Em total colapso de saúde, cidade no Rio mantém comércio aberto a mando da mílicia

Reprodução/Wikipedia/CC BY-SA 3.0

Logo após a confirmação do primeiro caso do novo coronavírus em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, ao final de março, o prefeito Washington Reis (MDB) afirmou que as igrejas evangélicas ficariam abertas porque a cura do novo coronavírus viria de lá.

Desde então, a disseminação do vírus explodiu na terceira cidade mais populosa do Rio e Caxias se tornou o segundo município com o maior número de casos e de óbitos. Até sexta-feira (7), a cidade acumulava 685 registros da doença e 96 mortos, o que corresponde a uma taxa de letalidade de 14%, superior à estadual, de 10%, e à nacional, de 7%.

O decreto que ordenou o fechamento do comércio no município chegou tarde, apenas no dia 3 de abril, depois que todas as demais cidades da Baixada já haviam determinado a suspensão das atividades. Ainda assim, mesmo após o decreto da Prefeitura, diversos estabelecimentos seguem funcionando. Em alguns casos, sob ordens da milícia, que continua a extorquir os comerciantes com a cobrança de suas "taxas de segurança".

Diante da demora na tomada de ações e da continuidade das atividades comerciais, os casos escalaram em Caxias. Um dos infectados foi o próprio prefeito Washington Reis, que buscou a cura da doença não nas igrejas evangélicas, mas em um hospital particular da zona sul da capital, onde ficou 13 dias internado.

Não tiveram a mesma possibilidade as centenas de pacientes que aguardam leitos na rede pública de saúde. Na rede municipal de Caxias, a ocupação por pacientes Covid tem chegado a 100%. São 24 leitos de enfermaria na UPA Beira Mar e apenas seis leitos de UTI no hospital Moacyr do Carmo. Neste hospital, imagens do dia 25 de abril mostraram cerca de 15 corpos acumulados fora das gavetas refrigeradas do necrotério.

Tentando contornar a falta de leitos, a Prefeitura inaugurou o hospital Municipal São José, na segunda-feira (4). A unidade conta com 128 leitos de UTI, mas, por enquanto, apenas 41 estão ocupados. Segundo profissionais de saúde com quem a reportagem conversou, nem todos os leitos foram ativados porque não há funcionários para operá-los, como também acontece em outros hospitais do Rio.

O estado também promete entregar na primeira quinzena de maio um hospital de campanha com 200 leitos intensivos.

Diante da escalada de casos do novo coronavírus e do esgotamento da capacidade de atendimento de todos os pacientes, a Justiça do Rio determinou que o estado e o município abram 73 leitos até o dia 30 de maio e 91 até o dia 15 de junho. A decisão foi tomada no contexto de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público, que pediu mais leitos e mais testes para o vírus em Caxias.

Na ação, a promotoria ressaltou que, mesmo que o estado inaugurasse todos os leitos previstos, ainda assim haveria um grande déficit.

"O cálculo do déficit de leitos apresentado acima leva em conta uma previsão feita pela SES-RJ [a respeito da abertura de leitos], a qual não se tem qualquer garantia ou informação acerca da possibilidade de cumprimento. Sendo assim, uma certeza já temos: o déficit será bem maior, pelo menos durante o mês de maio", afirma o Ministério Público.

Calculadora epidêmica que prevê a pressão hospitalar por Covid-19, produzida pela UnB (Universidade de Brasília) em parceria com a OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), indica que os leitos clínicos e intensivos para pacientes gerais se esgotarão em Caxias no fim do mês. No momento, estão livres para doentes Covid apenas dois leitos de UTI e 12 de enfermaria.

A promotoria também ressalta na ação que a alta taxa de letalidade no município indica que o número de casos está "extremamente subnotificado". Segundo estimativa do órgão, com base em fórmulas científicas, a cidade já teria mais de 17.000 casos da doença, apesar de ter identificado apenas 1,59% dos infectados.

De acordo com estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde da PUC-Rio, o percentual de notificação no estado está entre 10% e 12%. Portanto, em comparação, Caxias enfrenta um problema de subnotificação muito acentuado.

"Se há subnotificação de casos positivos, é porque a estratégia de testagem na população é falha e as Vigilâncias em Saúde do Estado e do Município não estão sendo capazes de implementar estratégias para minimizar o impacto da escassez de testes de diagnóstico", escreveu a promotoria.

A presidente do Sindicato dos Técnicos e Auxiliares de Enfermagem do município, Márcia Carvalho, relatou à reportagem que profissionais da saúde têm encontrado enormes dificuldades para ser testados. Segundo ela, são fornecidos testes rápidos, de menor precisão.

"Dá falso negativo. A pessoa continua passando mal, daí faz o teste PCR [mais preciso] e vê que está contaminado. E também não fazem o rastreamento dos pacientes atendidos por esses profissionais", afirma.

Em nota, a secretaria municipal de saúde de Caxias informou que recebeu 3.728 testes rápidos da secretaria estadual, para uso dos trabalhadores da saúde e da segurança pública na cidade. De acordo com o texto, os testes tiveram início no dia 8 de abril e 550 trabalhadores foram testados.

Enquanto o sistema de saúde está a beira do colapso, e a subnotificação atinge níveis graves, comércio e bares seguem abertos na cidade. A IDMJ (Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial), organização que trata da segurança pública na Baixada, recebeu relatos de que a milícia tem obrigado comerciantes a manter seus estabelecimentos abertos.

"Recebemos quatro denúncias de que milicianos passaram nos comércios centrais falando 'olha, fica aberto porque a gente vai ter que pegar a taxa'. E uma pessoa entrou em contato dizendo que os bailes funk, que são uma fonte de renda, foram reabertos nas áreas onde há uma parceria entre a facção TCP [Terceiro Comando Puro] e as milícias", relata Fransérgio Goulart, coordenador executivo da IDMJ.

Caxias é um dos municípios com presença mais forte dos grupos paramilitares, que estruturaram seu poder na região desde a década de 1990, a partir da eleição de vereadores citados por pesquisadores e políticos como matadores de aluguel.

"Caxias é um dos principais berços da milícia. Eles se fortaleceram basicamente com a venda de terrenos, mas avançaram em vários outros setores também. E o crescimento da venda ilegal de imóveis tem ocorrido sem o devido controle da Prefeitura [de Washington Reis]", diz o sociólogo e professor José Luiz Cláudio Alves, que estuda as milícias há mais de 20 anos.

"Uma das práticas é essa da cobrança de taxa dos comerciantes, numa cidade que tem um comércio forte. Isso desde o início [da disseminação do vírus] parecia algo que iria dar um grande problema", completa.

Nos últimos anos, as milícias expandiram seus tentáculos e passaram a cobrar, inclusive, por consultas em hospitais localizados nas áreas sob seu domínio. A prática acende um alerta para o que pode acontecer neste momento de pressão sobre a saúde.

"Com a estrutura sobrecarregada, pessoas morrendo nas filas, acredito que o acesso a exames e consultas médicas no sistema público será facilmente manipulado por essa estrutura de poder", diz José Cláudio.

O professor também afirma que o aumento da vulnerabilidade da população, diante da pandemia, pode fortalecer as milícias. "Não tem emprego, isso aprofundou a desigualdade. Eles podem usar essa crise para aprofundar os laços de clientelismo. Vão jogar a culpa no sistema de saúde, seguir o discurso bolsonarista e dizer que a doença veio para matar mesmo, que é lamentável, mas que a economia tem que continuar", afirma.

Caxias foi uma das cidades fluminenses que apresentou votação expressiva para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 2018. No primeiro turno, ele levou 275 mil votos, ou 61%. No segundo, ganhou com quase 70%.

"A postura bolsonariana negacionista, de querer que as pessoas rompam com o isolamento, vai ter grande repercussão lá. E o prefeito tem um comportamento vinculado a essa percepção. Eleito por grupos evangélicos, ele em plena luta pelo distanciamento social foi a público manter abertas as igrejas."

Em nota, a prefeitura de Duque de Caxias afirmou que vem intensificando a fiscalização para cumprir o decreto municipal que proibiu o funcionamento do comércio não essencial na cidade. Segundo a administração da cidade, os fiscais da secretaria de Fazenda já notificaram mais de 200 lojistas. Os infratores estão sujeitos a multa por descumprir o decreto e poderão ter o alvará de funcionamento cassado.

Da FOLHAPRESS