child, inventaram truques que até hoje fazem parte dos roteiros de programas de TV, como iniciar um prato do zero, mas ter outro em estágio mais avançado de preparo, para encurtar o tempo.

Um dos produtores da série ao lado de Daniel Goldfarb, Chris Keyser afirma que ambos têm uma "conexão emocional" com a sua protagonista. "Daniel cresceu com o livro dela nas mãos e eu assistia a 'The French Chef' com meus pais."

Ele não estranha o fato de um programa de TV tão datado continuar cultuado tantas décadas depois. Segundo o produtor, a colaboração de Child para a história da gastronomia vai muito além de ter assumido que a informalidade da vida real pode ser mais atraente do que um roteiro impecável e sem erros do começo ao fim.

"Julia influenciou não só os atuais programas de culinária, mas todos os programas de 'faça você mesmo' que dominam nossas telas. Havia algo menos polido e mais real em 'The French Chef', porque o diretor mostrava tudo sem cortes", Keyser afirma.

A elaboração do roteiro contou com a colaboração de Todd Schulkin, diretor-executivo da fundação ligada a Julia Child em Santa Barbara, na Califórnia. Segundo Schulkin, foi o instituto que sugeriu o recorte de tempo da primeira temporada. "Sentíamos que se dava muita atenção ao tempo de Julia na França, mas esse período de sua vida [quando ela se tornou uma estrela da TV] era tão inexplorado quanto importante."

A personalidade de Child, além das panelas e as complexas relações que cultivou ao longo da vida também, é a matéria-prima das produções. Estão lá, por exemplo, as batalhas diárias para se fazer ouvir num universo essencialmente masculino, que considerava receitas culinárias um assunto sem importância.

Vítima de preconceito na França, onde era vista como cidadã de segunda classe por ser americana, e nos próprios Estados Unidos, onde sentiu que seu espaço na TV diminuía à medida que a idade avançava, Child sempre venceu na base da teimosia.

Também tinha seu lado conservador. Usava termos depreciativos para rotular gays e só mudou de postura quando o advogado e amigo Bob Johnson morreu em decorrência da Aids --em pouco tempo, Child estava liderando eventos beneficentes de apoio à comunidade gay.

Sem empunhar bandeiras nem dar nomes aos bois, ela foi precursora de movimentos que ainda soam atuais. "O legado de Julia não só resistiu ao tempo como conquistou importância, como um vinho de guarda. Nos anos 1960, ela já criticava o sistema global de fornecimento de alimentos em função das práticas de trabalho injustas e da vulnerabilidade nutricional", avalia Schulkin.

As três produções que contam a história de Julia Child --em 2009, o filme "Julie & Julia" teve Maryl Streep no papel-- ainda estão longe de esgotar o assunto. Segundo Chris Keyser, ainda há muitos detalhes de sua vida que permanecem desconhecidos do público. E uma segunda temporada da série já está em gestação.

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JULIA

Onde Disponível para aluguel e compra no Apple TV, Google Play e Microsoft; aluguel no Now e Claro Vídeo

Preço R$ 11,90 a R$ 34,90

Produção EUA, 2021

Direção Betsy West e Julie Cohen

JULIA

Onde Disponível no HBO Max

Elenco Sarah Lancashire, David Hyde Pierce, Bebe Neuwirth

Produção EUA, 2022

Direção Daniel Goldfarb

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