Clássico sem explicação: ousadia de 'O Enigma de Outro Mundo' completa 38 anos

Enigma de Outro Mundo completa 30 anos em 2020 (Foto: Divulgação)

Thiago Romariz*

Os finais em aberto, sem explicação ou respostas claras são polêmicos no cinema. Tanto para produtores quanto para o público. Os primeiros, e mais conservadores, clamam por algo que satisfaça o consumidor de imediato, sabendo que exigir e provocar a plateia nem sempre é o caminho do sucesso. Em tempos de redes sociais, então, tudo é ampliado. Terrores como Nós e A Bruxa e suspenses como Ex-Machina e Ilha do Medo jogam mistérios na tela sem facilitar a compreensão do espectador, exigindo - pro bem e pro mal - um mergulho intenso na trama sugerida. Há 38 anos, um (hoje) clássico fez o mesmo movimento. 

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O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, por muitos merecidamente lembrado como um marco nos efeitos visuais de Hollywood, fez um combo de ousadia em suas primeiras exibições: apelou para o grotesco e sanguinário nas formas da "Coisa", e ainda encerrou o filme sem uma linha de explicação sobre o que acontece com os protagonistas. O resultado foi imediato: reconhecimento quase nulo da crítica especializada, fracasso retumbante e que quase custou a carreira do na época jovem Carpenter. E ainda que seja lembrado pelos belos e aterrorizantes efeitos práticos, Enigma é uma história atemporal por questionar a humanidade e, como entretenimento, provocar o espectador ávido por uma diversão descompromissada.

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A carcaça que o roteiro de Carpenter usa é a do blockbuster. Elenco estrelado (Kurt Russell), diretor promissor, história baseada em conto clássico (já adaptada ao cinemas antes com sucesso) e efeitos especiais futuristas. A receita do filme popular, porém, saiu da rota quando o diretor conseguiu o apoio dos produtores para não explicar o final solitário e, principalmente, deixar com a plateia o sentimento de derrota e pessimismo ao fim da projeção. Olhar para a dupla sobrevivente no meio da neve e do fogo é desolador, enervante. “Como assim passei duas horas nesta batalha e não sei quem é o vencedor?”. “Pior: será que eu e os meus heróis somos os perdedores desta história?”.

Diretores como Nolan e Villeneuve, por exemplo, dominaram a arte de fazer o final aberto explicado. A Origem, ótima ação orquestrada, até hoje é lembrado por um peão bambo no final. Os Suspeitos, excelente suspense investigativo, tem nos suspiros da cena final o mistério inexplicado. Com as redes sociais, independente da qualidade das obras, estes tipos de desfecho se tornam mais importantes do que a própria história, muitas vezes - ainda que sejam sucesso garantido. Revisitar O Enigma de Outro Mundo é perceber que há 30 anos ele já brincava com o público e a percepção do que é um final enigmático dentro de um blockbuster - e deixava claro que a história é o que de fato importa, não a sensação final de que você 'adivinhou' ou descobriu o mistério escondido ao longo do roteiro. Por que às vezes ele simplesmente não existe.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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