Em onda de frio, marceneiro cria ‘casa de roupas’ em bairro periférico de SP

Caio Nascimento*
Estadão / Caio Nascimento

Não eram nem dez horas da manhã em São Paulo e trabalhadores já disputavam as calçadas estreitas da rua Celestino Bourroul, no bairro do Limão, para ir ao trabalho. O cenário era o mesmo de sempre: cabeças baixas, olhos vidrados no celular e pressa. Os termômetros batiam os 13 graus durante a primeira semana de agosto, e a ‘elegância’ dos trajes de inverno, como muitos gostam, tomou conta da paisagem. Mas isso não incluía Antônio, de 63 anos.

Morador de uma área pobre da região, o homem franzino vestia bermuda, chinelo e camiseta de manga curta, à procura de uma calça moletom número 38. O primeiro lugar que lhe veio em mente foi uma casinha de roupas, localizada em um ponto agitado do distrito. “Vim dar uma olhadinha. Aqui é uma boa opção, porque tem muita gente por aqui que precisa. É só vir e pegar”, disse o idoso, lamentando a morte de moradores de ruas nas noites frias das últimas semanas.

O que Antônio não esperava era a empatia e ajuda ao próximo que existem por trás da casinha. Ela foi criada em dois de julho deste ano pelo marceneiro Sérgio de Oliveira, de 57 anos. Católico praticante e adepto de atividades voluntárias na igreja da comunidade, o homem teve a ideia após saber da primeira onda de frio de 2019, com mínima de cinco graus.



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“Nosso bairro tem muitas pessoas carentes. Vejo gente andando sem blusa nesse frio e fico pensando: estou dentro do meu apartamento, quentinho e protegido. Mas e quem está na rua? Já tive relatos de mortes por hipotermia, e até falecer é um sofrimento muito grande. Primeiro resfria e chega ao ponto de queimar a pele com o vento”, lamenta.

A ideia de Sérgio foi reflexo de uma região com problemas estruturais. O Limão, localizado na zona norte da capital, tem uma expectativa de vida estimada em 72 anos - nove anos a menos que alguns bairros ricos da cidade, como Pinheiros, Consolação e Jardim Paulista. E foi classificado como o 26º distrito do município com mais mortes por causas não definidas dentre os 96 distritos da Cidade, em 2018. Além disso, concentra moradores de rua devido ao restaurante Bom Prato, que vende refeições subsidiadas pelo governo por R$ 1.

‘Não quero que meu bairro vire uma favela’

Esse pensamento da frase acima ainda é uma realidade nas classes médias e ricas do Brasil. De acordo com Paulo Garcia, síndico do prédio onde Sérgio mora com a família, a maioria dos moradores concordou com a iniciativa do marceneiro, mas alguns reclamaram que estava havendo bagunça na frente do condomínio.

A mulher de Sérgio, Valdelice Oliveira, analisa que o preconceito social e a falta de empatia para com os necessitados partem de pessoas acomodadas e egocêntricas, que só pensam em si. “Elas esquecem que seu irmão tem necessidade, precisa de um acolhimento. Esquecem também que quem precisa pega [as roupas] sai sorridente e feliz. Faz bem ao próximo”, afirma.

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Valdelice conta também que a atitude do marido é uma maneira de levar autoestima aos moradores carentes do bairro, pois os fazem sentir menos esquecidos pelo poder público. Em uma das noites frias das últimas semanas, ela recorda que viu um casal de carroceiros, com dois filhos e quatro cachorros, pegando o necessário para a família. Em outro momento, a mulher encontrou um casal de idosos sem agasalhos e se emocionou ao vê-los se beneficiando da casinha. “Se cada cidadão fizesse um pouquinho dessas atitudes, se cada região da cidade tivesse três, quatro ideias assim, seria ótimo. Ajudaria muitas pessoas”, acredita.

Brasil, a ‘terra do vandalismo’

Apesar do impacto ser local, a casa de roupas percorreu o Brasil pela internet quando a página Quebrando Tabu, com 10,5 milhões de seguidores no Facebook, divulgou a ideia nas redes sociais. À época, muitas pessoas admiraram, mas disseram que não vingaria porque “qualquer projeto desse vira vandalismo no Brasil”, conforme falou um internauta. Outro crítico chegou a afirmar que “não dava um mês para destruírem tudo”, porque “vivemos na terra do vandalismo”.

Inspirado nas geladeiras comunitárias da Europa, Sérgio Oliveira concorda que hora ou outra alguém pode depredar o lugar, mas previu isso e investiu cerca de R$ 650 (contando com mão de obra) em uma estrutura robusta de madeira com fibras de média densidade (MDF, em inglês), resistente à chuva. Além disso, ele instalou placas de alumínio nas bordas, para amenizar possíveis pancadas, e prendeu a casinha em um muro para não derrubarem.

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“Se todo mundo pensar só no vandalismo, as coisas não funcionam. A gente tem que persistir. Se é para fazer o bem, vamos fazer o bem. Agora, se a gente pensar que não adianta, não vamos chegar a lugar nenhum. Minha família sempre fará o bem. E, se destruírem e quebrar, eu conserto e coloco de novo”, promete.

+++ A estrutura da gratidão

‘Praticar o que Jesus me ensinou’

Sérgio Oliveira e Valdelice destacam que a consciência social da família parte do ativismo religioso deles. Segundo o marceneiro, existe uma diferença entre ir à missa e ser católico praticante: o primeiro apenas nutre a crença no sentido individual; o segundo, absorve os ensinamentos da Bíblia e os coloca em prática na vida de quem precisa de ajuda.

Os dois já coordenaram uma terapia coletiva de casais em uma paróquia do bairro do Limão, ajudaram nas vendas em quermesses e contribuíram com a Pastoral da Criança, instituição da arquidiocese da igreja Católica voltada para a proteção dos direitos humanos infantis. “Quando vamos à missa, não ficamos lá só para assistir, mas para participar. Se você prestar atenção nas mensagens [faladas pelo padre], você assimila e pratica o que Jesus ensinou”.

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Para exemplificar isso, ele recorda da leitura bíblica sobre o ‘bom samaritano’, que conta a história de um homem que ajudou uma pessoa caída na rua, enquanto as outras mudavam de calçada quando a via. O samaritano (grupo étnico-religioso da Samaria, região montanhosa do Oriente Médio) não era bem visto na época, mas foi ele quem tratou as feridas e cuidou da pessoa necessitada. “Nós [minha família e eu] assimilamos essas parábolas. Pegamos uma coisa ali, outra aqui, e formamos uma consciência social”, explica.

Sem vandalismo e com apoio popular, as doações continuam

A casinha segue melhorando a vida das pessoas todos os dias. Nesta segunda-feira, 19, e ao longo de toda a semana passada, o E+ observou a quantidade de roupas, sapatos e cobertores pela manhã e à noite no local e percebeu que, mesmo depois de um mês e meio de sua construção, ela continua intacta e com muitos necessitados sendo beneficiados, incluindo aqueles em situação de rua e os das comunidades pobres ao redor.

Sérgio Oliveira, Valdelice e o síndico Paulo Garcia permanecem cuidando do local, e já mobilizaram outros moradores do bairro, que também deixam doações por lá. Questionados sobre o sentimento ao ver a ideia repercutindo, eles são categóricos: “O lado bom da vida tem que ser acordado dentro de nós: temos que ajudar”.

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais