Eleições 2020: como é a rotina de quem vota em uma ‘cidade dormitório’

João de Mari
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Sentado na cadeira da cozinha de sua casa em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, o bombeiro civil Gabriel Macedo, 21 anos, olha no celular as primeiras atualizações do dia para ter uma ideia de quais serão as notícias daquela segunda-feira, 9 de novembro. “Tem algumas páginas que eu sigo que divulgam algumas notícias, que são como ‘extras de Ferraz’, e alguns grupos no WhatsApp também”, explica.

Falta menos de uma semana para o primeiro turno das eleições municipais, que irão acontecer neste domingo (15), e Macedo busca entender quais são os problemas de sua cidade para escolher candidatos que estejam alinhados com suas convicções — até o fechamento desta matéria ele ainda não tinha definido seus votos.

Mas o relógio já passou das quatro da manhã e ele só tem mais 15 minutos para tomar café, colocar o uniforme na mochila e andar para a estação de trem onde seguirá viagem para o Morumbi, bairro nobre da capital paulista, onde trabalha em um hospital privado.

“Minha empresa disponibiliza fretados para os funcionários, o que acaba facilitando nossa chegada até lá”, relata Macedo, em tom de alívio por não ter que enfrentar os trens da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e do metrô para chegar ao trabalho a mais de 50 quilômetros de distância de sua casa.

O turno de 12 horas de trabalho começa às 7h, mas ele precisa estar às 5h em Guaianases, bairro periférico da zona leste de São Paulo, onde partem os fretados até sua empresa. Da estação Ferraz de Vasconcelos até Guaianases são 15 minutos. De fretado, mais uma hora de viagem em média.

Gabriel Macedo, 21, trabalha como bombeiro no Hospital Israelita Albert Einstein (Foto: Arquivo Pessoal)
Gabriel Macedo, 21, trabalha como bombeiro no Hospital Israelita Albert Einstein (Foto: Arquivo Pessoal)

Assim como Macedo, que passa pelo menos 16 horas fora de casa em dias alternados, milhares de pessoas vivem em cidades onde apenas dormem por causa da rotina de trabalho.

Parte dessas localidades são chamadas de “cidades-dormitório” e surgiram nos arredores de grandes cidades devido ao desenvolvimento das metrópoles, sobretudo no auge do período industrial entre 1940 e 1990. Pesquisadores apontam que a formação dessas regiões têm relação com a desigualdade social — esses locais têm baixos índices de ofertas de emprego, lazer, mobilidade urbana entre outros.

O modelo de “cidade” é tão comum em grandes metrópoles que distritos e bairros também podem se enquadrar nesta definição, como Cidade Tiradentes, distrito periférico de São Paulo, por exemplo. Mas no entorno da capital paulista, parte das cidades-dormitório estão concentradas na chamada Região Metropolitana (também conhecida como Grande São Paulo) que é formada por 39 municípios, entre eles Ferraz de Vasconcelos.

De acordo com dados mais recentes do IBGE, a Região Metropolitana de São Paulo tem mais de 21,5 milhões de habitantes, número equivalente a população de todo estado de Minas Gerais. Essas pessoas são fundamentais no processo eleitoral já que somam quase 50% dos eleitores de todo estado, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Durante a semana que antecede o primeiro turno das eleições de 2020, o Yahoo! Notícias conversou com pessoas que passam mais da metade do dia distantes de casa — mesmo com a pandemia — e que, no próximo domingo (15), irão escolher um candidato ou candidata à Prefeitura e à Câmara Municipal de suas cidades.

‘Votarei em legenda’

É o caso do analista de comunicação Affonso Dantas, 54 anos. Morador de Santo André, na região do ABC Paulista, ele conta que por passar tanto tempo fora de sua cidade ainda não tem candidato a vereador. “Talvez eu votarei em legenda”, conta.

Em um dia sem nenhuma interferência, conta ele, Dantas segue de carro até São Caetano, cidade do Grande ABC; de São Caetano, vai de trem até a Luz, no centro de São Paulo; de metrô, faz o trecho Luz-São Bento, que é a estação de metrô mais próxima ao seu trabalho. No total, são cerca de 3 horas por dia se contando ida e volta.

“Quando eu morava no Rio de Janeiro, eu sabia exatamente em quem votar, quem é que na minha região era fechado com o que eu penso e poderia trabalhar bem pela cidade e pela região que eu morava. Quando a gente [ele e a esposa] veio agora, há alguns anos, para Santo André, aí eu perdi completamente essa ligação”, conclui, referindo-se ao tempo de deslocamento gasto por conta do trabalho.

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O sociólogo urbano Márcio Macedo, que é professor e coordenador de diversidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), diz que a rotina dessas pessoas reflete a desigualdade de cidades próximas de São Paulo e que essa dinâmica [de dormirem nessas cidades] é própria da forma do desenvolvimento da metrópole e está associado com a distância entre casa e trabalho.

No entanto, Márcio diz que uma solução para resolver o problema da mobilidade é fazer uma discussão sobre moradias de regiões centrais de São Paulo para “serem ocupadas”.

“Temos imóveis vazios e há discussão sobre uso social da moradia. Há muitos imóveis desocupados por conta de dívidas com a prefeitura que poderiam ser ocupados por indivíduos. Seria uma maneira minimamente de resolver ou atacar questões sobre mobilidade, moradia, e ao mesmo tempo fazer com que as pessoas tenham mais possibilidade de gastar menos tempo na locomoção na cidade e possam conseguintemente aproveitar muito mais da cidade”, avalia.

Cidade-dormitório "para trás"

Moradora de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, até 2017, Yanca estudava e trabalhava na capital (Foto: Reprodução/Facebook)
Moradora de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, até 2017, Yanca estudava e trabalhava na capital (Foto: Reprodução/Facebook)

Uma pesquisa feita pela Rede Nossa São Paulo em 2019 revelou que o tempo médio de deslocamento dos paulistanos é de 2h25 por dia.

A rotina da redatora de marketing, Yanca Palumo, 24, seguiu esse roteiro por muito tempo. Moradora de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, até 2017, ela estudava e trabalhava na capital paulista.

Palumo acordava às 4h40 para entrar na faculdade, na zona sul de São Paulo, às 7h30. Ao acabar a aula, às 11h, ela “saía correndo”, como ela mesma diz, para o trabalho em um call center na Lapa, distrito da zona oeste da capital paulista. Após oito horas de trabalho, ela retornava para casa de trem, chegando em torno das 23h30.

Há três anos, porém, Palumo deixou Itaquaquecetuba e foi morar na zona leste de São Paulo com seu companheiro. Ela disse que em relação à mobilidade, tudo mudou para melhor. Mas, como ela não alterou sua domicílio eleitoral, ou seja, o título de eleitor, morar em um município diferente do que vai votar é “bem estranho”.

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“Minha família mora em Itaquaquecetuba, só que eles estão em um bairro bem próximo do centro da cidade e tem uma diferença social de estrutura desse local para os outros bairros mais periféricos. Para mim a maior dificuldade nisso é porque eu vou pouco lá e quando vou fico na casa da minha mãe. Eu não tenho noção de quais são os problemas reais da cidade", diz.

Quem concorda é Gabriel Macedo. Segundo o bombeiro civil, por mais que se acompanhe as notícias da cidade — no caso dele com os grupos de WhatsApp e ‘extras de Ferraz’ —, não vivenciar o dia a dia do bairro pode fazer com que o eleitor caia em “falsas promessas”.

“Você não está vivenciando aquele dia a dia, então pode ser tudo uma promessa falsa, como pode ser tudo uma questão de eleição. As coisas começam a acontecer muito perto da eleição, é até engraçado ver algumas obras começarem a acontecer. A vivência de estar nos quatro anos do mandato, por exemplo, seria muito mais importante na hora de votar”, acredita.

Questionada pela reportagem, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos (STM), do governador João Doria (PSDB), não respondeu quais sãos os planos de investimento para melhorias nos trens da CPTM e do metrô de São Paulo.

Afeto com o território

Nas regiões em que há grande fluxo migratório como em regiões metropolitanas, por exemplo, é comum que, ao se mudar de cidade ou Estado, o eleitor não transfira o título, como uma forma de se manter vinculado a suas raízes familiares.

O próprio TSE tem um termo para definir esse vínculo: domicílio eleitoral. Ou seja, o lugar da residência ou moradia com ligação familiar, econômica social ou política — um dos motivos para justificar o voto, por exemplo, é estar fora do domicílio eleitoral durante a eleição.

O sociólogo Márcio Macedo afirma que por mais que a dinâmica desigual das cidades-dormitório tire as pessoas de seus bairros e municípios, isso não impede que laços de afeição com o território que residem se percam.

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“É muito valioso olhar para a forma com que essas pessoas conseguem desenvolver tipos de percepção sobre seu endereço e votar de maneira que o território se torne prioritário no mandato dos candidatos”, enfatiza.

Por esse motivo, há quem discorde que morar em uma cidade onde apenas se dorme atrapalhe na hora de escolher um candidato nestas eleições.

“Por mais que não conviva todo o tempo na cidade, você mora lá, seja final de semana, seja à noite, até o fato de você voltar para a cidade em que você mora, vai saber o que aquele bairro, o seu bairro e município precisam. Aí fica mais fácil discernir o que de fato o prefeito precisa ou não fazer na hora de escolher o meu voto”, avalia a jornalista Raycia Lima, 25 anos.

Moradora de Guarulhos, na Grande São Paulo, Lima entra no trabalho às 8h, mas seu dia começa ao menos 2h30 antes. Ela acorda às 5h30 e demora uma hora e meia para chegar à empresa. “Para voltar sempre tem trânsito ali na [Rodovia Presidente] Dutra. Saio às 18h e acabo chegando umas 20h”, conta ela.

Desafio para os candidatos

Com tanto tempo gasto entre trabalho e casa, os eleitores entrevistados dizem não conseguir acompanhar discussões políticas em seus municípios. No entanto, as principais demandas para os futuros parlamentares já estão definidas por eles.

Para Ferraz de Vasconcelos, que tem oito candidatos disputando a Prefeitura, Gabriel Macedo chama atenção para melhorias na infraestrutura e educação.

“As escolas particulares tomaram conta da cidade, então, acho que têm que trazer mais essa qualidade de ensino público, o que se enxergava antigamente na cidade”, acredita.

Já Raycia Lima avalia que Guarulhos precisa de mais investimentos em mobilidade urbana. “A gente tem uma frota nova [de ônibus], mas quando se fala de transporte parece que tudo é planejado para beneficiar o aeroporto [internacional de Guarulhos], não a cidade em si. Foi um investimento jogado no lixo, eu vejo, porque a maior população que precisa de transporte está no Pimentas [periferia da cidade~e continua da mesma forma lá”. Guarulhos tem 12 candidatos concorrendo à Prefeitura.

Affonso Dantas também acredita que Santo André e toda região do ABC Paulista precisa de melhorias na mobilidade urbana. Ele, porém, destaca as enchentes que “travam” o fluxo das cidades, sobretudo no verão.

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“O ABC é todo cortado pelo Rio Tamanduateí e em momentos de alagamento sempre se tem dois ou três dias durante o ano, geralmente em fevereiro e março, que tem o rio transbordando. Como tudo passa ou tem que cruzar a Avenida do Estado (liga São Paulo ao ABC) você tem esse problema de mobilidade”. Santo André conta com nove concorrentes à Prefeitura.

Yanca Palumo afirma que irá votar em um dos cinco candidato à Prefeitura que se proponha a resolver os problemas de saneamento básico e asfalto em bairros periféricos de Itaquaquecetuba.

“Tem muitos bairros que ainda não são asfaltados, aí tem o acúmulo da falta de saneamento básico mais o asfalto. Imagina quando chove, é muito caótico. Esses são os problemas que eu mais percebo e que eu já via desde que morava lá e não mudaram”, diz.

Ela ainda atribui a pandemia do coronavírus a um “distanciamento da compreensão dos problemas. “Esse ano eu fui apenas duas vezes para Itaquaquecetuba. Sinto que a pandemia está distanciando ainda mais a nossa compreensão dos problemas reais, principalmente para quem está tentando seguir uma quarentena. Acho que distanciamento das pessoas fez com que a gente perdesse as trocas”, finaliza.