“Não é um acessório, é necessidade”: elas contam porque não abrem mão do sutiã

Natália Eiras
·4 minuto de leitura
elas contam porque não abrem mão do sutiã
elas contam porque não abrem mão do sutiã. Foto: Getty Images

Por Natália Eiras (@naeiras)

A criadora de conteúdo Carla Lemos, do @modices, fez um post em suas redes sociais sobre a dificuldade de encontrar sutiãs que atendessem seu corpo. Nos comentários da publicação, logo vieram mensagens do tipo: “o melhor é não usar sutiã”. Nos anos 1970, nós queimamos sutiãs. Nos anos 2010, começamos a falar sobre a liberdade de não precisar usar a lingerie. Mas, nem sempre, abrir mão da peça é uma possibilidade.

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Gabriela Bianco. Foto: Arquivo pessoal
Gabriela Bianco. Foto: Arquivo pessoal

Gabriela conta que sempre foi peituda. “Sabe quando as meninas têm um estirão de crescimento? Então, passei por isso, mas fiquei peituda. Aí eu cresci em volta deles”, brinca. Por isso, ela sempre teve que conviver com comentários sobre seu busto e também com o peso que é carregá-lo por aí. Quando aprendeu a comprar uma lingerie que lhe servisse adequadamente, o “fardo” ficou mais leve, porém a necessidade continuou a existir. “Se eu não uso sutiã, o peito pesa, fico com dor no músculo da parte de cima do peito, ele sua embaixo. É desconfortável”, diz a publicitária.

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Amanda Roldan. Foto: Arquivo pessoal
Amanda Roldan. Foto: Arquivo pessoal

A analista de mídias sociais Amanda Roldan, 30, tem 1,47m de altura e usa sutiã tamanho 48. “Sou peituda desde que comecei a ter seios”, narra. Na quarentena, muita gente tem brincado que nem lembra mais como é usar sutiã. Fã de peça sem bojo e com arame, a analista foi uma das pessoas que aderiu à tendência. Um dia, no entanto, ela decidiu ir à farmácia sem o item. Não foi uma boa ideia. “Foi um inferno, porque doeu para caramba. Depois de 20 minutos nessa situação, desisti de abrir mão do sutiã. Percebi que não dava”, conta.

Por isso, por mais que o discurso de abrir mão da peça seja muito bonito no Instagram, esta nem sempre é a realidade de todas as mulheres. “Eu adoraria não usar sutiã, mas, para mim, não é um acessório, e sim uma necessidade”, fala a publicitária Gabriela Bianco. “Porém ainda há uma minoria que acaba que é preciso parar de se depilar e não usar sutiã para não compactuar com uma sociedade opressora.”

Os comentários no post de Carla Lemos deixaram, de acordo com a publicitária, isso escancarado. “É fácil falar isso quando se é magra ou seios tamanho 40”, rebateu uma seguidora de Lemos. “Me impactou muito, porque as mensagens dizendo para libertar mostram que falta uma noção de que os corpos são diferentes e que o sutiã pode ser indispensável”, complementa Amanda.

A própria Carla respondeu às mensagens em outra publicação, onde expunha os itens que tinha em seu armário. “Sim, muitas mulheres deixam de usar sutiã, mas isso não é uma verdade absoluta sobre a libertação da mulher. Usar sutiã não me faz menos feminista ou dona do meu corpo”, escreveu a criadora de conteúdo.

De acordo com as entrevistadas, esse tipo de discurso tira o foco e atrapalha que marcas pensem também nas peitudas na hora de fazer sutiãs bonitos e práticos. E dizer que é “só deixar de usar” evita que o mercado se sinta pressionado a incluir e atender às demandas dessas mulheres. “Porque para eu usar uma peça, precisa ter a parte de trás mais amplas, alças mais largas. Não posso deixar de usar sutiã, então quero opções que eu goste”, diz Amanda.

Isso sem falar que nem todo mundo está fortalecido o bastante para lidar com o julgamento e o assédio por não estar “com o peito no lugar”. “É um lance de pensar um pouco no outro, eu mesma não faço mais depilação, porque tenho pouco pelo e pelo claro, mas nunca vou dizer que isso é obrigatório porque vai ter muita mulher que vai se sentir desconfortável. É a gente olhar um pouco para o próximo.”, complementa Gabriela.