Em ‘Meus 15 Anos’, Larissa Manoela brinca de forma inteligente com estereótipos das festas de debutante

Caroline Fioratti, à esquerda, dirige Larissa Manoela. (Imagem: Stella Carvalho)

Considerando a média dos filmes para adolescentes que se faz no Brasil, ‘Meus 15 Anos’, em cartaz nos cinemas, chega a ser um oásis de qualidade, partindo de boas intenções e uma proposta de diálogo com seu público-alvo, sem abrir mão de cuidados artísticos, como fotografia bem cuidada e um roteiro sólido.

Deixando de lado qualquer sinal de histeria ou apelação, e com uma performance surpreendentemente madura de sua protagonista, o filme estrelado por Larissa Manoela como Bia, uma garota introvertida que vira popular no colégio ao ganhar uma festa de debutante numa promoção, abraça alguns clichês do gênero (como a típica montagem no provador de uma loja de vestidos), mas escapa da maioria deles. Com delicadeza, se dá até ao luxo de incluir uma válida lição de empoderamento feminino, na personagem que dispensa príncipes em nome do respeito ao próprio jeito de enxergar o mundo.

“Nós, mulheres, desde pequenas somos bombardeadas com obras audiovisuais que batem na tecla de que você precisa de um homem para ser feliz. Tentamos mostrar um outro caminho, uma nova escolha”, explica a diretora Caroline Fioratti, em entrevista exclusiva ao Yahoo! – Leia a íntegra abaixo.

Já com experiência em curtas-metragens premiados que também trazem crianças e adolescentes como protagonistas, além da série ‘A Grande Viagem’, exibida no começo do ano na TV Brasil, ela agora estreia em longas. Sua sensibilidade ao tratar deste universo é um dos trunfos do filme, que tem elementos para agradar até mesmo quem não acompanha o trabalho de Larissa Manoela, atriz revelada nas novelas ‘Carrossel’ e ‘Cúmplices de um Resgate’, do SBT.

Caroline Fioratti e Larissa Manoela posam com a cantora Anitta, que faz participação especial no filme. (Imagem: Stella Carvalho)

Leia a entrevista completa:

Você tem uma pegada autoral em seus trabalhos em curtas, na TV, internet e na maioria das vezes é quem escreve o roteiro. Como foi estrear em longas em um projeto mais comercial, como ‘Meus 15 Anos’, e quais elementos dos trabalhos anteriores você levou ao set?

Foi um desafio muito grande. Eu entrei no projeto sabendo da intenção de comunicação com um público amplo. Isso determina certas escolhas e diretrizes. Porém, foi um prazer e privilégio poder pensar e construir um filme sabendo que seria uma obra que tocaria muita gente. Por isso mesmo, eu e a equipe de criação, estivemos muito atentos à mensagem que queríamos passar para a garotada, que era o nosso público alvo. O filme dito “comercial” vem com um estigma de ser menos elaborado em sua estética e escolhas. Tentei quebrar esse pré-conceito com “Meus 15 Anos”. Fizemos um filme com planos elaborados, uma iluminação cuidadosa que passasse o tom da cena, interpretações honestas, um roteiro bem amarrado, uma montagem que percorresse emoções com naturalidade. Tudo isso foi pensado e realizado por uma equipe talentosíssima. Foi isso que trouxe dos meus trabalhos anteriores, esse cuidado com todo o processo.

Como foi trabalhar com a Larissa Manoela?

A Larissa é uma atriz muito profissional e talentosa. Ela tem uma maturidade que impressiona. Ela abraçou a Bia e toda a fragilidade da personagem. É bonito de ver a Larissa se divertindo e se arriscando em cenas cômicas e dramáticas. A preparação de elenco teve uma importância grande nesse processo com ela e com todos os jovens. O Michel Dubret e a Alethea Ruas Miranda criaram uma dinâmica de preparação para que cada ator se aproximasse do seu personagem com muita honestidade.

Nos últimos anos, o cinema brasileiro mais comercial tem apostado em nomes da internet para atrair o público jovem. Como você vê essa “invasão” dos youtubers?

Quando criamos uma obra que é destinada ao público jovem, precisamos estar conectados com o universo deles. A escolha de trazer youtubers não é apenas uma escolha comercial, é também uma forma de mostrar que esse filme é feito para eles, sobre o universo deles. Os youtubers em “Meus 15 Anos” estão interpretando personagens que não são eles próprios. Por isso, era essencial que, além do carisma, fossem bons atores.

Apesar deste ser seu primeiro longa, você está acostumada a fazer trabalhos com e para crianças/jovens. O que te interessa na comunicação com essa faixa etária?

Essa fase da passagem da infância para a adolescência e da adolescência para a vida adulta é permeada por muitas descobertas e conflitos. Tudo é intenso e novo. Dessa forma, a matéria prima humana para a criação artística é muito rica. Por outro lado, é um público que quer se ver retratado, quer se identificar com personagens, quer se sentir compreendido e o audiovisual permite isso. É muito gratificante saber que você tocou de alguma forma uma criança ou um jovem. Por isso é necessário a consciência e preocupação sobre o tipo de mensagem estamos passando.

Você é uma realizadora mulher, tem a equipe predominantemente feminina no set e sei está atenta a estas questões. Essa mensagem de empoderamento também acaba passando para o que se vê na tela, de alguma maneira?

Sem dúvida. Esse é um filme com muitas mulheres na equipe e na criação. E passar uma mensagem atual para o nosso público feminino era um desejo de todas nós. Desde o início era um desafio fazer um filme sobre uma linda festa de 15 anos que também trouxesse uma mensagem de empoderamento. Nós, mulheres, desde pequenas, somos bombardeadas com obras audiovisuais que batem na tecla de que você precisa de um homem para ser feliz. Tentamos mostrar um outro caminho, uma nova escolha. Ao brincar na dramaturgia do filme com a figura do príncipe – ainda forte como elemento de uma festa de 15 anos – nós aproveitamos para questioná-la. Há várias tentativas de subverter padrões nas pequenas escolhas também. Espero que o público identifique e acolha essa mensagem.

Para finalizar: ‘Meus 15 Anos’ foi feito só para os fãs da Larissa Manoela? Por que mesmo quem não segue a atriz pode se interessar pelo filme?

O filme foi realizado com o cuidado de agradar diferentes gerações e um público que vai além dos fãs da Larissa. Existem várias camadas de compreensão e entretenimento no filme. É um filme que crianças vão gostar, mas que os adolescentes vão se identificar muito. Os pais também vão se ver retratados através da trajetória do Edu (Rafael Infante), um jovem pai tentando compreender a filha. Garotos vão curtir o filme que tem muitos elementos de humor para eles também. As meninas vão se emocionar com a Bia – uma face da Larissa que ainda ninguém viu – e podem se identificar também com as outras meninas da turma. É um filme que percorre o humor e a emoção com naturalidade. Tivemos o cuidado de criar uma história envolvente, com boas músicas, que ganha vida através de atores muito talentosos e carismáticos.