'Elvis', com Austin Butler, é espetáculo sobre os amores e a destruição de Elvis Presley

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Figurinos coloridos e cintilantes acompanham um rebolado inconfundível, que pipoca vez ou outra ao longo do novo filme de Baz Luhrmann. Ele emula, claro, o de Elvis Presley, uma das figuras mais icônicas da história da música e que, pelas mãos do extravagante cineasta australiano, renasce agora nas telas.

Em "Elvis", a trágica e, na mesma medida, excitante vida do artista é remontada em meio a fogos de artifício, cenários grandiosos, uma trilha sonora agitada e um vilão inegavelmente tóxico, todos parte da receita não tão frequente –mas inconfundível– de alguém que dirige pouco e, quando o faz, é sem economizar.

"Esse filme é mais que só a história de vida de Elvis Presley. Claro, é uma vida incrível para explorar, tanto quanto é a relação dele com o seu empresário, Tom Parker. Mas o filme também é sobre show e ‘business’, gerenciamento e controle, criatividade e honestidade", resume Luhrmann, em conversa com jornalistas. "É uma oportunidade de explorar ideias que vão muito além da música."

Ao longo de suas quase três horas de duração, "Elvis" mostra o início da carreira do rei do rock e vai até seus anos finais, num recorte semelhante ao usado para narrar as trajetórias de Freddie Mercury, em "Bohemian Rhapsody", ou Elton John, em "Rocketman".

Das origens religiosas e humildes no estado americano de Mississippi à trágica morte por parada cardíaca, em decorrência do uso indiscriminado de barbitúricos, aos 42 anos, vemos como Elvis Aaron Presley fez todo um país chacoalhar ao som de "Hound Dog" e "Burning Love". E como incomodou as autoridades, que insistiam que suas músicas e os movimentos de seu corpo eram ousados, sensuais e negros demais para os Estados Unidos ditado por leis de segregação e pelo conservadorismo dos anos 1950, 1960 e 1970.

As raízes do astro e do próprio rock, fincadas na black music americana mas com frequência ignoradas, estão em evidência em "Elvis". Seria impossível, diz Luhrmann, contar uma história como essa sem fazer um reconhecimento tardio. "Isso nos leva a questionar o quanto crescemos, se de fato houve uma evolução nesses anos todos", afirma.

"Ele era um pedacinho do fruto proibido", diz o personagem Tom Parker, ou Coronel, como era conhecido, interpretado por Tom Hanks, ao ouvir seu rock no começo do longa. Na cena, Elvis sobe ao palco trajado num cor-de-rosa escandaloso, com o violão na mão e o rosto coberto, na parte de cima, pelos fios caídos de seu topete preto e, abaixo, por um enorme microfone metálico.

Enquanto canta "Baby Let's Play House", do músico de blues Arthur Gunter, ele balança a pélvis em todas as direções possíveis. Meninas e mulheres levantam de seus assentos, gritam, se descabelam e se entregam a um furor sexual desconcertante, que capta a atenção do Coronel, o antagonista que serve de olhos para o espectador nesta história. É a difícil e abusiva relação entre músico e empresário que dita o ritmo.

Nas telas, a virilha hipnotizante que vemos dançar pertence a Austin Butler, escolhido para o papel a partir de uma lista que incluiu nomes bem maiores que o do ex-astro teen da Disney, um tanto sumido até Tarantino o encontrar para "Era Uma Vez Em... Hollywood", uma década depois de suas participações em "Hannah Montana" e "Zoey 101". Harry Styles, Miles Teller, Ansel Elgort e Aaron Taylor-Johnson acabaram todos ofuscados nos testes.

Foram quase três anos de preparação para Butler dar vida ao protagonista, período no qual ele diz ter ficado obcecado, se dedicando quase exclusivamente a "Elvis". Foram vários tipos de treinamento –de canto à dança, da dicção ao tom de voz, que o ator diz ter mudado diversas vezes ao longo da carreira do rei do rock.

"Quando você olha para esse personagem, você acha que é um papel impossível. Eu seguia a minha curiosidade para ir treinando e tentava ser o mais meticuloso possível. Mas no fim tudo se resumia a encontrar a humanidade do Elvis, o despir do rótulo de ícone, das caricaturas, das fantasias de Halloween e falar sobre quem ele era, como ele se sentia", diz Butler.

"Eu tinha medo de falhar com ele, com sua família, com seu legado e com seus fãs. Era muita responsabilidade. Mas era exatamente sob esse temor que ele viveu boa parte da vida, então eu encontrava conforto ao saber que o Elvis, também, tinha todos esses receios e, mesmo assim, fez coisas extraordinárias."

Com a atenção e os elogios que vem recebendo pelo trabalho, Butler, de 30 anos, já assegurou mais um papel importante para o futuro breve –ele será o vilanesco Feyd-Rautha Harkonnen da segunda parte de "Duna", de Denis Villeneuve.

Ao seguir de perto a relação do músico com o Coronel Tom Parker, "Elvis" se tornou um filme sobre o ódio que esse desgaste gerou, mas sem deixar de lado a paixão inabalável que, no roteiro, tem duas fontes –uma delas a música e a outra a que o rei do rock nutria por Priscilla Presley.

O filme argumenta que o que o separou da mulher com quem foi casado por seis anos não foi a falta de amor –pelo contrário. Foi a dificuldade de ver Elvis se afundando em drogas e no álcool e a cegueira trazida pela fama.

A teoria é corroborada pela própria Priscilla Presley, que tem acompanhado a equipe do filme nas conversas com a imprensa, entre elas a do Festival de Cannes, quando terminou uma das poucas e concorridas sessões do longa em lágrimas.

Dessa forma, a trama lida com temas que, em diferentes roupagens, se repetem na filmografia enxuta mas cheia de personalidade de Luhrmann, que esteve por trás do luxuoso "O Grande Gatsby", do romântico "Romeu + Julieta", do agitado "Vem Dançar Comigo" e do indicado ao Oscar "Moulin Rouge: Amor em Vermelho", que se apegava a um mantra que, em "Elvis" também, parece importante –o de crer na beleza, na liberdade, na verdade e no amor.

Como costumam ser os filmes de Luhrmann, "Elvis" não é para qualquer um, apesar de a música de seu biografado se provar universal e atemporal. Os cortes frenéticos, os personagens caricatos, o visual bombástico e a trilha sonora que mistura sons antigos a batidas moderninhas, sempre estourando nos alto-falantes, tornam o filme teatral.

Mas não é difícil defender que, diante de vida e carreira tão intensas, só mesmo um espetáculo barulhento e exagerado para dar conta do tamanho de Elvis Presley.

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ELVIS

Quando: Estreia nesta quinta (14), nos cinemas

Classificação: 14 anos

Elenco: Austin Butler, Tom Hanks e Olivia DeJonge

Produção: EUA/Austrália, 2022

Direção: Baz Luhrmann

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