Em Cannes, israelense retrata um Ministério da Cultura que odeia a cultura

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CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) - O quarto longa do israelense Nadav Lapid forçou o diretor a fazer uma escolha entre seu amor e suas ressalvas ao país natal.

“Disse a mim mesmo que essa ambivalência tinha que acabar. E, de certa forma, escolhi o ódio", afirmou ele em uma entrevista à organização do 74º Festival de Cannes, onde “Ha’Bereche” —“Ahed's Knee” no título em inglês, ou o joelho de Ahed, em português— estreou nesta quarta (7).

"A história é muito brutal. Esse estado de espírito penetrou no filme, no cenário, nas imagens e na direção dos atores”, descreve o diretor. A primeira cena já começa rugindo, com o céu em trovoada, uma moto voando por uma estrada e uma moça de ar selvagem que canta “welcome to the jungle”, ou bem-vindo à selva. Entra em cena a personagem-título, Ahed Tamimi, uma adolescente que virou símbolo palestino da luta contra soldados de Israel.

Presente em enfrentamentos desde os 11 anos de idade, Ahed foi filmada em 2017 gritando com militares e estapeando um deles. Condenada, ficou presa oito meses e saiu da cadeia em 2018. Seu joelho aparece na declaração de um deputado do partido de direita Knesset. “Na minha opinião, ela deveria ter levado um tiro na rótula. Isso a deixaria em prisão domiciliar o resto da vida.”

A história de Ahed é na verdade um pretexto para o que Lapid quer contar em seu filme. Em mais uma obra com tons autobiográficos —como “Synonymes”, pelo qual ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2019—, ele retrata um diretor de cinema que, enquanto se prepara para fazer um filme sobre a adolescente palestina, viaja a uma pequena cidade israelense onde um de seus trabalhos será apresentado e se confronta com “um Ministério da Cultura que odeia a cultura”.

Foi de um episódio semelhante na vida do diretor que surgiu a ideia para esse quarto longa-metragem. Em 2018, ele foi convidado para uma exibição de seu filme “A Professora do Jardim de Infância” numa vila no deserto de Israel.

Lá, foi procurado pelo Ministério da Cultura, que pedia a ele que assinasse um formulário indicando que temas seriam discutidos no evento. “Não precisava ser um gênio para perceber que essa era uma forma de censura”, afirmou Lapid.

Outro gancho autobiográfico desse trabalho recente foi a morte de sua mãe, que também era sua editora, um mês e meio depois desse episódio no deserto. Ele diz que o roteiro foi escrito logo depois, em duas semanas, numa mistura de luto pela mãe e pelo país. “Para mim, sentimentos pessoais estão sempre associados a sentimentos coletivos.”

O diretor que protagoniza “Ha'Bereche” é interpretado pelo coreógrafo de dança contemporânea Avshalom Pollak, e o filme é entremeado de breves esquetes de dança, entre cômicos e nervosos, que elevam a sensação geral de estranhamento, em que tristeza, atração, violência e repulsa parecem estar sempre à espera de um milagre.

No ambíguo papel de representante do governo está Yahalom, interpretada por Nur Fibak, a diretora-adjunta da biblioteca que serve como centro cultural na cidade, que é ao mesmo tempo a porta-voz do intervencionismo estatal e a guia que o leva a locais inesperados no deserto.

Na sessão de gala, o filme começou a ser aplaudido já nos créditos iniciais, quando uma cartela informou que ele era uma produção independente. Com um orçamento modesto, foi filmado em 18 dias, durante o inverno israelense, quando os dias têm no máximo nove horas de luz.

Lapid, elenco e produtores foram aplaudidos de pé ao final da sessão, mas o clima não era mais de reconhecimento que de recepção calorosa, Como os pimentões que ele apresenta como metáfora para Israel durante um dos devaneios do protagonista, “Ha’Bereche” ganha se for bem digerido.

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