Empresa do Carnaval de SP coagiu morador de rua a negar reportagem da Ponte

Por Daniel Arroyo, Jeniffer Mendonça e Paulo Eduardo Dias

“Eu estou com medo e pensando seriamente em sair de São Paulo”. É assim que C., 48 anos, se sente após denunciar à Ponte que pessoas que se identificam como funcionários da A.V.A. Serviços o procuraram por conta da repercussão da reportagem sobre o uso de moradores de rua por empresas terceirizadas para montar o Carnaval de Rua 2020, organizado pela Prefeitura de São Paulo. O homem, que mora em um centro de acolhimento, disse que atuou como agente de limpeza do dia 23 a 25 de fevereiro pela A.V.A. Serviços e afirma que ficou doente por ausência de capa de chuva e que recebeu apenas R$ 15 pelos dias trabalhados.

Ele relata que, três dias após a publicação da matéria, foi procurado por uma bombeiro civil chamada Ester, pelo aplicativo de mensagens WhatsApp, combinando um encontro próximo à estação Sé do Metrô, no centro da capital, para fazer o pagamento dos R$ 70 devidos pelo trabalho prestado. Ao chegar ao ponto combinado, o porteiro desempregado declarou que recebeu R$ 140, mas conta que a mulher exigiu que ele gravasse um vídeo desmentindo as denúncias feitas pela reportagem.

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“Eu tive que gravar o vídeo, mesmo porque ela estava muito nervosa”, afirmou. Ele diz que Ester não chegou “ameaçar diretamente, mas o tom que estava falando me apareceu ameaça”. “Me senti constrangido, me senti mal e aí eu gravei o vídeo”, completou. O ex-porteiro declarou que a filmagem foi feita pelo seu próprio celular a mando de Ester e encaminhado para ela pelo WhatsApp.

Trecho de mensagem que C. teria recebido de bombeiro que se identificou como da A.V.A. Serviços após publicação de reportagem da Ponte. | Foto: arquivo pessoal

C. procurou a Ponte para denunciar o que havia acontecido. “Esse vídeo não tem valor legal, porque, na verdade, eu estava me sentindo coagido diante dela, ela estava muito nervosa naquele momento”, relatou. “A reportagem foi fiel. A veracidade dos fatos foi contada com maior clareza”, pontuou.

Além da exigência da gravação, C. alegou ter ficado com medo de ser agredido por outros moradores em situação de rua que vivem na zona oeste da capital após receber um aviso de Ester. “Ela disse que o pessoal do abrigo da Lapa queria me dar um pau”, disse.”Eu não sei porque ela falou. Talvez é uma ameaça. Eu me senti ameaçado”.

O porteiro desempregado também afirmou que recebeu mensagens durante o final da noite de quinta-feira (5/3) de um homem chamado Danilo, que disse ser da A.V.A Serviços, em virtude de ele ter feito diversas perguntas sobre o trabalho realizado.

Ele também aponta ter sido avisado por seguranças do abrigo em que vive que pessoas afirmando ser funcionários da empresa estiveram no local na manhã de sexta-feira (6/3) perguntando sobre ele. No mesmo dia, o sócio da A.V.A., Alex Gimenez, enviou um e-mail à Ponte solicitando a retirada da matéria do ar.

Morador de rua recebeu mensagem de bombeiro civil que seria da A.V.A. para marcar encontro para receber dinheiro devido por serviço de agente de limpeza. | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

“As informações constantes do site são totalmente improcedentes, e empresa não atua com banheiros químicos, nada tem a ver com essa reportagem”, escreveu Alex, apesar de a reportagem deixar claro que o contrato da A.V.A. com a prefeitura é para prestação de serviços de limpeza e que um dos entrevistados que carregou banheiros químicos não soube precisar se a empresa também prestava esse serviço.

Além disso, apesar de o sócio da terceirizada ter dito anteriormente à Ponte que não contrata pessoas em situação de rua, em novo e-mail declarou que o entrevistado que atuou como agente de limpeza não era o mesmo. “O suposto [nome omitido pela reportagem], que vocês comunicam ter realizado reportagem por telefone, não condiz com a pessoa contratada pela empresa, que recebeu devidamente os serviços prestados, a empresa fornece e sempre forneceu EPI’S a todos que prestam serviços, temos todas as notas fiscais de compras de todos os equipamentos”, afirma.

Sobre a foto da camiseta com o logo da empresa, Alex disse que “todos os prestadores de serviços recebem uniforme para o trabalho e estes não devolvem, então não sabemos qual a procedência dessa pessoa que está na foto, e o mesmo jamais prestou reportagem”. E ameaçou processar a Ponte se a matéria não fosse retirada. “Creio que com certeza, tem um grande mal entendido, e vamos apurar estes fatos, e será aplicado as sanções judiciais com aqueles que estão difamando a empresa de forma indevida”.

Procuramos novamente, por e-mail, a A.V.A. Serviços questionando sobre as pessoas que se identificaram como funcionários que procuraram C. bem como sobre o vídeo gravado. Até a publicação, a empresa não respondeu a Ponte.