Encantados e reforma agrária: semelhanças entre "Pantanal" e o livro "Torto Arado"

Osmar Prado como Velho do Rio e Torto Arado:
Osmar Prado como Velho do Rio e Torto Arado: "Pantanal" e livro de Itamar Vieira Junior abordam espiritualidade e reforma agrária (Foto: reprodução/TV Globo/Todavia)

Resumo da notícia:

  • "Torto Arado", livro de grande sucesso, guarda semelhanças com a novela "Pantanal"

  • Entenda abaixo como as duas obras abordam a crença dos "encantados", a reforma agrária e o símbolo da onça

  • Antes da novela e do best-seller, Guimarães Rosa já havia abordado a ligação entre o animal e os humanos do pantanal

"Torto Arado", um dos maiores best-sellers dos últimos anos no Brasil, irá virar série em breve no HBO Max. Antes da adaptação, os fãs da obra de Itamar Vieira Junior têm se divertido com outra história que aborda a crença dos encantados e a mística em torno da onça: o remake de "Pantanal", na TV Globo.

Veja abaixo as principais semelhanças - incluindo a questão da reforma agrária, vista principalmente na primeira fase do folhetim - entre o livro e a novela.

Os encantados e a crença do Jarê

Em "Torto Arado", Itamar Vieira Junior nos apresenta o personagem Zeca Chapéu Grande. Líder comunitário e espiritual, ele é pai das protagonistas Bibiana e Belonísia. Numa região onde não há médicos e a a cura está sempre ligada ao espiritual, é ele quem entra em contato com os "encantados", entidades espirituais que parecem vigiar e proteger os personagens da história. Reforçando a importância de Zeca, o livro, inclusive, é encerrado com um capítulo narrado por uma antiga encantada chamada Santa Rita Pescadeira.

A trama desenhada por Itamar Vieira Junior surgiu de estudos sobre o Jarê, religião exclusiva da Chapada Diamantina que mistura elementos do catolicismo, umbanda, candomblé, xamanismo e espiritismo. Em "Pantanal", a crença aparece na figura do Velho do Rio, personagem misterioso interpretado por Osmar Prado. Em vídeo divulgado pela própria Rede Globo, ele é descrito da seguinte forma:

"Um ser misterioso que zela por cada animal e cada palmo daquele chão. Um encantado, uma espécie de entidade por quem trato como Velho do Rio (...). Não sabe se é feito de carne e osso. Não sabe sequer se tá vivo ou morto. Uns dizem que é bom, outros que é mal. Sabem apenas que ele existem, conhecem as suas lendas, acreditam nos seus milagres e, antes de mais nada, respeitam a sua vontade. Há quem jure que tem o poder de cura. Que os seus encantos podem trazer de volta à vida, o espírito desencantado de um ser, que as ervas por ele ministradas são capazes de combater o mais poderoso dos venenos."

"Virar onça": de Guimarães Rosa ao pantanal

Juma (Alanis Guillen) em cena de "Pantanal" (Foto: reprodução/TV Globo)
Juma (Alanis Guillen) em cena de "Pantanal" (Foto: reprodução/TV Globo)

Em "Torto Arado", a onça é um animal que circula entre o real e o imaginário. Nos primeiros momentos do livro, Donana, avó dona da faca que mudaria o destino de Belonísia e Bibiana, se mostra preocupada com a presença de uma onça que só ela vê. Mais adiante na história, o leitor volta a ouvir falar da onça, tanto na história de origem de Zeca Chapéu Grande quanto por um dos trechos mais belos e enigmáticos da obra, visto em seu encerramento.

"A onça caiu com as presas enterradas no chão. Retirou uma porção de terra da boca. Não era uma armadilha tola para capturar uma caça. Mas antes que levantasse, se abateu sobre seu pescoço um único golpe carregado de uma emoção violenta, que até então desconhecia. Sobre a terra há de viver sempre o mais forte.”

No caso de Pantanal, Maria Marruá (Juliana Paes) e a sua filha, Juma (Alanis Guillen), viram onça-pintada quando estão com raiva ou se sentem ameaçadas — o que não deixa de ser uma metáfora contra o patriarcado e sua violência contra as mulheres. Assim como elas, o Velho do Rio também tem o dom de se tornar sucuri. Em ambas as histórias, os animais surgem no limiar entre a humanidade, metáfora e a loucura, com o lado irracional sendo representado por símbolos da natureza.

O primeiro a trabalhar com a ideia de "virar onça" talvez tenha sido Guimarães Rosa. Em um dos seus contos mais célebres, "Meu tio o Iauaretê”, o escritor mineiro se inspirou em uma viagem ao Pantanal em 1949 para contar, com linguagem que mistura o português coloquial com onomatopeias e palavras em tupi, a história de um onceiro chamado Tonho Beró, lembrado justamente por se transformar em onça.

Na obra, Rosa trabalha com a ligação entre humanos e animais, seguindo o que dizia o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: o parentesco entre eles se dá não pela animalidade do primeiro, mas sim pela humanidade do segundo. A trama é encerrada pela morte trágica do seu personagem principal, já em forma de animal, após o disparo de uma arma de fogo.

A reforma agrária

Juliana Paes vive Maria Marruá em Pantanal (Foto: Reprodução/ Globo)
Juliana Paes vive Maria Marruá em Pantanal (Foto: Reprodução/ Globo)

O início de "Pantanal" emocionou o público ao mostrar a luta de Maria Marruá (Juliana Paes) por um pedaço de terra. A narrativa lembra muito o final de "Torto Arado", quando Bibiana e o seu marido Severo se tornam lideranças da comunidade e alvos de poderosos por defender terra aos quilombolas. Em entrevistas, Itamar Vieira não esconde que apoia a reforma agrária.

"Terra tem. Falta vontade política para fazer a reforma agrária. A reforma que se defende hoje já se distanciou muito do que era no passado, pois houve uma evolução no pensamento sobre o que é a reforma agrária. O Brasil se tornou um país com uma população urbana significativa, e a cada década a população urbana cresce. Mas quem vive no campo ainda precisa ser ouvido, assistido, e acredito que a reforma agrária é, sim, o caminho para a redução das desigualdades. Mas não só. É um dos caminhos, como uma renda básica universal e a educação", disse o escritor ao Uol.

Belonísia e a falsa muda de "Pantanal"

Juma e Muda em
Juma e Muda em "Pantanal" (Reprodução Globoplay)

Belonísia, logo no início de Torto Arado, perde parte da língua e fica muda. A abordagem da deficiência feita por Itamar Vieira Junior é bastante natural, ainda que levante questões sociais. Sem a possibilidade de se comunicar por linguagem de sinais (recurso que sequer é citado na obra), a personagem acaba criando um jeito particular de se comunicar com os demais personagens.

No caso de "Pantanal", a interação entre Juma e Muda (Bella Campos) fez muita gente se lembrar da relação das irmãs Bibiana e Belonísia. A relação mostra o impacto do livro, porém, quando olhamos mais de perto, percebemos que trata-se apenas de uma vaga semelhança: a Muda da novela, como o público já sabe, fala e apenas esconde com o silêncio as suas reais pretensões no Pantanal.

Ouça o Pod Assistir, podcast de filmes e séries do Yahoo:

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos