Em 'O Cavaleiro da Rosa', Richard Strauss excita e faz público quase gozar no final

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Esqueça Richard Wagner", ordenou o diretor argentino Pablo Maritano, no foyer do Theatro Municipal de São Paulo. Pelos corredores, era possível ouvir o coral paulistano aquecer a voz, gemendo de prazer antes do ensaio de "O Cavaleiro da Rosa", de Richard Strauss, que estreia nesta sexta-feira. Mas não lembrar Wagner seria tão improvável quanto esquecer a primeira vez que se teve um orgasmo.

O espectro de Wagner assombra a história da ópera germânica, de modo que Strauss, seu maior entusiasta, lutou para não soar mudo, depois que o autor de "Tristão e Isolda" morreu, em 1883.

A personagem Marechala, de 'O Cavaleiro da Rosa', vivida pela soprano argentina Carla Filipcic Holms Adriano Vizoni/Folhapress **** "Essa ópera é muito mais complexa do que a discussão metafísica de Wagner", defende Maritano. "Ele era mais tradicional do que seu ídolo, porque soube ser dirigido por um libretista, e era moderno, já que suas primeiras obras tinham a ideia do dodecafonismo."

"O Cavaleiro da Rosa" estreou em Dresden, na Alemanha, no ano de 1911 e logo causou furor em toda a Europa. Tamanho sucesso fez as pessoas se amontoarem em estações de trem, buscando um lugar para assistir à comédia em três atos, em parceria com o libretista Hugo von Hofmannsthal. Ao século 21, o humor ali presente se mostra diluído em passagens sombrias, tornando a obra uma estranha criatura.

O libreto se passa no século 18, em Viena, onde Maria Teresa von Werdenberg, a Marechala, vivida pela soprano argentina Carla Filipcic Holm, tem um caso com um homem muito mais jovem, Octavian, também interpretado por uma mulher, a mezzo-soprano Luisa Francesconi.

O Barão Ochs, papel do baixo Hernán Iturralde, se apaixona por Sophie, a soprano Lina Mendes, e pede a Octavian, travestido de faxineira para não ter seu caso descoberto, levar à jovem uma rosa com uma proposta de casamento.

Só que, no encontro, Octavian se apaixona por Sophie, configurando assim um arrevesado triângulo amoroso. Ao término da ópera, a Marechala, percebendo que o tempo havia passado para ela, cede o seu amor, deixando Octavian e Sophie viverem juntos.

No palco, um palácio vienense está suspenso. A cenógrafa Desirée Bastos oferece uma proposta pertinente à obra. Seu trabalho é a um só tempo minimalista e rococó. Com iluminação de Aline Santini, a montagem cria um ambiente sóbrio, moldado pelo contraste entre luz branca e escuridão. Evitando a obviedade figurativa, a nudez da cena sugere modernidade, enquanto lamparinas, mesas de chá, portões e até uma cama em estilo da época sobem e descem, pendurados em cabos de aço.

Desse modo, embarcamos num universo onírico, embalado pela valsa, forma musical vienense por excelência. "O Cavaleiro da Rosa" é, afinal, uma ópera sobre o tempo, uma reverência em ritmo três por quatro a um mundo que já não existia. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a Europa se acelerava. Os burgueses tomavam o lugar da aristocracia, a psicanálise era inventada, e o gênero se afirmava como identidade.

Sob acusações de passadismo, Strauss preferiu, no entanto, retornar ao estilo neoclássico. Não por acaso, dialogou, em sua quinta ópera, com a obra de seus mestres. Se Marechala sabia que seu tempo havia passado, Strauss tinha consciência de que chegara demasiado tarde à história da música ocidental.

Nascido em Munique, em 1864, Strauss já era respeitado quando "O Cavaleiro da Rosa" estreou. Ele havia alcançado notoriedade sobretudo com os poemas sinfônicos "Morte e Transfiguração", de 1889, e "Assim Falou Zaratustra", de 1896, cujo tema entraria para a cultura popular no filme "2001: Uma Odisseia no Espaço", lançado em 1968 pelo diretor Stanley Kubrick.

Ele também causara estardalhaço nas estreias de outras duas óperas, ambas em ato único. "Salomé", de 1905, chegou a ser censurada em Viena, Londres e Nova York pelo conteúdo erótico.

A apresentação em Graz, na Áustria, reuniu na plateia Gustav Mahler, Arnold Schoenberg, Giacomo Puccini --para quem a obra era uma "cacofonia terrível"- e o jovem Adolf Hitler. Assim como "Elektra", de 1909, Strauss desafiava, no alto romantismo, as convenções harmônicas, empurrando a ópera para o novo mundo.

É difícil apontar a obra-prima de Strauss. Mas "O Cavaleiro da Rosa" é, sem dúvidas, a mais popular, dada a inundação de valsas na partitura, o que nos lembra outro Strauss, o Johann. Já Wolfgang Amadeus Mozart, ganha uma citação direta às suas "Bodas de Fígaro", de 1786. Octavian equivale ao personagem Cherubino, também interpretado por uma mulher.

"É paradoxal que um homem tão conservador quanto Strauss tenha discutido gênero e o papel da mulher na sociedade", diz Maritano. "O mundo, para ele, era das mulheres. Por isso, a ópera é esse monstro maravilhoso."

Strauss era um homem vaidoso, invejoso -e nazista. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele aceitou o banimento da música judaica na Alemanha, além de ter sido presidente da Câmara de Música do Reich. Indagado por que não saiu da Europa após a ascensão do nazismo, ele respondeu -"a Alemanha tem 56 casas de ópera, os Estados Unidos têm duas; isso teria reduzido o meu salário".

Ocupada a Alemanha, o governo dos Estados Unidos iniciou um processo de desnazificação na música. Mas seria difícil um povo esquecer Strauss. Em 30 de abril de 1945, o tenente americano Milton Weiss entrou na mansão de Garmisch, onde o compositor pediu clemência. "Eu sou Richard Strauss", afirmou o compositor de "O Cavaleiro da Rosa". Weiss aquiesceu.

Se bem executados, a ópera tem dois momentos sublimes. O primeiro é a apresentação da rosa prateada, tema dissonante que, em quatros horas de música, só aparece duas vezes. Flautas, glockenspiel e harpa constroem um tema modular, apoiado numa ideia de fanfarra.

Já o trio final, em que as protagonistas dividem o palco, traz cenas explícitas de prazer. Em "Wagnerism: Art and Politics in The Shadow of Music", Alex Ross, um dos maiores críticos musicais vivos, mostrou, entre razão e emoção, o modo pelo qual a música pode causar efeitos em nossos corpos. "Tristão e Isolda", por exemplo, é capaz de fazer um melômano se contorcer de dor e prazer numa cadeira.

Strauss, portanto, se apropria da metafísica wagneriana, porque Marechala, Octavian e Sophie não falam de um amor, mas do amor. No palco, as cantoras não interagem, ficam imóveis, cantando três árias em uma só. Em "O Cavaleiro da Rosa", porém, o amor não morre -se transfigura em notas que só se resolvem diante da coda.

Se Strauss não tem um "Liebestod" para alcançar o orgasmo, ele chega quase lá.

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