Educação à distância: como pais e escolas têm lidado com o online?

Marcela De Mingo
·6 minuto de leitura
escolas ensino à distância
Pais e escolas têm enfrentado desafios com o ensino à distância das crianças (Foto: Getty Creative)

Carol Altoé é designer de joias e, quando foram anunciadas as medidas preventivas de contenção do novo coronavírus, como o isolamento social, precisou passar a trabalhar de casa. O mesmo aconteceu com Bia, sua filha de nove anos, que teve as aulas suspensas na escola.

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Assim como muitos pais, Carol tem em mãos um novo desafio: cuidar do trabalho e das novas demandas de adaptação ao momento ao mesmo tempo que a filha troca o tempo na escola pelos dias em casa, com lições e aulas oferecidas pela internet. "Tem sido um treino muito grande. Tenho treinado observá-la e querer entendê-la", explica ela ao Yahoo!.

Carol e o pai de Bia, Gustavo, têm feito o que podem para ajudá-la com as tarefas enquanto se adequam ao home office - e percebem que a maior dificuldade não é com a menina, em si, mas, sim, com a própria escola, ainda pouco preparada para uma situação tão extrema e que chegou tão de repente.

"Eu e o Gu temos ajudado nas tarefas e ficamos perto durante o horário das lições. A escola tem mandado exercícios, links, vídeos e os professores ficam no chat em horários determinados. A escola também está se adaptando. Ainda está longe de ser totalmente preparada, mas vejo que estão tentando", explica.

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Falando em adaptação, alguns pais com crianças pequenas têm tido ainda mais dificuldade na hora de criar uma rotina de estudos com os filhos. A administradora Flávia Paro, que tem uma filha de 3 e outra de 7 anos, tem sentido na pele essa questão, especialmente quando se fala em gestão de tempo.

Ela, que está em quarentena com as filhas desde do dia 17 de março deste ano, viu nos primeiros dias a maior fonte de estresse. Na época, a escola mandava tarefas diariamente para os alunos, e ela precisava sentar com as duas para fazer as lições, depois fazer o almoço para só então sentar no computador e trabalhar - mas sempre com um olho nas filhas, especialmente a mais nova, que é bastante ativa. Seu marido é gestor financeiro em fábricas e ainda precisa passar o dia fora por conta do trabalho.

Agora, o esquema mudou, e a escola passou a oferecer aulas online, de forma que a filha mais velha de Flávia fica boa parte do dia "na escola". "Minha mais velha fica das 8h às 15h com fone de ouvido no computador. Tem dois momentos de intervalo. Isso melhorou para mim, pois não preciso ajudá-la em praticamente nada", diz. "A rotina é como se ela estivesse na escola mesmo. A mais nova não quer nem saber das aulas online, hoje começou com aula de música, ela ficou 5 minutos e perdeu o interesse".

Mesmo assim, para a administradora os dias têm ficado bastante cheios e conseguir dar conta de tudo tem sido um desafio: "Minha maior dificuldade é administrar o tempo com trabalho/tarefas de casa/atenção para as meninas. Meu marido chega no fim da tarde e daí alivia bastante. Às vezes, consigo fazer uma hora de ginástica, umas duas ou três vezes por semana".

O lado da escola

Para Flávia, também foi importante receber uma circular da escola explicando os procedimentos para essa segunda fase de ensino à distância, com professores online em tempo real através de uma plataforma na internet.

A instituição ainda ofereceu dicas de como manter a rotina durante o período, como acordar a criança antes do horário da aula e deixar os materiais próximos ao local de estudo, além de disponibilizar contatos da equipe de tecnologia parar tirar dúvidas ou resolver questões com as plataformas.

Segundo Fabiana Souza, diretora do Criem - Educação Infantil e Fundamental, a transição do presencial para o online tem sido feita de forma gradativa, e algumas ferramentas, como o Google Classroom, foram extremamente importantes para essa adaptação.

"Desde a primeira semana, foram disponibilizados vídeos diários dos professores com instruções para as tarefas. Na segunda semana, iniciamos com aulas ao vivo, via Google Meet, visando apresentar esse novo ambiente para os alunos, ensinamos as regras de etiqueta da ferramenta: como desativar microfone, quando estiver com dúvidas usar o chat, quando alguém estiver falando não interromper, etc.", diz.

O estudo, porém, tem ido além de ensinar as matérias tradicionais da escola, mas também de explorar emoções e sentimentos, estimular a atividade física com aulas ao vivo, além de oferecer aulas de música, artes e inglês.

Father Works On Laptop As Mother Helps Son With Homework On Kitchen Table
Abrir o diálogo entre pais e a própria escola facilita o processo de adaptação (Foto: Getty Creative)

Para o Criem, no entanto, essa mudança do presencial para o online foi mais fácil, já que há quatro anos a escola vêm buscando modernizar o ensino, preparando professores para ministrarem aulas online e fazerem uso de novas tecnologias. "As formações eram ministradas dentro do Criem, uma oportunidade para os educadores reformularem seus conceitos sobre quem aprende e quem ensina, lembrando sempre que a inovação não está em uma ferramenta ou tecnologia. Pessoas são a inovação que a educação necessita", continua.

Assim como os pais estão em uma fase de entender como lidar com um momento que, além de tudo, é preocupante em termos de saúde, a escola tem visto o seu principal desafio em respeitar cada ambiente familiar e dar aulas mesmo em meio a tensão que ronda a quarentena. "Empatia deve estar presente no momento de planejar, aplicar e revisar cada aula. Precisamos, mais do que nunca, olhar para cada aluno com a intenção de ajudá-lo a lidar com duas grandes questões: a escola e a família", explica.

O direcionamento não fica reservado apenas ao corpo docente. Para Fabiana, também têm sido essencial fazer como a escola das filhas de Flávia, e oferecer instruções muito claras para os pais. Como não são educadores, eles precisam de ajuda para entender como ajudar os filhos, ao mesmo tempo que equilibram o trabalho em casa: "Estamos realizando atendimentos individuais com as famílias que mais necessitam. Esse auxílio envolve desde falar com os pais até conversar com a criança sobre o que esperamos dela nesse momento e o quanto é importante sermos responsáveis com o próprio desenvolvimento escolar".

Fabiana acredita que todo esse processo terá um impacto permanente na educação, principalmente em termos de formato. Se antes a internet era apenas um espaço para atividades específicas e pouco explorado, agora virou a única ferramenta que permite a continuidade do ensino, tanto nas escolas públicas quanto privadas.

"Há décadas estamos discutindo sobre inovação na educação e avançamos muito pouco. Todos os outros setores da sociedade estão à frente na maneira como se relacionam com seus consumidores, mas na maioria das escolas, continuamos com as mesmas aulas do século passado", reflete. "Se depois do COVID-19 todos os educadores compreenderem que a inovação se trata da maneira como nos relacionamos com os nossos alunos, teremos uma escola disruptiva e com processos mais significativos. Podemos aprender com o que estamos passando para, apesar da distância imposta, tornarmos a escola um ambiente ainda mais acolhedor e com oportunidades iguais para todos de uma forma que jamais tivemos".