Em 'Mundo Manicongo', Rincon Sapiência combate o drama com dança

LULIE MACEDO
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 12.11.2019 - O cantor Rincon Sapiência em sua residencia que também é um estúdio em SP. (Foto: Zé Carlos Barretta/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A dança já foi um elemento bMichael Kiwanuka é provavelmente o melhor cantor do mundo hojeastante importante no hip-hop. Nos Estados Unidos, foi a partir das block parties --com suas batalhas de break, grafite, rimas e batidas-- que a cultura brotou e evoluiu. Eram os anos 1970. Tudo acontecia na rua.

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Rincon Sapiência, que ainda não tinha nascido (ele é de 1985), sabe que a cultura de rua se desenvolve hoje em outro território. Não que, no caso dele, a habilidade também como criador digital signifique inovação ou qualquer outra bobagem do tipo.

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O que ele faz é puxar o cordão umbilical do hip-hop --e aí entra o tratamento que dá para um tema tão presente quanto necessário, como a ancestralidade-- e costurar isso com os desejos e carências de agora. "A quebrada é tão ancestral/ Nos comunicamos em roda", ele diz em uma das músicas.

A dança é o fio condutor de "Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps". Título rebuscado para algo bastante simples: o contrapeso para a vida real. Ou seja, a música e a dança. A fértil e pulsante cena de dança se expande há alguns anos no país, em movimentos e grupos como Batekoo, Amem, Jamaicaxias, além de todos os coletivos e houses de vogue, afrohouse ou passinho, é apenas a ponta do iceberg.

O caráter político da dança e a discussão sobre corpo e identidade são alguns dos caminhos que percorrem o rapper e poeta de Itaquera, região leste de São Paulo, no seu terceiro álbum de estúdio. "A dança é como ginástica/ Ela tem a cintura elástica/ Ancestralidade em prática/ Eu confesso que é nossa tática/ Afinal de contas, multiplica essa multidão matemática". É pela dança que o autoconhecimento, muitas vezes, acontece.

Voltando à ancestralidade. Rincon foi buscar em Famoudou Konatè, um dos principais bateristas do mundo de djembe --tipo de tambor originário de Guiné-Bissau--, muitos dos elementos sonoros para construir sua coleção de "afroreps". Ele sampleia o guineense em "Meu Ritmo" e dá o crédito: "Pegada funk tipo Guimé/ Mas o meu tambor vem da Guiné."

Experimentar nunca foi tabu para o Manicongo. Para quem já foi de Kamau a NX Zero, de Alice Caymmi a IZA, é natural ter agora Mano Brown de um lado e Gaab do outro. Só consegue arriscar assim quem revisitou feridas e se conhece bem.

Talvez por isso, no "Mundo Manicongo", dança e "afroreps" se sobreponham ao drama. Não deve ser fácil fazer a maioria dançar com linhas como "Quanto vale uma vida? Pensa no seu pivete/ Na bolsa tem a Bíblia/ Mas também tem canivete", ou então "Trabalhadora voltando pra casa/ Perguntando pra Deus: 'Por que não tenho asas?'" --trechos de "A Volta para Casa", do disco "Galanga Livre", de 2017.

Mas, exatamente por reafirmar a importância da cultura do MC, Rincon deve ter a dimensão do compromisso que mantém com quem o acompanha desde as batalhas de freestyle, há quase 20 anos --sim, esse é o tempo da persistência em sua arte.

Quando o chamado é para geral dançar, as dificuldades ligadas à construção da lírica (ou "verso livre", como diz Rincon) se refletem na redução do storytelling como recurso narrativo --habilidade que Rincon sempre ostentou. Essa contação de histórias --escola importante no leque de subgêneros do rap-- pode não ser a prioridade em "Mundo Manicongo", mas a variação vocal e do esquema de rimas de Rincon são trabalhados no detalhe. Em vez das "punchlines" fáceis, Rincon trafega pelas sutilezas.

Conversar racionalmente com as pessoas --por meio de crítica política e social-- e, ao mesmo tempo, conversar "fisicamente" com quem consome seu som é um diálogo que, quando potente, se dá em um plano totalmente ritualístico --e aqui voltamos, por fim, à ancestralidade.

"Não tem problema nenhum se seu corpo balançar", lembra Rincon. Ele sabe que a dança sempre foi uma das maneiras de combater o drama --seja o individual ou o coletivo.


Música

Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps

Onde: Nas plataformas digitais

Autor: Rincon Sapiência

Gravadora: MGoma

Avaliação: Bom