Em reunião, Paulo Guedes deixa clara a pretensão de Bolsonaro de concorrer à reeleição

Jair Bolsonaro fala durante a reunião ministerial do dia 22 de abril

Brasília - O lançamento mais esperado do ano já está disponível na telinha do seu celular ou computador. O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu o sigilo do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, citada por Sergio Moro como uma das provas da tentativa de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal (PF). A gravação foi disponibilizada quase na íntegra na internet — por decisão judicial, foram suprimidos apenas trechos em que são citados outros países, como China e Estados Unidos.

Entre muitos palavrões, ataques ao STF, a governadores e a prefeitos, uma fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, deixou claro que, ainda na metade do segundo ano do seu mandato, o presidente Jair Bolsonaro já pensa na reeleição, em 2022. “Não pode ministro pra querer ter um papel preponderante esse ano destruir a candidatura do presidente, que vai ser reeleito se nós seguirmos o plano das reformas estruturantes originais. Então eu tenho que dar esse recado, nós vamos estar à disposição, nós vamos ajudar tudo, mas nós não podemos nos iludir. O caminho desenvolvimentista foi seguido, o Brasil quebrou por isso, o Brasil estagnou. A economia foi conompi ... a política foi corrompida, a economia estagnou através do excesso de gastos públicos. Então, achar agora que você pode se levantar pelo suspensório, como é que um governo quebrado vai investir, vai fazer grandes investimentos públicos? Tarcísio sabe disso, conversamos sempre. Tarcísio sabe... O seguinte. Quanto é cê consegue, Tarcísio? Passar de cinco bi para quanto? Pra quinze, pra vinte, pra trinta? Multiplicou por seis. Quanto é que você consegue de ... de investimento em concessões? Duzentos e cinquenta. Tá certo? Então ó, tem cem bilhões vindo pra saneamento. Tinha cem bilhões que viriam, as dezessete maiores é ... é ... é ... petroleiras do mundo viriam pra a nossa cessão onerosa, cem bilhões de cessão onerosa, cem bilhões de mineração, cem bilhões de saneamento, duzentos trinta bilhões de concessões. Quinhentos bilhões! Cadê o dinheiro do governo pra fazer isso? Num tem. Então quem tá sonhando é sonhador. A gente aceita, politicamente a gente aceita. Vamos fazer todo o discurso da desigualdade, vamos gastar mais, precisamos eleger o presidente. Mas o presidente tem que pensar daqui a três anos. Não é daqui a um ano não. Tem muita gente pensando na eleição desse ano. É só a observação que eu faria”, afirmou Guedes, quando comentou o plano “Pró-Brasil”, que foi aprresentado pelo ministro da Casa Civil, Braga Netto, na reunião.

Quando Guedes acabou de falar, Bolsonaro disse: "Eu tô fora de eleições municipais”.

Para justificar a decisão de divulgar o vídeo, Celso de Mello usou o princípio da “paridade de armas”, argumentando que todas as partes envolvidas no caso devem ter acesso ao material para poderem exercer plenamente o direito de defesa. A gravação faz parte do inquérito aberto no STF para investigar a acusação do ex-ministro da Justiça Sergio Moro contra o presidente.

Bolsonaro afirmou que não iria esperar “foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu” ao citar a necessidade de trocar “gente da segurança nossa no Rio”. Na avaliação de investigadores que assistiram ao vídeo, a frase refere-se claramente à Polícia Federal no Rio e seria um indicativo da tentativa de interferir na PF. A defesa de Moro também afirma isso. Já Bolsonaro e a Advocacia-Geral da União (AGU), responsável pela defesa do presidente, argumentam que ele estava se referindo à sua segurança pessoal, o que é responsabilidade do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) — e não abrange a segurança de amigos.

Apesar de alegar que estava preocupado com a segurança dos seus filhos, o presidente promoveu o responsável por essa função menos de um mês antes da reunião. A troca também contradiz a alegação de Bolsonaro de que ele não havia conseguido mudar a equipe de segurança. Além disso, ele não explicou a relação de um “amigo” com a segurança oficial da Presidência.

Na internet, Bolsonaro afirmou que “mais uma farsa (foi) desmontada” com a divulgação do vídeo. “Nenhum indício de interferência na Polícia Federal", escreveu, em publicação no Facebook, junto com um trecho de 21 minutos da reunião.