Como falar sobre educação sexual com as crianças e lutar contra o abuso infantil?

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Começar desde cedo conversas que situem a criança sobre o próprio corpo e a ajudam a estabelecer limites de contato auxiliam no combate ao abuso sexual (Foto: Getty Creative)
Começar desde cedo conversas que situem a criança sobre o próprio corpo e a ajudam a estabelecer limites de contato auxiliam no combate ao abuso sexual (Foto: Getty Creative)

Na última semana, o Brasil ficou em choque com a história de uma menina de 10 anos que foi autorizada pela justiça a fazer um aborto após ter engravidado do próprio tio. O assunto gerou polêmica e até protestos na porta do hospital em que o procedimento aconteceria, mas o que nos preocupou mesmo foi a falta de conhecimento das pessoas sobre educação sexual e prevenção ao estupro.

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Ao contrário do que se pensa, essa prevenção não acontece ensinando meninas a usarem roupas que "não provocam", a não andarem sozinhas à noite ou a não beberem demais em festas. É o resultado de um investimento pesado em educação sexual - o que não tem relação alguma com ensinar crianças a transar, como se pensa por aí. Vamos explorar um pouco mais como isso funciona nos parágrafos abaixo:

1.Antes de mais nada, ouça a pergunta

Segundo Débora Pádua, fisioterapeuta pélvica e sexóloga, começar uma conversa sobre sexualidade com crianças depende de muitos fatores. O primeiro é o próprio desenvolvimento pessoal do pequeno, em que a criança pode trazer curiosidades mais cedo ou quando tiver um pouco mais de idade.

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"As questões de sexualidade das crianças são muito diferentes das questões de um adulto", explica a profissional. "Eles percebem que é diferente uma menina de um menino, que um tem pênis e o outro tem vagina… Às vezes, essas perguntas têm que ser respondidas quando aparece. Você não precisa despertar a curiosidade dessa criança, mas se ela tem uma curiosidade, você tem que saná-la com respostas simples."

Débora conta que o mais importante é saber de onde vem a pergunta da criança, para respondê-la conforme a necessidade que se apresenta. O que acontece, normalmente, é que adultos respondem uma pergunta sobre o tema a partir da sua visão mais desenvolvida, o que não necessariamente é o que a criança busca.

"São coisas diferentes você conversar sobre sexualidade e você ensinar uma criança o que pode e o que não pode. É estipular as pessoas que podem tocar [nas áreas íntimas], para que a criança vá entendendo que é o corpinho dela e que não é qualquer pessoa que pode tocá-lo. São duas conversas sobre sexualidade que são diferentes, mas que uma coisa puxa a outra".

Por isso, ela explica que é tão essencial reforçar que o primeiro passo para desenvolver uma conversa sobre o assunto precisa partir das necessidades e curiosidades da própria criança e não da mente do adulto, focada na sexualidade como algo físico, que envolve o sexo propriamente dito.

"As crianças ainda estão desenvolvendo todas essas dúvidas e questões. Os pais ficam apavorados, e muitas vezes à toa, porque a criança quer uma resposta simples daquilo ali, porque na cabeça dela ainda é tudo muito simples", diz.

2. Fale da perspectiva da criança e se mantenha atento

Para a Ana Carolina Lúcio Pereira, ginecologista membro da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), manter-se atento é muito importante para levantar questões como sexualidade para as crianças, sempre buscando falar com elas a partir da sua perspectiva e não da visão do adulto.

"A sexualidade deve ser trabalhada com a criança desde a puberdade para que seja orientada e não tenha receios de abordar o tema com a família", começa. "Porém, é muito importante que seja sempre ressaltado a importância da inviolabilidade do corpo da criança para que a mesma tenha noção dos limites que o outro pode agir com ela, visto que existem muitos abusos e riscos independente da idade."

Para a médica, a família deve se manter sempre atenta e observadora para proteger a integridade física da criança. "Muitas crianças sofrem violações genitais por parentes e conhecidos, por isso requer um vínculo de abertura desde os primórdios e isso é um trabalho difícil e delicado, pois exige que a família tenha esta orientação e percepção", explica.

A pediatra Flavia Oliveira, da Sociedade Brasileira de Pediatria, reforça que a conversa tem que sempre ser direcionada segundo a idade e a demanda da criança - isso garante uma fala objetiva e que demonstra exatamente onde está a sua curiosidade e as questões que ela está descobrindo naquele momento. "A gente tem que responder o que a criança está perguntando, nem menos nem mais. Se ela está perguntando, é porque ela está capacitada para ouvir a resposta naquele momento."

3. Permita que a criança conheça o próprio corpo

Ter esse canal de diálogo aberto, aliás, evita que a criança ou o adolescente recorra à internet para sanar as suas próprias dúvidas, de forma que ela pode encontrar ali informações que não necessariamente sejam positivas para ela ou que direcionam o seu senso crítico a ponto de saber o que é adequado ou não - até mesmo desenvolvendo uma noção inconsciente de que esses assuntos são proibidos ou errados, alimentando a roda de tabu sobre o tema.

"Importante incentivar a criança a conhecer o próprio corpo e entender o que é privacidade, intimidade, e o que pode ou não ser feito. A conversa tem que ser direcionada para o amor próprio, para o autocuidado, e mostrar que a manipulação por outras pessoas das partes íntimas não deve ser feita nunca, que aquilo não é adequado, mesmo que a pessoa fale que é, mesmo que seja uma pessoa conhecida, orientar firmemente em relação a isso e desde pequeno", orienta Flavia.

4. Entenda o que é abuso sexual

"Abuso sexual é qualquer forma de ato sexual contra uma criança ou adolescente até 14 anos, ele é considerado estupro e sua denúncia é compulsória", explica a pediatra. De acordo com ela, assim como o número de casos de violência doméstica, que pode inclusive incluir abusos contra crianças, aumentou em 50% durante a pandemia de coronavírus, o número de denúncias no Conselho Tutelar para casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes caiu 70%.

Isso é notável porque demonstra tanto uma questão em relação ao recebimento dessas denúncias - há de se acreditar que o conselho tutelar esteja lidando com muitas demandas em tempos de pandemia, quanto o medo ou até mesmo a falta de noção das próprias vítimas sobre essa questão.

Só em 2018, por exemplo, foram registradas em média duas denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes por hora, sendo a segunda causa de danos mais frequente em crianças de 2 anos até a adolescência depois dos acidentes. Sabe-se também que a maioria esmagadora desses abusos acontecem dentro de casa, por pessoas conhecidas ou próximas da criança.

"A criança não sabe nomear adequadamente os sentimentos, e ela vai construir a memória de uma situação a partir do relato do adulto", explica Flávia. "No caso do abusador, essa memória vai ser implantada na cabeça dela de uma maneira distorcida. É importante, na formação da criança, ela ser incentivada, estimulada a conversar e ter um canal de conversa aberto real, ela se sentir acolhida, poder se expressar sem ser repreendida ou banalizada".

É por isso que, para Ana Carolina, a educação sexual precisa ser um trabalho conjunto da sociedade e deve ser ressaltada tanto em casa, nos meios de comunicação e também com os médicos responsáveis. "Abordar o tema, de uma forma clara, pode impedir abusos. A responsabilidade social dessa educação é imensa e, apesar de ser amorosa por necessitar várias etapas e formas diferentes de abordagem, deve ser sempre discutida", diz.

5. ”Meu corpo, minhas regras”

Reforçando o que citamos alguns parágrafos acima, é importantíssimo manter no cotidiano das crianças e pré-adolescentes um diálogo que aborde o que é adequado e o que não é adequado, sempre considerando a idade e o momento de cada um.

"Uma criança precisa entender primeiro que o corpo dela é dela e que ninguém tem que tocar no corpo dela se ela não quiser ser tocada", diz Débora. Para a sexóloga, é interessante, inclusive, evitar incentivar a criança a dar beijos e abraços em todo mundo, por exemplo, para que ela não se confunda e entenda que, na verdade, o corpo dela, no geral, não pode ser tocado se ela não quiser.

"Depois, ela precisa entender que alguns lugares são ainda mais íntimos de serem tocados e que aí não é qualquer pessoa mesmo que tem que tocar, como o bumbum, o ânus, a vagina, a boca, e que elas também não têm que tocar outra pessoa se elas não quiserem, se não sentirem vontade. Nos mesmo lugares que ela não tem que ser tocada, ela não tem que tocar em outras pessoas."

Essa educação e conversa conjunta garante que a criança cresça com consciência sobre o próprio corpo e o que ultrapassa a linha do aceitável, do real carinho e cuidado. Lembrando sempre que, muitas vezes, o abusador usa de um discurso que distorce a visão da criança ou do adolescente sobre o que está acontecendo, o que dificulta, e muito, o combate a esse tipo de violência.

"O abusador usa de um roteiro para deixar aquela situação parecer que é outra coisa, 'isso é um carinho', 'não conta pra ninguém que isso é uma coisa só nossa'", explica Flavia. "Outro caminho é o da coação, 'não conta para ninguém ou eu vou matar a sua família'. E quando o abusador faz essa romantização, a criança cresce achando que aquilo foi normal. Ela só vai descobrir que sofreu uma violência na vida adulta ou quando desenvolve um pouco mais de consciência, depois da adolescência."

Por isso, vale manter sempre em mente a importância de desenvolver um canal de conversa claro e sempre aberto, pronto para acolher as dúvidas e inseguranças da criança, a ponto de evitar casos extremos. No mais, denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes entrando em contato diretamente com o Conselho Tutelar do seu município ou discando 100 de qualquer telefone, a qualquer hora ou dia da semana.