Enquanto discutimos riqueza de Jade, Jessi reflete Brasil real sem salário e perspectiva

Jessi conversa com Tadeu Schmidt no BBB22 (Reprodução Globoplay)
Jessi conversa com Tadeu Schmidt no BBB22 (Reprodução Globoplay)

Apagada pela edição e até o momento com pouca representatividade nas dinâmicas ao vivo, Jessilane protagonizou uma discussão importante e fez valer seu tempo na tela ao jogar a real sobre a situação financeira de grande parte do Brasil. Em conversa sobre sua atuação como professora, Jessi revelou que passou muito tempo afundada em dívidas e em 2020, no pico da pandemia da Covid-19, precisou se virar com um salário de R$870 de setembro a dezembro.

"Eu ganho em geral agora, com as aulas voltando, R$1.600 máximo. Daí quando eu soube que eu podia ir pro BBB, eu falei pra minha mãe que eu ia, porque é a única oportunidade que tenho de mudar a vida da gente, de construir coisas pra minha família. Eu passei em outro processo seletivo depois, que ia dar uns 5 mil, mas eu queria poder ter uma segurança pra ter coisas melhores pra quem eu amo", explicou ela.

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Jessi é professora, pós-graduada em linguagem brasileira de sinais e mestre no ensino de Biologia. Quando entrou na casa, a baiana afirmou que sua mãe precisou lutar muito para não deixar as filhas sem comida. "Quando minha irmã e eu éramos crianças, teve situação de comermos feijão com farinha. Minha mãe fazia as bolinhas e dava para a gente. Ela nunca nos deixou passar fome, mas aconteceu de ter muito pouco para comer", explicou.

A irmã de Jessi, Caroline, falou para o "Extra" que a sister abriu mão de muita coisa para conseguir não se afogar nas dívidas durante a atual crise econômica e sanitária. "As pessoas imaginam que por causa da graduação boa ela recebe bem. Mas realmente tem a desvalorização da categoria. A Jessi recebia esse valor assinado em carteira e tinha muitas dívidas. Ela tem financiamento estudantil, que ainda paga, contas de cartão... Mas a maior dívida é o financiamento. Em 2018, ela ganhou um pouco melhor, chegou até um carro, mas quando saiu precisou vender. Já teve época da Jessilane receber R$ 800, R$ 880".

Enquanto transformamos em meme os inúmeros momentos de Jade Picon passando por "perrengues de pobre", experimentando roupas da C&A, varrendo a casa e comendo pão com ovo, o discurso de Jessi evidencia que nos desviamos de assuntos desconfortáveis e que precisam ser problematizados em prol de tirações de sarro que já se tornaram repetitivas. Não podemos ignorar o discurso de Jessi, nem deixar de usar o BBB22 como plataforma para discussões importantes de consciência de classe, racismo, homofobia e transfobia.

Uma conversa aparentemente inofensiva entre os brothers do Camarote e do Pipoca demonstrou bem como precisamos falar de abismo social e financeiro e como é nocivo deixar certas questões passarem em branco. Em papo sobre adereços da festa, Tiago Abravanel falou para Jessi e Natália que para ser estiloso basta ter criatividade.

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As duas, mulheres pretas de origem humilde que já passaram por inúmeros problemas financeiros, explicaram que a chamada "criatividade" de Tiago demanda um tênis caro e uma camisa que elas não poderiam comprar. O brother, milionário desde o nascimento, tentou rebater, dizendo que "é possível ser criativo dentro de uma realidade diferente", e se recusou a entender as raízes racistas e classistas dentro da discussão promovida por ele. O BBB é um jogo que reflete as problemáticas fora do confinamento, e não podemos focar na realidade dos participantes ricos e ficar na superfície das brincadeiras e memes enquanto as injustiças sociais são perpetuadas dentro da casa.

Para Jessi, mulher preta, de origem humilde e trabalhadora, sonhar parece um objetivo distante e por vezes inalcançável, e sua realidade é a de milhões de professores no Brasil que procuram viver de seu trabalho. Não falta criatividade a Jessi: a sister precisa de oportunidades, de igualdade racial e social, e é dando espaço para o que ela tem a dizer que começamos a mudar esse cenário.

A realidade do professor no Brasil

De acordo com um levantamento feito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, os professores no Brasil recebem uma das piores remunerações entre 40 países após a Covid-19. Em média, o salário de um docente brasileira gira em torno de 25 mil na educação infantil e 26 mil no ensino médico, cerca de metade da média dos países da Europa e América do Norte. Os professores de nível universitário também ganham cerca de 50% menos em relação a nações europeias.

Devido à situação sanitária desesperadora no pico da pandemia da Covid-19, o Brasil está entre os países que fecharam as escolas por mais tempo, o que precipitou uma queda ainda maior do salário dos professores. Os gastos do Ministério da Educação com a educação básica a partir do início do governo de Jair Messias Bolsonaro também foi um dos menores da última década.

Um levantamento do Todos Pela Educação com base nos dados do IBGE mostra que os professores da rede pública estão entre as categorias profissionais mais mal remuneradas do país. De acordo com o relatório, os docentes ganhavam em 2020 apenas 78% da média recebida por outros trabalhadores com ensino superior.

O percentual, que consta do Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2021 da ONG, mostra que a média salarial dos professores se aproximou dos outros profissionais com ensino superior mais por conta da queda do rendimento dos demais profissionais do que da valorização do docente. De 2013 para 2020, o valor médio pago para professores oscilou entre R$ 3,7 mil e R$ 4,1 mil, atingido no último ano. Os outros profissionais tiveram uma queda constante de R$ 6,2 mil para R$ 5,2 mil em 2020.

Discurso em libras

Tadeu Schmidt surpreendeu o público e os brothers do "BBB2" ao fazer um discurso em libras para anunciar que Jessilane, uma das emparedadas ao lado de Natália e Rodrigo, estava salva. A sister, que tem pós-graduação no idioma, ficou emocionada ao reconhecer que o apresentador estava falando em Libras. No idioma, Tadeu afirmou que a professora poderia ficar tranquila, já que as mulheres estavam a salvo nesse paredão.

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A consideração de Tadeu com Jessi acabou oferecendo para a sister uma ótima oportunidade para falar sobre seu extenso conhecimento em Libras (ela é pós-graduada no idioma), além de abrir espaço para outras falas sobre sua experiência como professora e sua bagagem de vida. Ainda apagada no jogo, a sister pode aproveitar o retorno do paredão como uma escada para se posicionar mais no jogo.

Enquanto a sister encontra a melhor estratégia para continuar jogando, cabe a nós, que assistimos ao programa e vemos as nuances raciais e sociais de cada participante, dar a pessoas como Jessi a mesma atenção que usamos com memes e piadas sobre os participantes mais abastados. A mesma lógica vale para a edição, que tem obrigação de dar a todos as mesmas chances. Histórias de vida luxuosas ou moldadas por dificuldades merecem o mesmo engajamento dentro de um reality que se propõe a ser uma "janela para o real" como o BBB22.