O papel (duplo) das empresas de tecnologia na crise do coronavírus

Marc Benioff, CEO do Salesforce, vem pregando um capitalismo mais consciente há anos (Foto: NICHOLAS KAMM/AFP via Getty Images)

Por Rodrigo Ghedin (@manualusuariobr)* 

Já faz algum tempo que Marc Benioff, cofundador e CEO da Salesforce, um titã norte- americano do software corporativo, prega a ideia de um “capitalismo consciente”. Nunca deram muita bola a ele. A pandemia do coronavírus pode ser a ocasião dramática em que, se não sua voz, sua ideia ecoará por aí. 

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As grandes empresas, naturalmente sob os maiores holofotes e com mais poder econômico, estão se mobilizando para ajudar a conter a pandemia. Isso inclui as de tecnologia, que vinham enfrentando grande escrutínio de governos mundo afora e, mais timidamente, dos usuários. Além do básico — liberar funcionários para o trabalho remoto —, elas estão criando fundos para socorrer parceiros e fornecedores, oferecendo descontos ou mesmo liberando gratuitamente serviços e produtos, e dando contribuições inesperadas, como as doações dos estoques de centenas de milhares de máscaras (?) que Apple, Facebook e a Salesforce de Benioff tinham guardados. 

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O chamado ao “esforço de guerra” contra o coronavírus era inevitável pelo papel que essas empresas de tecnologia conquistaram, em alguns casos de maneira questionável, nas últimas décadas. Elas têm faturamentos superiores ao PIB de muitos países. Declarações de CEOs das maiores companhias têm o peso das de chefes de estado. Seus produtos e serviços alcançam populações maiores que a da China, país mais populoso do mundo, e, dessa forma, moldam o comportamento humano de maneira inédita em nossa história. Com uma indiscutível ajuda de alguns presidentes e primeiros ministros assustadoramente inaptos, hoje as pessoas confiam mais em empresas do que em governos. 

São ações bem-vindas, mas vamos dar um passo para trás para analisá-las porque, apesar da situação crítica gerada pelo coronavírus, o histórico dessas empresas sempre as acompanha e, com frequência, dialogam diretamente com as respostas à crise pandêmica. 

É curioso, no mínimo, que muitas dessas ações emergenciais decorram de problemas criados por elas mesmas. As plataformas de carona e entrega de refeições, por exemplo. Gastam toneladas de dinheiro com advogados e lobistas a fim de garantirem, nas esferas legislativa e judiciária, que seus motoristas e entregadores não sejam classificados como funcionários. À luz do coronavírus, todas as maiores — 99, iFood, Rappi, Uber — anunciaram o mínimo: a criação de fundos para bancar “parceiros” contaminados ou que tenham que ficar em quarentena. Fossem funcionários de fato, eles já teriam, por padrão, garantias que há décadas a legislação trabalhista provê, como o afastamento remunerado por doença. 

A situação das empresas de redes sociais é similar. A postura historicamente negligente delas ajudou a dar voz a movimentos negacionistas de toda a sorte, dos antivacinas ao da Terra plana, sem falar nas influências indevidas a eleições democráticas espalhadas pelo globo. Tudo isso está em suspenso porque essa mesma tecnologia nos aproxima e isso não tem preço quando abdicar do contato físico é a maior contribuição que cada um de nós, indivíduos, pode fazer na contenção da crise. Apesar de tudo, ainda usamos o Facebook, o Twitter, o WhatsApp. 

Em outra área dentro da tecnologia, perdi as contas de quantos serviços por assinatura — de streaming, jogos, exercícios físicos, cursos online, ferramentas de trabalho remoto — abrandaram ou mesmo removeram os custos de acesso para, em tese, tornar mais palatável o auto-isolamento e o trabalho remoto. O que não encontrei, ainda, foi um desses serviços fazendo a oferta sem vinculá-la a um cadastro, com dados que se transformam em “leads” (clientes em potencial) e que, passada a pandemia, certamente serão explorados para converterem os agraciados com a benesse em assinantes pagantes. 

Todas essas empresas cresceram seguindo o antigo lema do Facebook, “mova-se rápido e quebre coisas”. Não à toa, hoje estão em melhor posição de ajudar, o que, à primeira vista, atenua o comportamento prévio e em grande medida condenável de cada uma delas. É um ganho de imagem à custa de uma pandemia. Isso está certo? Não. Mas, ante os cenários horríveis que se avizinham, é o que temos para hoje, é o que o mundo que criamos nos permite. 

*Rodrigo Ghedin é comunicólogo formado pela Universidade Estadual de Maringá e jornalista. Fundou e edita o Manual do Usuário, uma publicação de tecnologia “slow web”

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