Em 'Benedetta', freiras se masturbam com imagem da Virgem em banquete de seios

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No começo de "Benedetta", uma garotinha aspirante a freira é separada de uma imagem de madeira da Virgem Maria, assim que chega ao convento. Alguns minutos depois, a personagem principal já está crescida e, de novo com o objeto em mãos, decide usar a imagem não para orar, mas como um "dildo" --o famoso consolo, um instrumento fálico com propósitos sexuais.

Nós acompanhamos tudo. O público, de olho na relação lésbica que se desenvolve entre Benedetta e a noviça recém-chegada Bartolomea, ocupa um lugar voyeurista --como o da abadessa que, desconfiada, observa o casal por um furo na parede-- e testemunha as personagens levantando seus hábitos e inserindo, lenta e prazerosamente, a santa de madeira entre as pernas.

A cena é só uma das várias sequências tão sensuais quanto polêmicas do novo filme de Paul Verhoeven, cineasta holandês habituado a causar burburinho. "Benedetta" foi um dos destaques do último Festival de Cannes e chega agora ao Brasil como o chamariz do 29º Mix Brasil de Cultura da Diversidade, que reúne atrações gratuitas para debater diversidade sexual e de gênero em São Paulo e online a partir desta quarta-feira.

Verhoeven, no entanto, não queria necessariamente "causar". Em entrevista a este jornal, ele conta que sua preocupação enquanto gravava era ser fiel à realidade e, para isso, estudou cuidadosamente os documentos relacionados ao julgamento de Benedetta Carlini, freira católica condenada por seu lesbianismo na Itália do século 17.

"O que muitos veem como provocação neste filme não é nada além de eu tentando me manter próximo da realidade. E tendo respeito pelo passado --nós não precisamos gostar do que fizemos ao longo da história, mas nós não devemos apagar nada", afirma.

Os desejos sexuais de Benedetta e Bartolomea são suprimidos desde muito antes de se conhecerem. A impossibilidade de viverem sua homossexualidade em tempos de fé cristã exacerbada as leva a uma catarse sexual quando enfim estão reunidas. Ao público, servem um banquete de seios e gemidos que reverberam pelas paredes de pedra do convento.

Mas há uma reviravolta nessa história de condenação do "pecado" --Benedetta alegava ter visões espirituais --e sensuais--, nas quais recebia mensagens do próprio Jesus Cristo, e acaba se tornando uma espécie de messias. Certa noite, sofrendo de dores horríveis, ela é marcada com as chamadas santas chagas --feridas nos pulsos, nos pés e no peito, como as da crucificação.

"Benedetta" transita, portanto, entre a condenação da sexualidade e o debate em torno do sobrenatural, de uma relação verídica ou farsesca existente entre a protagonista e o divino. A freira chega a incorporar o próprio Cristo em várias ocasiões, assumindo uma voz grave e um olhar profundo, até mesmo ameaçador --mas nada como nos filmes de terror, com cabeças girando ou vômito verde.

"Eu tentei me afastar de 'O Exorcista', porque todas as 'outras identidades' de Benedetta são positivas, não demoníacas. E essas possessões também estão documentadas, na vida real teriam ido além, incluindo São Paulo e anjos."

Esse é só mais um fator de provocação num filme que poderia ser escandaloso só pela sinopse, mesmo que adotasse uma abordagem mais contida e menos gráfica. Verhoeven, no entanto, diz que era importante mostrar a sexualidade na trama, já que ela reflete aquilo que leu em "Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy", longa pesquisa sobre Benedetta Carlini feita pela historiadora Judith C. Brown nos anos 1980.

"Os documentos da época mostram que o escrivão realmente escreveu coisas do tipo 'ela beijou minhas genitais mais de 20 vezes' ou 'Benedetta pegou minha mão à força e a pôs sobre ela, se movendo tanto que acabou se corrompendo'", diz o cineasta, sobre os testemunhos de Bartolomea à Igreja Católica.

Apesar das denúncias, é Bartolomea que parece seduzir Benedetta inicialmente. Numa das cenas, ela se enrosca e tropeça --acidentalmente?-- numa cortina branca, quase transparente, durante o banho. Seu corpo delineado pelo tecido molhado, que a faz parecer uma escultura renascentista, cai pesado sobre a freira protagonista, que toca em seios alheios pela primeira vez e é acometida por um misto de incômodo e tesão.

"Nós não deveríamos ter medo de mostrar algo que quase todo mundo e muitas outras espécies fazem de forma regular --sexo", diz Verhoeven. "É muito estranho que nesse período de puritanismo é normal mostrar violência, assassinatos horríveis, explosões e só o sexo ser questionado."

O questionamento poderia ser verdadeiro para outros filmes do currículo de Verhoeven, que se meteu em polêmica em seu último trabalho, "Elle", de 2016, por seu retrato do estupro. Também é uma justificativa válida para o destaque do Mix Brasil do ano passado, que teve como abre-alas outra trama que enrosca religião e sexo --"Saint-Narcisse", de Bruce LaBruce, que flertava com o homoerotismo da figura de são Sebastião.

Aos 83 anos, Verhoeven não pretende deixar os temas espinhosos de lado e, em tempos de mudança na indústria na esteira do Me Too, diz estar fazendo cinema da forma como sempre fez, contemplando temas com frequência negligenciados com naturalidade. Muitos de seus trabalhos, aliás, são centrados em figuras femininas que se empoderam, mesmo que passem por traumas antes.

O cineasta, que diz ter sido "acusado de ser feminista" várias vezes e que "sempre percebeu as mulheres como sendo melhores" do que ele, não precisou de um coordenador de intimidade no set de "Benedetta". Comuns após os escândalos sexuais revelados em Hollywood recentemente, esses profissionais garantem que todos estejam à vontade durante a gravação de cenas de sexo.

No novo filme, no entanto, eles foram dispensados. Verhoeven e sua equipe criavam esboços de como as cenas picantes e de nudez deveriam ser e os discutiam com as atrizes, Virginie Efira e Daphne Patakia. Se elas tinham algum problema, adaptações eram feitas. Elas então coreografavam o enlace e "assumiam a dianteira" na gravação.

Fora isso, o roteiro foi feito a partir do livro de uma mulher, e "Benedetta" teve mulheres nos cargos de diretora de fotografia, diretora de arte e diretora-assistente, o que Verhoeven diz ter sido suficiente para impedir um olhar masculino, fetichista das cenas de amor lésbico --mas deve parecer aquém de alguns pedidos de maior representatividade na indústria.

Rotulado como "provocateur" por críticos e pela imprensa, o holandês diz que há assuntos que precisam ser enfrentados, que não quer usar seu cinema para abafar a verdade. E isso vale, no novo longa, tanto para a parte religiosa, quanto para a LGBTQIA+.

"Nós sabemos muito bem as coisas terríveis que a Igreja Católica fez em seus 2.000 anos --cruzadas, a Inquisição, tortura, assassinatos de 'bruxas', pedofilia", diz ele sobre o primeiro ponto. Já em relação ao segundo, se mostra bastante à vontade mesmo sendo heterossexual e pertencendo a uma geração mais avessa à diversidade.

"A vivência LGBTQIA+ é apenas um reflexo da natureza. Todos os tipos de sexualidade existem no planeta, foi isso o que a evolução construiu. Enquanto artista, é preciso estar ciente disso, e isso precisa refletir no seu trabalho. Não porque queremos promover a diversidade, mas porque essa é a nossa realidade, é algo que nos cerca."

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BENEDETTA

Quando: Exibido no Mix Brasil nesta quarta (10), em abertura para convidados, e no dia 18 de novembro, às 17h, para o público. Estreia nos cinemas em 13 de janeiro

Elenco: Virginie Efira, Charlotte Rampling e Daphne Patakia

Produção: França/Bélgica/Países Baixos, 2021

Direção: Paul Verhoeven

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