Em 'A Crônica Francesa', Wes Anderson reúne seus atores-fetiche e celebra jornalismo

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·5 min de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - "A Crônica Francesa" é a reunião de dois sonhos antigos, segundo seu diretor, o americano Wes Anderson: "Sempre quis fazer uma coleção de histórias curtas. E a segunda coisa que sempre quis fazer foi um filme sobre a [revista americana] The New Yorker".

Ele encontrou um exemplar da publicação pela primeira vez no ensino médio e logo se apaixonou por seus contos, disse em apresentação de seu novo longa, que estreou neste ano no Festival de Cannes.

A fictícia Crônica Francesa, suplemento de um também imaginário jornal de Kansas, procura homenagear não só a revista nova-iorquina mas também homenagear "a honrada tradição de jornalismo internacional americano", segundo a atriz escocesa Tilda Swinton, uma das estrelas do filme.

Em entrevista em Cannes durante o festival, ela disse considerar o momento mais emocionante do longa o epílogo, em que sobem na tela nomes de 11 jornalistas e textos que inspiraram Anderson.

Alguns foram publicados na própria New Yorker, como o perfil escrito em 1977 por Calvin Tomkins de Rosamond Bernier, que inspirou a personagem J.K.L. Berensen, vivida por Tilda Swinton.

"Era extraordinária. Uma americana apaixonada por arte europeia que viveu na França, na Espanha, foi amiga íntima de tantos, de Picasso a Man Ray, fundou a revista de arte L'oeil, muito influente nos anos 1950", descreve a atriz.

No filme de Wes, Tilda representa a segunda etapa da vida de Bernier, em que, vestida de alta costura, ela fazia palestras sobre arte em várias cidades dos Estados Unidos.

"Essas exibições 'ridículas' --e digo isso com todo amor-- eram muito teatrais, misteriosas. Você tem a nítida impressão de que ela praticava em frente ao espelho", diz a atriz.

Também saiu na New Yorker o texto que inspirou o personagem do ator americano Adrien Brody, o galerista Julien Cardazio, que descobre um talento de arte abstrata num psicopata encarcerado e o transforma em pintor aclamado.

Cardazio é baseado no negociante de arte Joseph Duveen, retratado por S. N. Behrman em 1951.

Anderson inclui outras publicações na compilação de 14 textos que virou o livro "An Editor Burial" (o enterro de um editor), a ser lançado em outubro pela Penguin.

"Wes é muito específico sobre o que ele quer, em nível até de cada movimento do personagem", relatou Benício del Toro, que interpreta Moses Rosentholer, o presidiário artista.

Um dos "calouros" na equipe de estrelas que o diretor americano costuma escalar, ele diz ter ficado desconcertado ao ingressar na "experiência Wes".

"Não sabia o que esperar de ficar no mesmo hotel com todos, sem serviço de quarto, com regras do tipo 'o café da manhã tem que ser no horário x'. Todos jantam juntos na mesma mesa. Acabava meu prato e não tinha coragem de levantar", diz ele.

Para Adrien Brody, essa "coreografia" criada pelo cineasta é uma das chaves do sucesso de seus filmes: "Todos temos que dançar juntos e há uma responsabilidade de todos por todos".

Para Tilda, essa estrutura é o sonho de todo diretor, tornada possível em grande parte pelo "estimado e adorado" produtor Steve Rales, que, segundo ela, dá carta branca a Anderson.

"O que ele quiser, Rales diz 'vá em frente'. 'Você quer desenhar um ônibus e levar todo mundo junto para a subida do tapete vermelho de Cannes? Vamos nessa'."

Foi de fato de um ônibus especial que o diretor desembarcou ao lado de parte de sua constelação para subir o tapete vermelho do Palácio dos Festivais de Cannes. A seu lado estavam Tilda, Brody, Del Toro, Bill Murray (que interpreta o diretor da revista), Owen Wilson (que faz um repórter ciclista) e Thimothée Chalamet (um líder estudantil de Paris-68).

Nascido no Texas, Anderson viveu boa parte da juventude em Nova York, mora hoje em Paris e é citado como um diretor que não se prende a oposições do tipo cinema americano X cinema europeu.

Seu 11º longa homenageia mais de 30 filmes, de diretores como o italiano Vittorio de Sica, o americano Billy Wilder, o brasileiro Alberto Cavalcanti e o britânico Alfred Hitchcock. Mas, principalmente, franceses: estão na lista Julien Duvivier, Jean-Luc Godard, Henri-Georges Clouzot, Jacques Tati, Louis Malle, François Truffaut.

E Jean Renoir --foi "Boudou Querido", de 1932, que ele recomendou a Del Toro na composição de seu personagem, e "A Regra do Jogo", de 1939, estava na prateleira em que Anderson deixava "dicas de inspiração", segundo seus atores.

Tilda, que já atuou em quatro filmes do americano e está no próximo --sendo rodado atualmente na Espanha--, o descreve como "cine-literal": "Há um certo léxico de imagens, retratos nos quais se inspirar. Você está lidando não só com fantasia, mas com uma 'cinefantasia'. Há uma atmosfera de semelhança cultural que você reconhece, de estar naquele espaço fantástico".

Veja os filmes homenageados em 'A Crônica Francesa', em ordem cronológica

"David Golder - Tragédia de Um Homem Rico" (1930)

Julien Duvivier

"City Streets" (1931)

Rouben Mamoulian

"Boudou Querido" (1932)

Jean Renoir

"Love me Tonight" (1932)

Rouben Mamoulian

"O Homem que Sabia Demais" (1934)

Alfred Hitchcock

"Les Bas-Fonds" (1936)

Jean Renoir

"Um Carnet de Baile" (1937)

Julien Duvivier

"A Regra do Jogo" (1939)

Jean Renoir

"Jejum de Amor" (1940)

Howard Hawks

"L'Assassin Habite Au 21" (1942)

Henri-Georges Clouzot

"They Made me a Fugitive" (1947)

Alberto Cavalcanti

"Quai des Orfèvres" (1947)

Henri-Georges Clouzot

"Aquela Loira" (1952)

Jacques Becker

"O Ouro de Nápoles" (1954)

Vittorio De Sica

"Grisbi, Ouro Maldito" (1954)

Jacques Becker

"Le Ballon Rouge" (1956)

Albert Lamorisse

"Noites Brancas" (1957)

Luchino Visconti

"A Embriaguez do Sucesso" (1957)

Alexander Mackendrick

"Meu Tio" (1958)

Jacques Tati

"Os Incompreendidos" (1959)

François Truffaut

"Atirem no Pianista" (1960)

François Truffaut

"A Um Passo da Liberdade" (1960)

Jacques Becker

"A Verdade" (1960)

Henri-Georges Clouzot

"Vivre Sa Vie" (1962)

Jean-Luc Godard

"Irma La Douce" (1963)

Billy Wilder

"Trinta Anos Esta Noite" (1963)

Louis Malle

"Masculine-Feminine" (1966)

Jean-Luc Godard

"La Chinoise" (1967)

Jean-Luc Godard

"Tempo de Diversão" (1967)

Jacques Tati

"Painters Paining" (1972)

Emile de Antonio

"O Inquilino" (1976)

Roman Polanski

"O Fundo do Coração" (1982)

Francis Ford Coppola

Rating ****

*

A CRÔNICA FRANCESA

Quando Estreia nesta quinta (18)

Onde Nos cinemas

Elenco Tilda Swinton, Timothée Chalamet, Bill Murray

Produção EUA, 2021

Direção Wes Anderson

Duração 108 min.

Lin para tralier no YouTube - A Crônica Francesa: https://www.youtube.com/watch?v=ZMgvkuhVWfc *** Podcast https://omny.fm/shows/expresso-ilustrada/o-adeus-mar-lia-mendon-a/embed ***

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos