Ensaios sensuais para mulheres “reais”

Nathalia Ziemkiewicz
Foto: Naked Fotografia
Foto: Naked Fotografia

Não é raro que o telefone da Naked Fotografia toque e do outro lado da linha alguma mulher interessada em fazer o ensaio sensual diga coisas como: “mas eu tô muito gorda”, “meu peito é caído”, “já sou velha”, “tenho nariz grande”, “minha perna é fina”, “a bunda tá flácida” etc. Quando chegam ao estúdio, a fotógrafa Michelle Moll percebe como a autoimagem delas está distorcida. “As mulheres tendem a ser muito críticas e não enxergam a própria beleza”, diz. “Queremos provar que, independente de estarem ou não nos padrões, podem se sentir bonitas e desejáveis”.

Foto: Naked Fotografia
Foto: Naked Fotografia

Sob suas lentes já estiveram, por exemplo, silhuetas plus size e com até 71 anos de idade. Nada de nudez explícita ou ângulos ginecológicos. A proposta do chamado ensaio boudoir é beeeem mais leve. Na maioria das vezes, a foto sugere o erotismo em vez de escancarar tudo. A palavra francesa boudoir remete ao “quarto de banho” dos anos 1920, lugar em que as mulheres da aristocracia se arrumavam. Não à toa, boa parte dos ensaios acontece num apartamento-estúdio com cama, banheira, papel de parede… Ok, cenário lindo.

Mas como faz para que essas clientes não-modelos tirem a roupa na frente da equipe (toda feminina) e fiquem à vontade a ponto de sensualizar diante de uma câmera? Sempre rola uma entrevista pra entender o que a mulher espera, com que “estilo” de sensualidade ela se identifica (tudo bem não gostar de salto alto e fio dental), quais partes do corpo acha legais etc. No dia agendado, durante a produção, o clima vai descontraindo. “No começo elas costumam ter ataque de riso de nervoso”, conta. “Depois tão andando peladas numa boa”.

Foto: Naked Fotografia
Foto: Naked Fotografia

A brincadeira demora entre três e seis horas, custa a partir de R$ 1.800. Tudo depende do pacote contratado: quantidade de fotos, trocas de roupa, se incluem cabelo e make, locação externa etc. Achou caro? A julgar pelos quase 500 ensaios realizados pela empresa nos últimos quatro anos, pra muita o investimento vale a pena. Se o valor inclui aquele Photoshop tipo filtro maravilhoso do Instagram?

“Não emagrecemos ninguém”, diz a designer Mariana Moll, responsável pelo tratamento das imagens. “Se uma dobrinha incomoda a cliente, conversamos bastante e até suavizamos com uma sombra. Mas não tiramos dali. A gente preza pela naturalidade porque a ideia é se libertar dos padrões”. Claro que se encontrar bem na própria pele turbina qualquer autoestima e relacionamento, né nóm? “É um processo de dentro pra fora”, acredita Michelle. “Se você não se sente segura, não quer botar uma lingerie ousada, não transa de luz acesa…”

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria.