Em 2021, cinema teve mulheres fortes e testou as fronteiras do streaming

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ano foi delas. A temporada de prêmios que começa nas próximas semanas pode até não refletir isso, mas a verdade é que as mulheres protagonizaram várias das principais discussões cinematográficas de 2021.

Começou com o burburinho das premiações, com "Bela Vingança", um filme sobre estupro e revanche, tornando-se um dos títulos mais comentados e celebrados do ano, e "Nomadland" tomando o Oscar de assalto. A produção levou três estatuetas -melhor atriz, para Frances McDormand num papel de mulher forte e destemida, melhor filme e melhor direção, para a chinesa Chloé Zhao.

Ela se tornou apenas a segunda a vencer na categoria e lançou, há algumas semanas, o megaprojeto da Marvel "Eternos", um dos recordistas de bilheteria deste ano.

Depois foi a vez de Julia Ducournau estarrecer Cannes e levar a Palma de Ouro. Ao lado de Jane Campion, foi a única mulher a conquistar a honraria máxima da Riviera Francesa, com uma trama que joga com a sensualidade e a força de sua protagonista. Em Veneza, de forma similar, Audrey Diwan, Maggie Gyllenhaal e a própria Campion se destacaram e ganharam troféus.

E aí vieram super-heroínas como Viúva Negra, princesas como Raya, espiãs como a nova 007, vilãs como Cruella e gente normal como a reencarnação de Anita de "Amor, Sublime Amor". Todas com uma vontade imensa de serem vistas e ouvidas.

Sinal dos tempos, assim como a discussão que se deu em torno da volatilidade das fronteiras que dividem cinema e streaming.

Elas já vinham ficando turvas há anos, conforme cineastas de prestígio e público recorriam cada vez mais ao sob demanda, mas foi na ressaca da crise provocada pela pandemia de Covid-19, num momento em que exibidores e estúdios se reorganizavam com o alento trazido pelas vacinas, que uma relação menos emergencial entre os dois meios começou a se desenhar.

Tudo em 2020 aconteceu em caráter temporário, como se a inevitabilidade de certas mudanças não passasse de uma solução excepcional para tempos excepcionais. Mas a verdade é que barreiras foram se rompendo, e hoje vivemos num mundo em que uma plataforma como a Mubi sai do Festival de Cannes com cinco dos longas premiados debaixo do braço.

Enquanto isso, Netflix e Apple TV+ compravam títulos de gente consagrada, como, novamente, Jane Campion ou Joel Coen, e Disney e Warner passavam para suas plataformas próprias lançamentos envoltos em expectativa, de "Luca" a "Em Um Bairro de Nova York".

É claro que nem tudo se resolveu com streaming, afinal, é preciso haver uma sinergia entre estúdios e parque exibidor, e este precisava desesperadamente de ajuda após meses de salas fechadas e insegurança do público. O socorro, no entanto, não veio exatamente da forma como queriam -janelas de exclusividade se provaram elásticas e por vezes inexistentes, o que causou desconforto no setor.

Até celebridades entraram na briga, mais notavelmente Scarlett Johansson, que, alienada do potencial lucro que receberia com a bilheteria de "Viúva Negra", disse que iria processar a Disney. O impasse foi resolvido antes de chegar aos tribunais, mas não sem inflar outras estrelas que pensaram em fazer o mesmo.

Houve, no entanto, quem arriscasse uma temporada longa e exclusiva nas telonas antes de ir para o streaming, defendendo o velho cinema com certo sucesso -caso de "Sem Tempo para Morrer"- ou com frustração, como o "Amor, Sublime Amor" de Steven Spielberg, que despertou críticas impressionadas, apostas para o Oscar, mas não o interesse dos millennials.

Agora, "Homem-Aranha: Sem Volta para Casa" bate recordes nas bilheterias -e expulsa covardemente qualquer produção de porte menor dos cinemas brasileiros-, ensaiando uma normalização para um parque exibidor que, só no Brasil, perdeu cerca de 300 salas em meio à pandemia, de acordo com a Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas.

Com a iminente virada de 2021 para 2022, vemos filmes de porte médio, especialmente nacionais, conseguirem espaço novamente no circuito, após meses tendo seus lançamentos freados pela dúvida quanto à disposição do público de sair de casa para vê-los -afinal, se é para ir ao cinema pandêmico, que seja para ver a estreia do momento, pensou muita gente.

Um desses títulos que flutuam entre o blockbuster e o cinema de arte que conseguiram estrear é "Marighella", que há tantos anos estampa manchetes por adiamentos quase inexplicáveis.

Mas não foi só no circuito comercial que as poltronas dos cinemas voltaram a ser ocupadas. Festivais e mostras enfim puderam retornar ao formato presencial, se não totalmente, ao menos em parte.

Foi assim por aqui, com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que recorreu a um modelo híbrido que privilegiou as sessões físicas, e, lá fora, com o Festival de Cannes voltando a receber cinéfilos, artistas, executivos e jornalistas após ter sido cancelado no ano passado. A ômicron tem ameaçado a temporada europeia que começa em breve com a Berlinale, é verdade, mas os festivais parecem determinados a não voltar para o 100% digital.

Para além da experiência cinematográfica, em termos de conteúdo, o público começou a receber este ano uma leva de filmes produzidos já sob os rígidos protocolos anti-Covid que dominaram os sets de filmagem -e percebeu que pouca coisa mudou nas tramas em si.

Especificamente em relação aos blockbusters, os universos compartilhados e as realidades paralelas se tornaram a menina dos olhos de qualquer estúdio ou streaming, num movimento capitaneado por uma Marvel que agora também tem à disposição o formato televisivo.

Para bater de frente com o poderio de Vingadores e companhia, são vários os produtores de conteúdo que tentam emplacar um universo compartilhado de sucesso, a partir do qual possam criar derivados que não necessariamente se completem, mas que ao menos reciclem elementos já conhecidos do público.

Nem só de festas de recuperação e da bonança da vacina viveu o cinema em 2021, porém. Este foi um ano especialmente trágico para os brasileiros, com a perda de um dos nossos campeões de bilheteria, Paulo Gustavo.

Morto por complicações causadas pelo novo coronavírus em maio, o ator e humorista integrava a nata do audiovisual brasileiro, com sua franquia "Minha Mãe É Uma Peça" como raro caso de sucesso entre um público normalmente mais afeito à grandiosidade de Hollywood. Sua perda mobilizou o país e deixou a comédia nacional um tanto sem rumo, especialmente após o baixo faturamento que teve em 2021.

Da mesma forma, uma outra tragédia, essa em terras americanas, chocou a comunidade cinéfila em outubro, quando uma arma manuseada por Alec Baldwin num set de filmagem disparou, ferindo o diretor e matando a diretora de fotografia do filme "Rust".

O acidente levantou debates que ainda se desenrolam em Hollywood, denunciando que regras mais rigorosas para o uso de objetos fatais nos sets precisam ser adotadas. É mais uma para a lista de mudanças urgentes que esperam para serem colocadas em prática pela indústria.

O público, afinal, hoje tem acesso a muito mais informações de bastidores. Foi sabendo do que acontecia por baixo dos panos do Globo de Ouro, por exemplo, que ele decidiu jogar o prêmio em ostracismo, junto de artistas e até da emissora NBC, que anunciou que não exibiria a tradicional cerimônia enquanto a organização que a promove não se renovasse.

Isso porque o Globo de Ouro foi alvo de uma série de reportagens que denunciou esquemas de suborno na hora de indicar e premiar os filmes. Somada ao escândalo estava ainda a revelação de que nenhum dos menos de cem membros da organização que decide o prêmio era negro.

O cinema em 2022 vai abrir justamente com a edição pós-escândalo do Globo de Ouro, que não será televisionada e que certamente não terá celebridades para abrilhantá-la, já no dia 9 de janeiro. Com a premiação sem prestígio nem relevância, mas gente poderosa por trás querendo se redimir, o próximo ano vai começar já causando muito burburinho.

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