Em 'Oleg', quadrinista conta o ego de pecinha em pecinha, como Lego

ÉRICO ASSIS
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FOLHAPRESS - No ano em que muitos tiveram de aprender a trabalhar em casa, os quadrinistas saíram com vantagem. Seus ateliês geralmente são um quarto, um porão ou um sótão onde eles brigam com a prancheta, os prazos, a criação e a solidão. Mesmo que pudessem nos dar aulas sobre o home office, foi por acaso que três quadrinhos de destaque sobre a vida de um quadrinista saíram no último ano. "A Solidão de um Quadrinho Sem Fim", de Adrian Tomine, o Nemo, e "Paul à la Maison", de Michel Rabagliati, inédito no Brasil e recém-premiado na França, estavam em produção anos antes da pandemia. Aos dois, se junta agora "Oleg", do suíço Frederik Peeters. Tal como os outros, ele também cai na coincidência de falar da própria vida, da casa, da criação e do íntimo. Mas, também como os outros, não é uma sequência de cenas do autor debruçado sobre uma prancheta. Oleg é o pseudônimo que Peeters se atribui no álbum. Também é um jogo de palavras, como se explica na HQ. Mexa as letras e você tem "Lego", como as pecinhas de montar; ou "l'ego", o ego. O leitor tem de montar o Lego do ego de Oleg em capítulos um tanto quanto desconexos. São vinhetas. Há uma sobre seu cotidiano, de acordar a dormir. Outra sobre ir a um festival de quadrinhos. Outra ainda sobre visitar uma escola para falar do seu trabalho (os alunos só perguntam "você é rico?"). Há inclusive uma sobre ficar na prancheta. Outros capítulos versam sobre sua relação com a filha adolescente. Sobre ficar velho e intolerante com as pessoas vidradas nos smartphones e no Instagram. Duas páginas sobre correr no parque, parar, se alongar, sentir o sol "e a alegria dos fótons". O que amarra essas vinhetas é uma história de bloqueio criativo. Oleg estava "sempre com três projetos na manga", como fala sua mulher, e passa pelo seu primeiro momento de seca. "Supernormal", diz a cônjuge. Mas Oleg está inquieto. Procrastina. Tenta começar várias ideias, que podem ou não render um quadrinho. Acompanhamos a inquietação, a procrastinação e as ideias soltas, que ganham representação gráfica -todo mundo na rua vira gorila, por exemplo. Lembra o "Oito e Meio" de Fellini (e Oleg gosta de filmes antigos). No meio dessas pecinhas de Lego ou ego, de tensão quanto ao trabalho e à criatividade, há um momento marcante, para lembrar a Oleg que ele não pode viver só do ego e que a vida dos outros segue. Ou não segue. Peeters já havia produzido uma obra autobiográfica. "Pílulas Azuis" trata de quando ele se apaixonou por uma mulher com HIV e de como era o convívio com a Aids há 20 anos. Foi "Pílulas" que lançou sua carreira, a partir daí voltada para a ficção científica com um pé na psicologia e outro no terror, como na quadrilogia "Aâma", da editora Nemo. Seu "Castelo de Areia", em coautoria com Pierre-Oscar Lévy, lançado pela Tordesilhas, vai virar filme de M. Night Shyamalan. Peeters e sua companheira de "Pílulas Azuis" estão juntos, tiveram uma filha e o HIV deixou de preocupar. A mulher é sua interlocutora durante o bloqueio. Oleg diz que vai escrever sobre "o que significa ser um autor de HQ envelhecendo no século 21". Ela põe o dedo na ferida. "Claro, é a sua maneira de ter um Instagram." Mas as melhores pílulas de Oleg são as da relação com a filha adolescente. Quando ela chega em casa com um novo corte de cabelo, o pai diz que lembra a Hopey de "Love & Rockets". A filha quer saber o que é. Com um sorrisinho de canto, ele explica e provoca "mas você não leria". É claro que ela acaba a cena lendo. É só um momento para dizer que, no meio de bloqueios, das tensões criativas e dos passeios pelo próprio ego, novas e importantes pecinhas da vida não param de se encaixar. OLEG Avaliação Ótimo Preço R$ 54,90 (184 págs.); (ebook) Autor Frederik Peeters Editora Nemo Tradução Fernando Scheibe Ebook R$ 38,90