Ela descobriu a morte do filho pelas redes sociais e conta o que aprendeu com o luto

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Ucelene Oliveira, 41, teve o filho assassinado brutalmente e soube do caso pelo facebook (Foto: Arquivo Pessoal)
Ucelene Oliveira, 41, teve o filho assassinado brutalmente e soube do caso pelo facebook (Foto: Arquivo Pessoal)

Ucelene Oliveira, 41, vive em Natal, no Rio Grande do Norte. Dez dias antes do início da pandemia, seu filho foi assassinado e ela descobriu isso pelas redes sociais. Mesmo com o isolamento social, ela conta como lidou com o luto e como a resiliência que faz parte da sua vida foi primordial neste momento:

Sempre fui uma pessoa muito fácil de me adaptar às mudanças da vida. Minha mãe era funcionária pública e cheguei a morar em oito cidades diferentes. Trocava de escola e logo me adaptava. Há quem fique triste de deixar os amigos para trás, mas sempre confiei que as mudanças vêm para melhorar a nossa vida.

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Independente da área que a mudança acontece na vida, seja em um relacionamento que não dá certo ou uma mudança de trabalho... A gente até pode ficar triste com essa novidade que a vida traz, mas temos que enxergar que aquilo ficou para trás e precisamos seguir em frente.

Toda essa resiliência foi muito importante para lidar com a maior tristeza da minha vida: perder meu filho. O luto é devastador e foi muito difícil passar por esse momento.

Cerca de uns dez dias antes de estourar a pandemia no Brasil, meu filho foi viajar para Apodi (interior do Rio Grande do Norte) no Carnaval e acabou arrumando uma namorada por lá e resolveu ficar mais alguns dias em Caraúbas (interior do RN). Ele saiu para curtir a festa e eu nunca mais o vi.

Descobri isso da pior forma possível: por meio das redes sociais. Estava dormindo quando Wober, meu filho mais velho que tem deficiência cognitiva, me acordou falando para eu olhar para ver uma foto do Andrier, meu caçula. Quando dei por mim estava olhando para o meu filho morto com um tiro de calibre 12 na cabeça.

A gente não consegue medir a fé, mas ela está dentro de nós

De início, não acreditei que era ele. Não sabia se estava tendo um pesadelo ou se era uma notícia falsa. Só acreditei quando vi uma foto do RG dele. Não conseguia nem chorar. Foi só 30 minutos depois que entendi que era real e que eu tinha perdido meu filho.

O pior é que o assassinato dele ficou sem solução. A polícia não prendeu ninguém e as pessoas não sabem o que aconteceu [ou não falam]. Ele também não tinha inimigos na cidade. Todo mundo estranhou a morte, mas o fato é que alguém encomendou a morte dele. O que era mais uma razão para eu ficar deprimida e revoltada com a falta de solução para o caso. Mas entendi que nada disso ia trazer a vida dele de volta!

O assassinato de um filho

Essa foi a minha primeira experiência com o luto, pois nunca perdi familiares próximos. Perder um filho é perder um pedaço da gente. Por mais que muita gente imagine a dor dessa perda, é totalmente diferente da realidade. A experiência é muito ruim, mas consegui passar por tudo isso também com o apoio e acolhimento de toda a minha família.

Meu outro filho Wagner tomou a frente de todos os cuidados para o translado do corpo do Andrier para Natal (capital do RN), além do velório e enterro. Também tinha muito receio de como o Wober ia reagir porque ele sempre foi muito apegado ao irmão. Tinha dias que ele parava e olhava para o céu e me perguntava se o irmão tinha virado estrelinha. Meu coração apertava, mas sabia que tinha que ser forte por mim e por ele.

A fé movendo

O luto veio junto com o isolamento social por conta da pandemia e não foi nada fácil esse período. Além de estar mal com tudo que aconteceu, ligava a TV e só via mortes e pessoas doentes, fora o impacto na minha renda. Sou diarista e atendia cinco casas, passei a ter uma só! Mas sempre pensei que esse cenário ia mudar e que não podia baixar a cabeça.

Para mim, isso só é possível com muita fé. A gente não consegue medir a fé, mas ela está dentro de nós. Durante toda essa experiência, sempre tive fé que meu trabalho iria normalizar, além de acreditar que no futuro em outro plano vou encontrar e abraçar o meu filho. É essa esperança que me fortalece e me faz seguir em frente.

Sempre gostei de estudar e agora retomei o curso de hotelaria. Estou gostando muito das aulas e tenho certeza que vou gostar dessa profissão que traz a possibilidade de conhecer muitas pessoas novas. No futuro, quero fazer faculdade de Turismo também. No fim, me manter ativa me faz bem e, por mais que o luto seja devastador, precisamos seguir firme e focar no lado bom das coisas que a vida nos proporciona.

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