Em 'Éramos Seis', Simone Spoladore diz que público se identifica com Clotilde

KARINA MATIAS
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 10.06.2013: Atriz Simone Spoladore durante a pré-estreia para convidados do filme

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Solteira e grávida. Para uma mulher dos anos 1920 ser mãe sem estar casada era motivo de extrema vergonha e desonra para ela e toda a sua família. E é assim que Clotilde vai se ver a partir desta segunda-feira (27), em "Éramos Seis". 

Simone Spoladore, 40, intérprete da personagem, diz que, apesar de ser muito difícil e dolorosa, a gestação vai dar para Clotilde a sensação de que de fato ela está vivendo, e não mais só no mundo platônico como ela passou grande parte da vida

"Dói, mas é vida (...) Ela vai sofrer muito, vai ter muitas dúvidas do que fazer com esse filho, mas acho que na verdade ela está descobrindo quem ela é." Nos próximos capítulos da trama, ela vai tentar esconder a gravidez. 

A atriz conta que tem recebido muitas mensagens de homens e mulheres que se identificam com a Clotilde. Não exatamente com a história de viver uma paixão não realizada ou com uma gravidez não planejada. Na visão de Simone, a identificação é com algo mais profundo que ela representa, que é abrir mão da própria vida por algum outro motivo.

"Já aconteceu duas vezes de pessoas que vêm falar comigo no supermecado, e eu vejo os olhos delas enchendo de lágrimas só de falar na Clotilde. Vai além da superfície da personagem. É essa sensação de ter deixado alguma coisa da vida passar...É muito bonito", afirma. 

Para a atriz, todo o processo de desenvolver o papel foi bem complexo. No início, apesar de feliz com o convite para participar da trama, ela estava um pouco incomodada com o estereótipo que Clotilde poderia cair, da solteirona chata e triste.  

Por isso, ela decidiu se inspirar na forma como a irmã de Lola (Gloria Pires) é retratada no livro "Éramos Seis", de Maria José Dupré, no qual a novela se baseia. 

"Eu queria fugir da solteirona, porque a gente vê a solteirona sempre como uma pessoa triste e sofrida. Mas no livro a personagem tem uma plenitude. Ela não é uma pessoa triste porque não casou. Ao contrário, ela era muito feliz com a vida que ela tinha. Ela sentia alegria com os passarinhos, com o sol batendo, ao fazer pão e café para as pessoas que ela gostava (...) Talvez, ela tivesse uma certa melancolia, mas não era uma tristeza."

A atriz conta que partiu dessa ideia e, aos poucos e ao longo da trama, foi desenvolvendo as várias camadas da personagem. Para ela, as cenas fortes e emocionantes com o ator Ricardo Pereira, que interpreta Almeida, grande amor e pai do filho de Clotilde, ajudaram a enriquecer a história do casal e da personagem.

Simone, por exemplo, diz acreditar que Clotilde não se abriu para o relacionamento com Almeida não só porque ele era casado, mas porque ela tinha medo de se entregar ao amor, ela tinha medo da loucura.

"São camadas né, mas a camada da sociedade [nos anos 1920 o divórcio ainda não existia no Brasil e uma mulher que se envolvia com um homem casado era muito mal vista pelos outros] é a desculpa que ela [Clotilde] deu para ela mesma para não se entregar", diz. 

E aí quando, finalmente, anos depois, ela resolve tentar viver esse amor, Clotilde é rejeitada. Para Simone, gravar todas essas cenas em que ela leva o fora de Almeida, depois fica doente e tenta se matar foram momentos tensos e dolorosos, mas muito importantes para a trajetória da personagem e que emocionaram o público. 

"Quando você vê o mundo de um jeito, e depois tem que aprender a ver o mundo de outro jeito, mexe tão profundamente com a gente, que ficamos com medo desses lugares obscuros mesmo, da loucura e da perda do controle", diz.

E complementa: "Mas, às vezes, é só perdendo o controle que você se encontra. É isso que a Clotilde está descobrindo. Que ela tem que sair das ideias que estão dentro da cabeça dela, das ideias fixas, preconceituosas, religiosas até e descobrir o mundo por ela mesma", afirma.