“Educação sexual protege crianças e adolescentes”, diz autora

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Ninguém deixa de se desenvolver sexualmente porque os pais decidiram não tocar no assunto em casa e censuraram a escola: “Meus filhos não têm idade pra essas coisas!”. Muita gente por aí com “idade pra essas coisas” pode tocar no assunto E nos seus filhos sem que eles tenham censura suficiente para se defender. Se não damos as informações necessárias, lançamos ao mundo crianças e adolescentes despreparados e sujeitos a muitos riscos – assédio, estupro, exploração sexual, pornografia infanto-juvenil, entre outros. Das mais de 10 mil denúncias de violência sexual recebidas pelo Disque 100 em todo o país, mais da metade (53%) foram cometidas contra adolescentes de 12 a 17 anos.

“Não falar sobre o assunto favorece aos próprios abusadores, que precisam desse tabu para não serem expostos e continuarem a cometer crimes”, diz a jornalista e educadora sexual Julieta Jacob, que há anos realiza palestras e oficinas com jovens. Ela é autora de “Tuca e Juba – Prevenção de Violência Sexual para Adolescentes” (Instituto Cores). Recém-publicado, o livro ilustrado e cheio de recursos lúdicos convida a refletir sobre consentimento até por meio de um quiz. Está à venda e também pode ser lido na íntegra gratuitamente pelo site. Aqui Julieta desmistifica “a conversa sobre sexo”.

– Existe uma ideia bastante equivocada a respeito de educação sexual. Por exemplo, de que incentivaria as crianças a fazer sexo, “virar gay”, praticar sexo oral etc. Qual a verdadeira proposta dessa disciplina?

JULIETA – A OMS analisou mais de mil relatórios sobre o impacto da educação sexual no comportamento de jovens e comprovou que quanto mais informação de qualidade sobre sexualidade, mais tarde os adolescentes iniciam a vida sexual. Por isso, o mito de que a educação sexual pode erotizar ou incentivar a iniciação sexual precoce precisa ser superado. Devemos fornecer informações claras e acessíveis para que o exercício da sexualidade ocorra de forma segura e responsável, tanto do ponto de vista emocional quanto físico (prevenção de gravidez na adolescência e infecções sexualmente transmissíveis, por exemplo). Mais do que falar sobre sexo, temos que abordar autonomia corporal, identidade, privacidade, autoproteção, gênero, consentimento, autoestima, sentimentos, puberdade e relacionamentos.

– A partir de que idade você acredita que devemos começar a conversar sobre sexualidade com as crianças? E sobre o que podemos falar?

JULIETA – Já na primeira infância, a partir dos 2 anos de idade, é possível apresentar à criança a sua imagem corporal completa – inclusive nomeando os órgãos genitais e mostrando as diferenças entre meninos e meninas. Aos poucos, mostrar que ela é dona do seu corpo e tem o direito de dizer “não” sempre que não quiser ser tocada. Reforçar que as partes íntimas só devem ser tocadas por adultos em situações de cuidado e/ou higiene é também fundamental para que a criança aprenda a diferenciar cuidado e proteção de abuso. Entender de onde vêm os bebês, como eles entram e saem da barriga também devem esclarecidos com linguagem adequada à faixa etária.

Jornalista e educadora sexual, Julieta Jacob ministra oficinas para grupos de adolescentes (Divulgação)
Jornalista e educadora sexual, Julieta Jacob ministra oficinas para grupos de adolescentes (Divulgação)

– O que você diria para quem gostaria de abordar o assunto em casa, mas não se sente preparado ou fica constrangido?

JULIETA – Eu perguntaria: você deixaria o seu constrangimento de lado se soubesse que crianças e adolescentes que têm educação sexual, na escola e em casa, estão 6 vezes mais protegidas contra a violência sexual? Pois bem. É hora de repensar o seu constrangimento. É claro que muitos de nós, adultos, não tivemos educação sexual, não aprendemos a valorizá-la e por isso mal sabemos por onde começar com os nossos filhos. Um bom começo é encará-la como algo positivo e necessário que fará parte do dia a dia de forma leve e integrada (não “aquela conversa chata”). O mais importante, nesse contexto, é estar sempre aberto e disponível para o diálogo honesto e deixar isso bem claro para as crianças.

– “TUCA E JUBA” traz ilustrações, quiz e linguagem de redes sociais. Por que você escolheu publicar nesse formato?

JULIETA – Para que eles se identifiquem com os personagens e situações do seu dia a dia. Por meio de exemplos concretos, explicamos conceitos e damos informações importantes sobre como identificar e se proteger contra violências sexuais, além de prevenir que os adolescentes também as reproduzam. É um livro voltado para o público a partir de 12 anos e para todas as pessoas e profissionais que atuam com os jovens – pais, mães, educadores e profissionais de saúde.

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria

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