Encontro de homem doente e garoto de programa é tema de um dos favoritos ao Urso de Ouro

BRUNO GHETTI

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - No penúltimo dia da competição oficial do festival de Berlim, o cineasta malaio-taiwanês Tsai Ming-Liang embolou a disputa pelo Urso de Ouro com seu novo trabalho.

Bastante aplaudido pela imprensa, "Days" tem como foco um homem doente e seu encontro com um garoto de programa, em Bangcoc. Não vivem exatamente um romance, mas uma relação que diminui um pouco a única coisa que eles talvez tenham em comum: uma enorme solidão.

O filme é mais uma colaboração do cineasta com o ator Lee Kang-Sheng, com quem trabalha há três décadas em filmes como "O Rio" (1998). 

"Kang-Sheng esteve doente por mais ou menos quatro anos, tive uma grande preocupação com sua saúde. Logo senti que seria imperativo voltar a filmá-lo", disse Ming-Liang à imprensa. 

A princípio, não havia uma história definida, mas apenas essa vontade de trabalhar com o amigo novamente. Um dia, o diretor conheceu um vendedor de lámen em uma rua de Bangcoc e pensou que ele poderia ser um bom ator. Foi assim que chamou Anong Houngheuangsy para o filme, que resolveu aceitar a empreitada.

"Conheci esse jovem que tinha deixado o Laos e ido morar na Tailândia. Passou por várias ocupações, como é comum entre os imigrantes", relata Ming-Liang, que achou interessante unir aspectos do ator veterano com do principiante em um mesmo roteiro, elaborando a ideia geral do longa. "A juventude, a velhice, a doença, o ambiente irresistível onde vivemos: foi daí que nasceu o filme."

Antes de "Days" começar, um letreiro indica: "Este filme intencionalmente não possui legendas". Deve ser alguma piada do diretor, porque o longa não traz praticamente nenhum diálogo. Há muitos sons, mas do ambiente: da cidade, de animais, da chuva. Fora isso, é praticamente cinema mudo.

Aliás, não há de ser por acaso que, em um momento-chave do longa, Ming-Liang homenageia Charles Chaplin, em uma cena em que uma caixinha de música toca o tema de "Luzes da Ribalta", de autoria do próprio intérprete de Carlitos.

A cena é de uma potência impressionante -o filme de repente se torna emotivo, sendo que até então se arrastava em sequências de pouca adesão afetiva. O longa é todo composto de cenas enormes, de mais de cinco minutos de duração, às vezes com a câmera fixa sobre personagens completamente parados. Nas mais "dinâmicas", eles surgem fazendo alguma atividade sem maior interesse.

Ou seja: de certa forma, é um filme parecido com tudo o mais que Ming-Liang já fez na carreira -é preciso um bocado de paciência (e cafeína) para chegar ao final. Mas o diretor continua conseguindo extrair poesia do tédio.

E, desta vez, no lugar da habitual melancolia, Keng-Shang traz uma real tristeza no olhar, talvez até ocasionada pela sua doença (nem o filme nem Ming-Liang deixam claro do que se trata, mas o ator muitas vezes mostra problemas motores, provavelmente de origem neurológica). O que traz ao filme um caráter igualmente entristecido.

O longa de Ming-Liang divide favoritismo na competição com "First Cow", western sobre amizade da americana Kelly Reichardt;  "Undine", fantasia romântica do alemão Christian Petzold; e "Never Rarely Sometimes Always", drama sobre aborto da americana Eliza Hittman. 

Correndo por fora, há ainda o drama "The Woman Who Ran", do sul-coreano Hong Sang-soo. E também podem surpreender os dois filmes ainda não exibidos: "Irradiés", do cambojano Rithy Panh, e "There Is No Evil', do iraniano Mohammad Rasoulof. O vencedor será anunciado no dia 29. 

Fora da competição, mais um brasileiro passou com elogios pela mostra Panorama, a segunda mais importante. O paraense Fernando Segtowick mostrou "O Reflexo do Lago", belo documentário com foco na usina hidrelétrica de Tucuruí, na região Norte, construída no fim da Ditadura Militar.

Ironicamente, porém, os moradores de locais próximos jamais tiveram acesso à eletricidade gerada ali. O filme mostra a situação das pessoas que habitam por lá, com uma preocupação tanto humanista quanto ecológica.