Em Cannes, terror do futuro é o Novo Terror: David Cronenberg e Crimes of the Future

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David Cronenberg no 75° Festival de Cinema de Cannes, na França (Foto: REUTERS/Piroschka Van De Wouw)
David Cronenberg posa para foto no 75° Festival de Cinema de Cannes, na França (Foto: REUTERS/Piroschka Van De Wouw)

Por Guilherme Jacobs

Que tipo de coisa nos dará pesadelos no futuro? Não faltam filmes examinando como nossas próprias criações - sejam elas inteligências ou bombas nucleares - podem trazer tragédias para a humanidade, mas "Crimes of the Future", o novo sci-fi assustador de David Cronenberg (A Mosca) lançado no Festival de Cannes, não tem interesse em forças externas. Aqui, o medo vem de dentro.

Nesta distopia marcada por mudanças climáticas e população decadente, a raça humana passou por uma evolução biológica que lhe dá a habilidade de gerar novos órgãos e eliminou quase por inteiro a dor física, dando a liberdade de modificar o corpo com cirurgias plásticas ou incisivas, e transformando tais cortes em experiências eróticas.

A referência nos chamados “neo-órgãos” é o artista expressionista Saul Tenser, interpretado com Viggo Mortensen de maneira visceral, quase como se pudéssemos ouvir seus ossos rangendo e entranhas em agonia. Junto com sua parceira, a ex-cirurgiã hospitalar Caprice (Léa Seydoux, talvez a maior musa francesa do momento, com toda sua sensualidade desequilibrante), ele consegue, quase por vontade própria, criar esses novos órgãos. Eles, porém, se transformarão numa espécie de câncer se não forem rapidamente retirados.

Kristen Stewart, David Cronenberg, Lea Seydoux e Vigoo Mortensen na 75ª edição do Festival de Cinema de Cannes, na França (Foto: Reuters)
Kristen Stewart, David Cronenberg, Lea Seydoux e Vigoo Mortensen na 75ª edição do Festival de Cinema de Cannes, na França (Foto: Reuters)

Saul e Caprice aproveitam a remoção para criar apresentações para um público incessantemente curioso, intervenções cirúrgicas para contar a história de um homem se rebelando contra a própria biologia, se recusando a morrer ou aceitar um corpo que não lhe quer. Durante o processo, os dois exibem prazer e atração sexual. Entre seus fãs está Timlin (uma subutilizada Kristen Stewart), autora da frase mais marcante da obra: “Cirurgia é o novo sexo.”

Cheio de body horror e ideias - a maior parte delas não muito desenvolvida pelo roteiro, é preciso dizer - Crimes of the Future é inconfundivelmente uma obra de Cronenberg. Aqui, o cineasta retorna às suas raízes de desconforto e ousadia. “É tudo acidental,” o diretor disse rindo em conferência de imprensa em Cannes. “Não é como se eu tivesse um plano do que discutir. Cada caso, cada filme, é uma entidade separada. Eu sei que os filmes vão se conectar e muitas pessoas verão em Crimes of the Future o que veem em 'Videodrome' ou 'eXistenZ', mas quando eu estava escrevendo esse roteiro, não pensava nos outros filmes de forma alguma”, declarou. Intencionais ou não, as conexões e referências estão ali, a começar pela presença de Viggo Mortensen.

"No começo eu não tinha certeza [se queria trabalhar com ele]", Mortensen afirmou. Agora trabalhando com Cronenberg pela quarta vez, o ator se diz amigo do diretor. "Nós não precisamos gastar muito tempo conversando. Tudo vai rápido”, adicionou. “Ele é aberto para sugestões, mas ele vai rejeitá-las - às vezes brutalmente”, brincou o ator de Marcas da Violência.

Lea Seydoux, David Cronenberg e Vigoo Mortensen na 75ª edição do Festival de Cinema de Cannes, na França (Foto: REUTERS/Stephane Mahe)
Lea Seydoux, David Cronenberg e Vigoo Mortensen na 75ª edição do Festival de Cinema de Cannes, na França (Foto: REUTERS/Stephane Mahe)

Olhar para o futuro, para Cronenberg, é olhar para morte e envelhecimento, algo que ele diz colocar em “todos os filmes”. Em Crimes of the Future, humanos morrem pelo que vem de dentro - não a dor ou doenças, coisas do passado neste mundo, mas pelo abandono, pela forma como a própria biologia os torna obsoletos, ideia reforçada pela falta de tecnologia de ponta. Com exceção das máquinas para facilitar o cotidiano destes corpos deformados, auxiliando na hora de comer ou dormir, não há nada muito avançado. Arquivos são guardados em pastas, telefones são tijolos e câmeras parecem ter saído direto dos anos 60.

"Assim que você tira uma foto, a foto é sobre envelhecimento. Imediatamente. Depois disso, é morte. Em todo lugar”, explica Cronenberg. “Quando você vê a frase ‘Corpo é Realidade’ no filme, eu falo sério sobre isso. É uma verdade literal. É física. Aquilo que entendemos como realidade é por causa da nossa fisicalidade. A forma como nossos olhos, nariz e boca funcionam. Isso significa que, se somos o corpo, e estamos envelhecendo e morrendo, assim que você tira uma foto, a foto é sobre isso."

Crimes of the Future pondera, com resultados inconsistentes, essas ideias. O roteiro e os visuais (chocantes, mas nada revolucionários para o mestre do horror corporal) não acompanham os conceitos fascinantes de sua premissa, a maioria abandonados antes de darem fruto. A provocação, porém, está lá. Quando Cronenberg imagina um futuro onde podemos comer plástico, onde sexo é transformado e crimes não são causados por dinheiro ou ganância, mas por medo de ficarmos para trás, sermos deixados de lado não só por outras pessoas ou nações, mas pelo próprio corpo.

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