Emanoel Araujo peitou a elite como negro, baiano e gay à frente da Pinacoteca

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando o nome de Emanoel Araújo foi anunciado para ser o nome à frente da Pinacoteca de São Paulo, o artista e curador que morreu nesta quarta-feira enfrentou resistência da elite paulistana. "Mas tinha que ser um baiano?", artistas comentavam na cerimônia e posse. "E preto e homossexual", emendava ele próprio.

"Sempre haverá pedras no caminho. O sucesso incomoda", disse ele à Folha de S.Paulo em um perfil publicado em 2013. Desafiado pela descrença, fez uma gestão —entre 1992 e 2002— até hoje tida como inovadora.

Com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, botou o prédio do museu abaixo, integrou seu pátio ao jardim da Luz, contrariou ordem da prefeitura e removeu uma escada da fachada, arrancou eucalipto na calada da noite —e assim por diante. Movimentou público recorde à época, 150 mil visitantes em 38 dias, com a exposição de esculturas de Auguste Rodin, em 1995.

Além dessa casa, uma das coroas da sua trajetória como divulgador da arte negra no Brasil veio com a direção do Museu Afro Brasil, localizado no parque do Ibirapuera, em 2004, durante a prefeitura de Marta Suplicy (PT).

Foi Marta quem instituiu o museu, mas, diz Araíjo, "não adianta criar e esquecer". Por isso o diretor dedicou maior gratidão a José Serra (PSDB), sucessor da petista na Prefeitura de São Paulo. Em 2005, Araújo chegou a se tornar o titular da secretaria municipal da Cultura em São Paulo —mas ficou apenas "cem penosos dias", como ele escreveu em carta aberta taxativa, que levaria o então prefeito a intitular seu temperamento de vulcânico e explosivo.

Naquele momento, Serra respondeu, reservadamente, que havia posto um "ourives" —profissão do pai de Araújo— em uma "pedreira"

Após imbróglios provocados pelo secretário municipal da Cultura, Carlos Augusto Calil, em 2006, em 2009 Serra, então governador, transformou o museu em OS (Organização Social), submetendo sua gestão ao Estado de São Paulo e quintuplicando seu orçamento.

Mesmo sendo homossexual, suas opiniões à época podem soar controversas hoje —como ser contrário à adoção de filhos por casais do mesmo sexo. "Se queria ser pai, por que não virou hétero, não pegou sua mulher e fez seu filho? Que é isso, gente? Sou homossexual, vou querer ter uma filhinha? Isso realmente é meio canalha. Também acho um absurdo alguém que queira se casar e vai ao altar ou ao juiz. Pode casar e descasar no dia seguinte. Muito bonito, superemocionante ter seu dia de princesa, seu belo vestido, flores, flores e flores."

Já quanto às lutas relacionadas aos negros, ainda em 2013, ele já defendia, por exemplo, a lei de cotas, que ainda era vista com desconfiança por membros da intelligentsia de então, como o cantor Caetano Veloso, amigo de Araujo.

"Não sei muito bem por que as pessoas são contra a cota. Ferreira Gullar, Caetano Veloso, eles não têm mais filho nenhum concorrendo a universidade nenhuma", provocou o artista.

Para Araujo, "as cotas não tiram o mérito". "Ninguém vai lá [e diz] 'sou negro, vou entrar'. Elas são um numeral reservado para essas pessoas, como também tem um reservado para os brancos. Nós, os negros, pagamos impostos, por que temos que ser sempre escravos? O que é muito estranho é que os afrodescendentes estudam numa escola pública e, na hora de ir para a universidade, têm que ir para uma particular. E muitos param, porque não podem pagar."

O compositor Paulinho da Viola, amigo de Emanoel Araujo desde os anos 1980, afirmou que ele foi "proeminente na defesa da causa do negro no Brasil". "Uma figura de ponta. Todo o seu trabalho, por si só, já o demonstra. Essa coisa do museu não é brincadeira, é algo muito importante para todos nós, negros, e para todo o nosso povo", comenta o sambista. "Além de ser uma pessoa extremamente culta e muito inteligente, é um artista excepcional. É um agitador cultural."

Para saber da vez em que foi presenteado com um pavão empalhado de Charles Cosac e o sarapatel que preparou para Tomie Ohtake, leia a íntegra da reportagem de Thaís Bilenki.