Entenda como Erykah Badu fez 'Baduizm', álbum que definiu o estilo neosoul

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em algum momento entre 1995 e 1996, Erykah Badu telefonou para Madukwu Chinwah, seu principal colaborador musical na época, para perguntar o que era um "rim shot". Ele explicou que se tratava do som obtido quando se usa a baqueta para tocar ao mesmo a pele e o aro da caixa, um dos tambores que compõem a bateria.

"Ela definitivamente queria incorporar isso ao som dela", diz Chinwah, que é produtor musical. Logo depois do baixo, este é o primeiro som que surge em "Baduizm", álbum de estreia de Erykah Badu, cujos 25 anos ela celebra com shows em São Paulo, no domingo (22), e no Rio de Janeiro, na terça (24).

Foi a partir desta batida seca que Badu tirou o título da primeira faixa do disco, "Rim Shot", e um norte para a obra que ela viria a desenvolver. Por consequência, também estabeleceu o neosoul, gênero criado para classificar sua música e de outros artistas contemporâneos ou influenciados por ela.

Antes de "Baduizm", Badu era rapper e tinha algum destaque na cena de Dallas, no Texas, onde conheceu Chinwah. Nos anos 1980, o hip-hop se popularizava na região e tinha como ponto de encontro a rádio comunitária Knon, onde um DJ chamado Nippy Jones tratava jovens talentos como celebridades.

"Imagine um lugar pequeno, onde os MCs improvisavam das 21h até as 3h da madrugada --e Erykah era um deles", diz Chinwah. "Ela era muito boa na rima. Lógico, era aquele estilo do início dos anos 1990, mas quando ela estava no auge era reconhecida como uma MC de excelência."

Foi o produtor quem incentivou Badu a desenvolver seu canto para além das batidas eletrônicas mais duras do hip-hop. Chinwah, que também era rapper, se tornou multi-instrumentista tocando na igreja e começou a colaborar com Badu.

"Músicos gostam de tocar", ele diz. "Eu não fazia loops [repetições de um trecho], não era batida pré-programada. Era eu tocando um instrumento e ela se encaixando naquilo."

Foi uma transição lenta e gradual, diz o produtor, até que em 1994 ele a chamou para fazer backing vocals em seu álbum gospel. Paralelamente, eles escreviam as músicas que estariam em "Baduizm" -ele no piano, ela cantando.

Era um momento em que o soul e o R&B tomavam um caminho de produções mais polidas e uma pegada pop. Grupos como o SWV, o Sisters with Voices, e cantoras como Mary J Blige dominavam a cena.

Badu já tinha uma amizade com The Roots, do baterista Questlove, e até hoje uma das bandas mais conhecidas do hip-hop, e era conhecida fora do Texas por sua carreira como rapper. A Sony tentou contratá-la, querendo que ela seguisse um caminho mais tradicional, alinhado ao jazz, só que Badu, como diz Chinwah, era "hip-hop da cabeça aos pés".

Ela acabou fechando com a Universal e estourando com o single "On & On", uma produção de Jah Born Jamal, amigo de Badu e Chinwah. Até hoje a música mais conhecida de Badu, ela foi a prova de que aquela sonoridade poderia ser viável comercialmente.

Além do carisma e da potência vocal de Badu, "On & On" era inovadora e urbana, dando ao soul uma abordagem moderna de hip-hop. Foi também a música que introduziu o "rim shot" nesse contexto, fazendo o contraponto das batidas mais graves, características do hip-hop, e libertando o estilo de Badu de todas as amarras prévias.

A Chinwah, maior presença em "Baduizm" depois de Badu, coube o trabalho de pré-produção, quando eles criaram as músicas do álbum. Ele foi testemunha da cantora conforme ela escrevia as letras.

"Ela vinha até minha casa para compor", diz. "Até hoje tenho os papéis em que ela escreveu. Como é uma pessoa muito criativa, uma artista de verdade, também fazia arte, vários desenhos, enquanto escrevia."

Mas, além desse trabalho prévio, Chinwah tocou no álbum. Onde se lê o nome dele nos créditos como produtor, isso significa que ele tocou os instrumentos --como em "Rim Shot" e "Certainly". Uma de suas adições à sonoridade do disco foi o piano Rhodes, indo na contramão dos sintetizadores mais modernos da época, usados na música pop.

"Baduizm" foi feito e gravado por amigos, a maioria deles de Dallas, e captou o sentimento de quem viveu aquela época naquele lugar. Para Chinwah, as situações retratadas nas letras, quase todas, vinham de experiências reais e até o senso de humor tem a cara da cidade.

"Uma hora ela soa vulnerável, na outra ela soa 'gangster', depois soa mais sutil", diz. "É um álbum completo. O retrato de uma pessoa por completo."

"Baduizm" foi um sucesso instantâneo, rendeu dois Grammy, chegou à segunda posição entre os mais ouvidos nos Estados Unidos e foi considerado um dos cem melhores discos de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Não é só o trabalho definitivo da cantora, que segue ativa até hoje, mas que deu cara ao neosoul, e colocou Dallas no mapa da música naquele momento.

A música soul não estava morta, mas certamente não era o que passou a ser depois de Erykah Badu, que inseriu hip-hop, jazz, R&B, gospel e psicodelia em seu caldeirão sonoro. Para Chinwah, ela é uma rapper que "faz improvisações não com rimas, mas com as melodias".

E, em relação àquela turma de Dallas, tudo se transformou. "Ela estava acostumada a fazer shows de graça. Ensinava dança às pessoas, contribuía com a cultura local. Quando os contratos chegaram, nos deu visibilidade, foi uma mudança de vida para nós, produtores. A gente não tinha carro, não tinha casa. Mudou o estilo de vida e nos deu confiança --nos fez acreditar que tínhamos algo a contribuir."

NÔMADE APRESENTA COM ERYKAH BADU EM SÃO PAULO

Quando domingo (22), a partir das 14hOnde Memorial da América Latina - av. Mário de Andrade, 664, Barra FundaPreço a partir de R$ 195Link: https://www.ticket360.com.br/evento-composto/544/ingressos-para-festival-nomade

ERYKAH BADU NO RIO DE JANEIRO

Quando terça-feira (24), às 21hOnde Vivo Rio - av. Infante Dom Henrique, 85 - Parque do FlamengoPreço a partir de R$ 140Link: https://bileto.sympla.com.br/event/78623/d/169286