Em ano eleitoral, Women's March tenta recuperar sua força contra Donald Trump

Marcha das Mulheres em Washington, EUA, neste sábado, 18 (ROBERTO SCHMIDT/AFP via Getty Images)

Por Renan Botelho (@renan_botelho), em Washington (EUA)

Passaram-se quatro anos desde que mais de 470 mil pessoas, em sua maioria mulheres, tomaram conta da capital estadunidense em um protesto que visava defender os direitos sociais das minorias e fazer um alerta sobre as questões ambientais. O movimento, que ficou conhecido como Women’s March, aconteceu um dia depois da posse do presidente Donald Trump, deixando claro que aquele grupo não iria facilitar para o governo que se iniciara. 

Neste sábado, 18, milhares de pessoas voltaram a marchar em diferentes cidades dos Estados Unidos, em protesto contra o atual governo americano. A principal delas aconteceu na capital do país, em Washington DC, onde se esperavam dez mil manifestantes. O número, bem distante dos quase 500 mil que ocuparam o distrito americano em 2017, é um reflexo dos problemas internos da organização. 

A Women's March foi acusada de feminismo branco, pela falta de inclusão sobre pautas importantes para mulheres negras, que sofrem com o machismo agravado pelo racismo. E a situação piorou quando uma de suas principais organizadoras fez um comentário antissemita, ofendendo a comunidade judaica envolvida nos protestos. 

Leia também

Percebendo seu erro, a Women's March passou 2019 se reformulando. Três das quatro fundadoras do movimento se afastaram da organização do protesto e 11 novas mulheres, com novas visões, chegaram para tentar retomar a força da primeira marcha. 

'O estuprador é você!'

As mudanças começaram pelo formato do evento. Chega de celebridades e discursos intermináveis. As organizadoras decidiram que era hora de participarem da caminhada ao lado das outras mulheres, que este foram lideradas pelo grupo feminista chileno Las Tesis. 

Em dezembro, o Las Tesis ganhou atenção mundial ao realizar um ato performático nas ruas de Santiago, onde mulheres enfileiradas, com os olhos vendados, entoavam em uma só voz: "O estuprador é você. São os policiais. Os juízes. O Estado. O presidente. O estado opressor é um macho estuprador". Em Washington, o hino ganhou uma versão em inglês. 

Ritmo brasileiro 

Além das vizinhas chilenas, o grupo de percussão afro-brasileira Batalá ditou o ritmo da caminhada e manter a energia dos manifestantes, que enfrentaram neve e uma temperatura de 2 Celsius. 

Martin Luther King Jr. 

Segunda-feira, 20, será feriado nacional para celebrar a memória do grande ativista pelos direitos civis da comunidade negra, Martin Luther King Jr. Seguindo os seus passos, seu filho Martin Luther King III subiu ao palco da Women’s March ao lado da sua mulher, a ativista Andrea Waters King. 

Andrea lembrou que em 2020 completará 100 anos desde que as mulheres conquistaram o direito de voto nos Estados Unidos. “Lembrar não é suficiente. Nós devemos ver essa marcha como um momento de renovação! Esta pode ser a década que nos leva para uma nova liberdade”, declarou. “Hoje nossos corpos podem estar frios, mas nossas almas estão em chamas!”, disse a ativista. 

‘Hora de entrar em ação’ 

A fotógrafa Christine Meeker, 57, veio de Houston, Texas, para fazer parte da marcha pelo segundo ano consecutivo. “Meu neto nasceu este ano e a gente precisa lutar pelas próximas gerações. É hora de entrar em ação!”, explica Christine, que se tornou uma atração à parte por conta de seu caso verde-escuro, onde escreveu nas costas “I really do care, don’t you?” (“Eu realmente me importo, você não?” - uma referência à polêmica jaqueta usada por Melania Trump em 2017, que trazia a mensagem oposta “I don’t really care” (“eu realmente não me importo”). 

Uma de suas principais preocupações e de sua filha, a também fotógrafa Samantha Meeker, de 26 anos, é o aquecimento global. “Não temos mais como esperar. A cada ano só piora”, disse Samantha, que lembrou os dados divulgados pela NASA declarando 2019 como o segundo ano mais quente da história desde 1850. 

Foco

Este ano a organização do evento decidiu focar em três pautas controversas no governo Trump. Além das mudanças climáticas, muitos cartazes também falavam sobre os direitos dos imigrantes e a justiça reprodutiva, que abrange todos os tópicos relevantes à autonomia feminina sobre o próprio corpo, como o direito ao aborto, tratamentos anticoncepcionais e a educação sexual nas escolas. 

"Esses três tópicos foram identificados por mulheres ao redor do país que experienciaram diretamente como a administração do Trump apagou políticas de proteção ao nosso planeta, destruiu os direitos humanos ao colocar crianças e idosos em gaiolas, e tentaram colocar limites na autonomia dos nossos corpos", explicou previamente Isa Noyola, que faz parte do novo conselho da Women's March e é diretora da organização Mijente, que luta pelos direitos da comunidade latina nos Estados Unidos.