Ela descobriu que precisaria retirar um rim e decidiu virar triatleta

Ela virou triatleta mesmo sem um rim (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Natália Leão (@natileoa_)

Se você se alimenta bem, prática esportes e faz os exames regulares com seu médico, sua saúde está garantida, certo? Nem sempre. A jornalista - e louca por esportes - Nathalia Fuzaro tinha uma rotina digna de aplausos.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

“Sempre fui supersaudável, sempre gostei de comer bem e o esporte sempre foi uma terapia para mim. Experimentei de tudo um pouco: ginástica olímpica, balé, futebol, basquete, handebol, acrobacia, ioga, natação, ciclismo, corrida,” conta. Em março de 2015, todos os seus dias começavam na academia. Mesmo fazendo tudo à risca, no fim de março daquele ano o corpo deu sinais de algo não estava bem.

Leia também

“Comi demais em uma festinha de aniversário e passei a noite toda vomitando. Uma semana depois, almocei feijoada e passei mal de novo. Na semana seguinte, jantei pizza e passei mal mais uma vez”, lembra. Com a visita ao médico e uma bateria de exames que durou dois meses veio o diagnóstico: Estenose de JUP, um afunilamento do ureter, que liga o rim à bexiga. Na prática, o rim da Nathalia não drenava a urina da forma adequada e ficava inchado. “Normalmente, descobre-se essa doença ainda bebê ou criança e em muitos casos dá para ‘salvar’ o rim, mas o meu já tinha parado de funcionar e, por isso, estava atrapalhando o funcionamento normal dos outros órgãos,” conta.

Da academia à mesa de cirurgia

Ela descobriu que precisa de uma cirurgia de rim de uma hora para outra (Foto: Arquivo Pessoal)

Do diagnóstico à cirurgia pouco mais de um mês se passou. “Tinha acabado de sair de um emprego que gostava muito porque sentia que não me fazia mais feliz; passava muito tempo sozinha, porque fazia home office; estava meio perdida na vida em geral. Somado a isso, vomitava muito, não conseguia comer e dormir direito. Foi uma fase dolorosa. Quando soube que ia operar, achei que Deus estava me testando: eu tinha um companheiro que me amava, uma família que me amava, um bom trabalho e... não estava feliz. Me sentia muito estranha e triste, o que não faz parte da minha personalidade, então cheguei a pensar que eu fosse morrer”, conta. Com a fraqueza física (ela chegou a pesar 47 quilos, medindo 1,62 metros) e a mente em turbilhão, Nathalia chegou ao questionamento que quase todos que são surpreendidos por uma doença se fazem: “O que eu tinha que aprender com aquilo? O que queria fazer da minha vida, se desse tudo certo?” A resposta veio na sala de espera do anestesista que seria responsável pela cirurgia dias depois.

Um rim, 1,5K de natação, 40K de ciclismo e 10K de corrida

A corrida como combustível (Foto: Arquivo Pessoal)

“Estava na sala de espera do anestesista folheando uma revista alguns dias antes da cirurgia e lembro que me identifiquei com a história de uma menina triatleta. Como vinha pensando em mudar minha vida, achei que seria uma boa aposta comigo mesma. Prometi: ‘Se eu sair dessa, vou fazer triathlon’. Achava uma coisa meio surreal, para pessoas realmente fortes/atléticas. As pessoas achavam que estava brincando ­– e para ser sincera, nem eu acreditava muito que era capaz”.

Com apenas um rim e muita vontade, 40 dias após ter alta, a jornalista iniciou os treinos de natação, mais dois meses e voltou à corrida; com seis meses comprou uma bicicleta e logo estava inscrita no seu primeiro triathlon olímpico (1,5K de natação + 40K de ciclismo + 10K de corrida). “Lembro da primeira vez que subi na esteira depois da cirurgia: estava com medo, ainda sentia muita sensibilidade na barriga e caminhei por 15 minutos a uma velocidade de 3,5. Pronto, foi minha atividade do dia! Coisas pequenas, como virar um galão d’água de 10 litros, eram conquistas enormes para mim no pós-operatório. Como tiveram que cortar um pedaço do diafragma na cirurgia, sentia muita falta de ar. Na piscina, a mesma coisa: voltei nadando 25 metros, parando para respirar em cada borda da piscina”. Mas, como ela mesmo gosta de lembrar, estava com sangue nos olhos. “Aquilo se tornou a prova para mim mesma de que estava curada, de que era saudável e de que podia sonhar o que quisesse”.

Quando a linha de chegada vira uma nova largada

Nathalia Fuzzaro e sua superação (Foto: Arquivo Pessoal)

Contra todas as expectativas, o dia da prova chegou a Nathalia não estava com medo ou nervosa. “Lembro de fazer tudo com muita calma. Nadei bem, fui uma das últimas a entregar a bicicleta e caminhei um pouco na corrida – eu não queria que acabasse. Os últimos 2 quilômetros eu corri chorando... Lembrei da cirurgia, lembrei de tudo o que tive que superar sozinha para chegar ali e cruzei a linha de chegada dando sprint com a mão na cicatriz e agradecendo à Deus.

Foi a melhor sensação da vida. De missão cumprida. Pensei ‘eu posso tudo’! Me senti livre, aliviada, viva”, conta. Sim, ela completou aquela e várias outras provas de triathlon. E quando diz que pode tudo, acredite, ela pode mesmo.

Agora, Nathalia se prepara para seu primeiro meio Ironman 70.3 (inacreditáveis 1,9Km de natação, 90Km de ciclismo e 21,1 Km de corrida). “Vivo normalmente, meu corpo se adaptou à falta do rim e o que ficou é turbinado. Mas a cirurgia me fez ter mais fome de viver. Eu, que sempre fui intensa, agora vivo cada instante na potência máxima. Aprendi a não ter tanto medo e não limitar meu coração. Virei uma pessoa ainda mais sensível, agora abraço os sentimentos e os deixo fluir. E é exatamente nisso que o esporte me completa: ele me faz mais humana a cada dia. Mais sonhadora, mais humilde, mais resiliente, mais viva.Amo sentir o corpo fluindo na água junto com as ondas do mar, o vento bater no rosto enquanto pedalo, e os pés empurrando o solo imperfeito enquanto corro. Dói, mas é prazeroso ao mesmo tempo. Como a vida, né?!”