Elite da moda brasileira assina carta antirracista proposta por ativistas

PEDRO DINIZ
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma mudança pode estar em curso na moda brasileira. Se cumprida por quem detém o poder, um compromisso, mesmo que ainda sem contrapartidas em caso de descumprimento, pode contribuir com a equidade racial no setor. Depois de meses de discussões sobre como o mundo da moda poderia se tornar um ambiente menos tóxico para modelos negros, indígenas e afrodescendentes, o coletivo de modelos Pretos na Moda, em parceria com a organização da São Paulo Fashion Week, conseguiu que diversos profissionais do segmento viessem a público neste sábado (31) se manifestar a favor da causa da inclusão racial nos bastidores dos desfiles e das campanhas publicitárias no meio fashion. Criado pelas modelos Camila Simões, Cindy Reis, Natasha Soares e Thayná Santos, que em junho lideraram uma série de denúncias de maus tratos sofridos por profissionais negros nas coxias do setor, o coletivo também conseguiu que 24 nomes, entre os quais donos de agências, stylists, produtores e diretores de desfile do alto escalão, assinassem um documento batizado "tratado moral". Em suma, é um esboço que visa orientar marcas e profissionais do setor a promover mudanças contra a discriminação e garantir boas condições de trabalho para modelos, camareiras e costureiras. Entre os nomes que assinam o documento estão agentes como Anderson Baumgartner, da Way Model, Rodrigo Toigo, da Ford, Fernando Herbert, da Joy, além de stylists como Paulo Martinez, Flávia Pommianosky e Thiago Ferraz. Na primeira versão do documento, além da exigência de equidade racial, também está estipulado um cachê entre R$ 600 e R$ 800 para os modelos, escolhido com base no orçamento das marcas participantes, e que tem um prazo de pagamento de até 90 dias após a conclusão do trabalho. Na versão final do contrato, divulgada na noite deste sábado (31) pelo coletivo, foi acrescentado ao preço a taxa de 20% das agências. Regras claras sobre quanto e quando os modelos recebem por trabalhos já foram assunto de diversos debates entre as agências. Esses valores estipulados já valeriam para esta edição da São Paulo Fashion Week, que será realizada entre os dias 4 e 8 de novembro de forma virtual. O grupo ainda pede destaque para modelos que fujam do padrão longilíneo, magro e branco explorado por anos na passarela, lembrando que este não deveria ser o único padrão explorado pelas marcas. O documento visa criar regras, antes nebulosas e pouco efetivas, sobre o papel de cada pessoa envolvida na produção de campanhas e desfiles para evitar o preconceito racial na moda nacional. Resta olhar de perto como na prática, ou seja, nos desfiles, nos bastidores e nas campanhas, esse novo acordo será celebrado.